Excertos do Subsolo – “Meu Corpo”

O primeiro significante decisivo foi a expressão “meu corpo”. Naquele momento prestei atenção ao que ela dizia. Ouvi-la dizer “meu corpo” com aquela languidez e displicência trouxe novamente minha atenção àquela conversa. A fumaça do cigarro e o café amargo sobre a mesa já eram, então, significantes gastos: ela os consumia mais por insegurança do que por gosto. Achava que essas coisas conferiam um ar de maturidade, de segurança, até mesmo de inteligência. Mesmo assim, eu entendia: ela era profundamente triste.

Charlotte Gainsbourg

Nunca conheci uma pessoa que se sentisse tão sozinha e não percebesse. Ela evidentemente tinha amigos, colegas, família. Mas ninguém lhe conferia o reconhecimento de que ela precisava para se sentir uma pessoa. Não havia um olhar sequer que a visse como ela era e, assim, lhe conferisse o valor desejado. Sentia-se um peso, um fardo, um inconveniente incômodo que uns e outros carregavam por piedade, e não por amor. E há muito tempo havia empreendido no caminho de tentar cultivar uma personalidade a partir da qual ela pudesse se amar.

Esse culto começou com o corpo. Tinha a sorte de ser bonita, de se achar bonita e se sentir bonita mesmo que soubesse que seu corpo não estivesse nos padrões de excelência das exigências da sociedade. Tinha a melhor das belezas, que é a beleza daqueles que se sentem belos. Durante anos a nudez diante do espelho foi um vício metade secreto, metade dividido com os amantes que tinham a sensibilidade de perceber o tempo excessivo que ela dispensava diante do espelho se examinando, aplicando cosméticos e penteando os cabelos.

Charlotte Gainsbourg

Não tardou, aliás, para que ela descobrisse que o corpo era um modo de tentar fazer as pessoas gostarem dela. E ela tentou. E algumas pessoas, evidentemente, gostaram do seu corpo. Talvez nesse momento – e esse é meu palpite, minha hipótese – ela tenha se “descolado” do próprio corpo, tenha percebido o próprio corpo como objeto de desejo dela própria. Desconfio disso quando a vejo enrodilhar o cabelo ou passar o polegar no lábio inferior, de um lado para o outro, enquanto tenta se lembrar de alguma coisa.

Lembro que a primeira vez que conversei com ela foi em uma reunião na casa de amigos. Ela estava contando sobre um livro que havia lido, um livro muito lido mas que credencia um certo refinamento ao círculo que o lê. Ela falava com uma empolgação desproporcional, era o centro das atenções do grupo de pessoas e sabia que estava linda, chamando atenção com o que dizia enquanto segurava o cigarro e contava como suas próprias vivências eram parecidas com as da narrativa no livro. Em um daqueles momentos mágicos, ela deu uma gargalhada e houve um estrondo. A luz se apagou e vimos que o carro do entregador de pizza havia se chocado contra o poste. Passaríamos a madrugada sem energia elétrica. Comeríamos a pizza e ela, percebi, ficaria de mau humor até ser o centro das atenções novamente. Percebi isso. E ganhei seu “corpo” quando disse que a gargalhada dela havia “causado” aquele episódio como as gargalhadas das feiticeiras produziam raios. Depois disso, vi seu sorriso se abrir em um segundo, e seu corpo em alguns minutos.

Foi naquela noite que ela usou o significante decisivo. A palavra mágica, que a fazia usar o corpo como se fosse um soldado em uma missão de reconhecimento de uma terra à ser conquistada. “Meu corpo”, como se fosse “meu soldado”. Naquela noite, eu era o território. E aquele corpo-soldado enfrentaria sua missão com certa alegria, mas com a expectativa da vitória. Aquele corpo-soldado, conquistador de um território novo, estava a serviço de um general insaciável e quase invisível, que era sua alma. O corpo-soldado sabia se satisfazer, mas o general não. Quando percebi, mantive certa distância.

charlotte gainsbourg_2-592Vi outros territórios sendo conquistados, um a um. E nas próprias reuniões, na casa de amigos, vi seu nome se tornar comentário em função da rápida e fácil troca de amantes com a qual ela se presenteava. Tomavam-na por promíscua, ninfomaníaca, faziam julgamentos morais em cochichos há poucos metros de distância. Duas das moças que comentavam tinham seus namorados e pareciam esquecer que eu já as ouvira falando do quanto se perde em diversão em um relacionamento sério, do quanto sentiam falta da empolgação, da novidade ou mesmo de se sentirem olhadas com desejo por um desconhecido. Ouvindo esses comentários eu quase me sensibilizava. Tinha vontade de dizer àquelas mulheres rancorosas que elas eram as vilãs! Que elas lutavam contra desejos que, por capricho e frescura, reprimiam, enquanto aquela outra sim era uma santa, uma santa que lutava com todas as suas forças para ser alguém. Bêbado, tinha vontade de me jogar aos pés dela e dizer que a entendia, que entendia tudo o que a atormentava, que lhe daria amor até o fim dos seus dias, que viveria com o escravo do qual ela precisava do olhar vigilante para afastar seu medo de desaparecer no esquecimento de todos! Mas, aquela noite ela escolheu outra pessoa e eu fui para a casa de táxi.

(O interessante daquela noite é que ela escolheu a companhia de uma mulher, o que só dá mais força à minha teoria: seu corpo era um soldado em busca de um olhar qualificado, que enxergasse sua alma. Saber apreciar outro corpo feminino explicava também como e porque a expressão mágica “meu corpo” era pronunciada com tanta languidez e sensualidade: ela achava a si mesma uma mulher desejável e sua alma desejava o próprio corpo, como se fosse o corpo de um outro.)

Aquele dia foi decisivo nessa história. Porque levei algumas semanas para tomar consciência de que uma eventual história entre nós não passava de uma companhia imaginária que criei para mim mesmo. Achei que a seduziria com algum mistério e palavras certas, mas nesses jogos de forças ela sempre tinha de ser quase sempre o pólo mais forte, que seduz e decide. Ela não faria, e não fez, nenhum esforço para ficar comigo.

E então se passaram quase dez anos.

E ela permanece absolutamente a mesma. Continuou tomando café sem açúcar e fumando em função do culto de si mesma, tarefa que ainda não completou. Não me surpreende que não lembre com nitidez daqueles dias: estava tão ocupada de si mesma que não teria podido perceber a riqueza do que a cercava. Mesmo hoje, ainda parece um tanto quanto enredada nessa tarefa difícil. Para mim não é difícil notar a tristeza com a qual fala “meu corpo”, como se referisse a um amigo com o qual ela foi negligente e, às vezes, cruel. Se a expressão mágica ainda surge naturalmente em suas palavras, é porque ainda não desistiu desse caminho e segue enviando esse soldado – ainda jovem, mas já cansado – para a batalha em busca de um território no qual possa descansar. Percebo, pelo comentário acerca do seu casamento frustrado e alguns outros, que ela já sabe o suficiente sobre si mesma para perceber que é vista por muitos como uma libertina, uma depravada, embora ela própria já o saiba que não é, mesmo que tal pecha seja conseqüência quase inevitável da vida que leva. Quando demonstro compreendê-la, ela sorri e me olha nos olhos. Desvio rápido. Não quero que ela suponha, por um instante sequer, que nesse momento mágico eu a amo, que a amo com uma compreensão total, e quase com uma devoção. Antes de ela ir embora, peço a última tragada do seu cigarro. Ela não nota, mas o apago delicadamente no cinzeiro, sem amassar o filtro. Nos beijamos no rosto e eu a desejo “tudo de bom”, muita sorte na vida, e essas coisas. Vejo seu corpo desaparecer na avenida, sumindo na multidão, mais linda do que há anos atrás. Guardo aquele filtro de cigarro, com uma delicada mancha de batom, enrolado em um pedaço de papel.

Charlotte Gainsbourg

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Excertos do Subsolo – “Meu Corpo”

  1. “Não me surpreende que não lembre com nitidez daqueles dias: estava tão ocupada de si mesma que não teria podido perceber a riqueza do que a cercava.”

    Gente, só uma coisa: <3.

  2. ” – Não estou querendo dizer que só os homens instruídos e cultos são capazes de contribuir com algo valioso para o mundo. Não é isso. O que quero dizer é que os homens instruídos e cultos, se de fato tiverem brilho e capacidade criadora- o que, infelizmente é raro- tendem a deixar registros infinitamente mais valiosos do que aqueles que apenas tem brilho e capacidade criadora. Tendem a se expressar com mais clareza e, geralmente, têm a paixão de desenvolver seu pensamento até o fim. E – o que é mais importante- na grande maioria dos casos têm mais humildade do que o pensador menos culto. Você está me acompanhando?” J.D. Salinger – O apanhador no campo de centeio.

    Parabéns. Você é um excelente escritor!

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