Please Remember

Seis acasos levaram Tereza até Tomas, em A insustentável leveza do ser. Penso que menos acasos me levaram a descobrir “Please Remember“, canção da banda Deafheaven. Não faço menção a obra de Kundera por acaso ou obsessão, porém: no início da canção, entre camadas e mais camadas de guitarras “atmosfericas”, ouvimos Stéphane Paut – o Neige, da banda Alcest – ler um trecho da referida obra. Cito:

“Twisting and turning beside the slumbering Tereza, he recalled something she had told him a long time before in the course of an insignificant conversation. They had been talking about his friend Z. when she announced, If I hadn’t met you, I’d certainly have fallen in love with him. Even then, her words had left Tomas in a strange state of melancholy, and now he realized it was only a matter of chance that Tereza loved him and not his friend Z. Apart from her consummated love for Tomas, there were, in the realm of possibility, an infinite number of unconsummated loves for other men. We all reject out of hand the idea that the love of our life may be something light or weightless; we presume our love is what must be, that without it our life would no longer be the same; we feel that Beethoven himself, gloomy and awe-inspiring, is playing the Es muss sein! to our own great love.”

Que traduzido para o português, fica mais ou menos assim:

“Virava-se na cama, ao lado de Tereza que já dormia, pensando no que ela lhe dissera há vários anos no meio de uma conversa banal. Estavam a falar de Z., um amigo de Tomas, e Tereza declarara: ‘Se não tivesse encontrado você, teria me apaixonado por ele.’ Já nessa época, essas palavras o tinham feito mergulhar numa estranha melancolia. Com efeito, compreendera de súbito que Tereza se apaixonara por ele e não por Z. perfeitamente por acaso. Que, para lá do seu amor por Tomas, já realizado, havia no reino dos possíveis um número infinito de amores não realizados por outros homens. Acreditamos todos que é impensável que o grande amor da nossa vida seja algo de leve, algo que não pesa nada; supomos que já estava escrito que o nosso amor tinha de ser o que é; que a nossa vida não era a mesma sem ele. Estamos todos convencidos de que o próprio Beethoven em pessoa, com o seu ar carrancudo e os cabelos em desordem, toca o seu Es muss sein! para nosso grande amor.”

Essa passagem está no décimo sétimo capítulo da primeira parte do romance, que é onde Tomas percebe que sua união com Tereza não é necessária, mas contingente. Ou seja: nada ligava Tomas a Tereza, senão o acaso. Tomas só percebe isso depois de voltar para Tereza. No instante da percepção dessa absoluta contingência, a compaixão sai de cena e o coração – e o estômago, segundo as palavras do próprio Kundera – de Tomas é tomado pelo desespero. Foi preciso voltar para Tereza para perceber que ela não precisava dele, afinal. Após nos oferecer a cena do desespero de Tomas, Kundera encerra a primeira das sete partes do romance.

Tomas e Tereza

Tomas e Tereza

Na canção, a voz sussurrante de Neige murmura o trecho ao som de guitarras oníricas, psicodélicas, delirantes. Repetindo a palavra “love” como um mantra ao final da leitura, somos conduzidos à um clímax de poluição sonora que, em seguida, dá lugar à um melancólico violão acústico, que sustenta por mais três minutos a atmosfera de fragilidade e contingência sugerida pelo trecho recitado. Para quem quiser conferir, segue um link:

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para Please Remember

  1. Val disse:

    esse blog consegue ficar cada vez mais lindo, incrível :)

    • Victor da Filosofia disse:

      Isso vindo da minha primeira leitora – e que me fazia companhia nas manhãs frias daquele julho de 2007, quando ele nasceu – pesa mil vezes mais. :)

  2. Alessandro disse:

    De alguém que estava fazendo a mesma associação nesse exato momento, e abrindo o livro já, para encontrar a passagem, parabéns, não só por fazer a relação, mas pelo texto e pelos bons gostos.

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