Momentos perfeitos

Já não vou – e certamente não irei mais – tanto para o campus da UFSM como já fui nos tempos de graduação. Espíritos mais práticos considerariam isso uma vantagem, tendo em vista a monstruosa piora do tráfego na(s) faixa(s) que liga(m) o centro de Santa Maria a Camobi, região onde fica o campus (a viagem que durava menos de meia hora hoje não é feita em menos de uma hora). Para mim que, exceto por pouco mais de meia dúzia de incursões a pé pela faixa, sempre vi a paisagem como se fosse uma projeção colada a tela que é a janela do ônibus, as infindáveis viagens sempre foram oportunidade de um doce misto de leitura, reflexão e fruição estética (da música nos fones de ouvido). Bibliografias e discografias já foram consumidas nesses aproximadamente dez quilômetros de viagem entre a cidade e o campus. Talvez projetos existenciais já tenham sido elaborados nesse trajeto, embora as reconstruções narrativas que permitiriam acesso à tais projetos sejam, em meu entendimento, mais aparentadas à arte literária que ao conhecimento e, portanto, não cabe falar deles em uma narração que tem relativas pretensões de verdade.

Hoje foi um desses dias de ida ao campus. Nem tanto por compromissos acadêmicos, é verdade. Mas não por acaso saí do CCSH com dois livros, um emprestado e um presente. Felizmente, aliás: a bugiganga em que ouço música (não sei que nome dar à itens eletrônicos que fazem quase dez coisas diferentes) decidiu me trair e simplesmente me condenar a ter de ouvir a prosa do mundo somada ao barulho dos motores do próprio ônibus. Na ida e na volta. Ao menos, então, eu tive o consolo da leitura.

Na volta, tive a oportunidade de ler um belíssimo artigo do prof. Noeli Rossato sobre Sartre (sim, li o artigo inteiro e sobrou tempo). Mais precisamente sobre um Sartre místico que endossei meio apressadamente e sobre o qual fui inquirido em minha defesa de mestrado. O artigo, apresentado em evento ocorrido em setembro de 2012 na cidade de Passo Fundo, apresenta uma leitura “desconfortável” de Sartre ao vinculá-lo com São João da Cruz, Santa Tereza D’Ávila e Santo Inácio de Loyola. A partir do romance A náusea, o autor evidencia como as experiências do protagonista do romance apresentam uma via de desconstrução subjetiva que o aproxima das místicas dos referidos santos. O texto também menciona o contraponto do protagonista, que é a personagem de sua amante, Anny. Tal personagem tem a mania de tentar dar substância e sentido à própria vida de uma maneira oposta à do protagonista. Para tanto, se serve de noções como “situações privilegiadas” e “momentos perfeitos”. Antes de explicitar rapidamente tais noções, acho que cabe voltar ao ônibus.

A mística do ônibus quase sempre foi, para mim, o espaço de reclusão solipsista à subjetividade de minhas leituras e de meus fones de ouvido. Exceto talvez por algumas conversas absolutamente fundamentais – intelectual e pessoalmente formadoras -, travadas sobretudo nos primeiros anos de graduação, o ônibus sempre foi para mim um espaço de recolhimento. Só havia a música e os livros. Os momentos de “parada reflexiva” à janela eram o descanso desse recolhimento ao qual eu quase sempre retornava. Contudo, sem os fones de ouvido a jorrar música diretamente dentro da cabeça, é mais difícil sintonizar a consciência no humor apropriado à “fruição existencial” do momento. Sobretudo quando há meia-dúzia de estudantes conversando em um volume que dificilmente poupa algum passageiro do conteúdo da conversa.

É decisivamente impossível ignorar, finalmente, um grupo de pessoas que decide tirar uma foto dentro do ônibus como se o episódio fosse uma festa.

Não sou nenhum lobo das estepes e meu relato não é ressentido para com a alegria de jovens universitários que não conseguem conter a euforia de viver a aventura que é uma vida universitária cheia de expectativas que, sem que eles notem, é precisamente o que tempera e colore as próprias experiências. Aliás, é a familiaridade daqueles estudantes com a Anny de A Náusea que me chamou a atenção: eles estavam em uma situação privilegiada que poderia ser transformada em momento perfeito! E embora dificilmente tivessem a consciência sofisticada que Anny tinha dessas situações e momentos (Anny era leitora de Inácio de Loyola!), sua simples conduta já denuncia que compreendem a importância, mesmo que em potência, da situação privilegiada. Que pode ser articulada, sobretudo narrativamente, em momento perfeito.

Para Sartre, os momentos perfeitos só existem em composições narrativas, nunca na própria vida

Para Sartre, os momentos perfeitos só existem em composições narrativas, nunca na própria vida

Sartre era desconfiado da possibilidade da vida ser vivida como uma aventura. Na verdade, há uma descontinuidade incontornável entre a vida e as narrativas sobre a vida. As aventuras só podem existir nestas últimas, nunca na própria vida. Contudo, o que é a vida quando a própria vida já é vivida como parte de uma narrativa? O que é a vida quando cada instante já é pré-compreendido como cena potencial de uma narrativa pública e coletiva que se sedimenta em arquivos virtuais dos quais cada vez menos eventos escapam? O que é a vida quando se dispõe de meios de comunicação e publicação da narrativa da própria vida através de textos, imagens, vídeos e outro sem-número de recursos? Perceba-se como essas perguntas me dão uma rasteira e eu resvalo para o lamaçal junto com esses jovens, pois estou absolutamente implicado nelas ao transformar o episódio deles em uma narrativa que compartilho quase que em tempo real.

“Nunca vi uma coisas dessas”, ouvi alguém sussurrar para outra pessoa, diante da cena. Compreendo perfeitamente a perplexidade, assim como compreendo perfeitamente a motivação e o sentimento daqueles jovens que já sabem que as situações privilegiadas poderão ser articuladas em momentos perfeitos sem dificuldade, haja vista a facilidade de compartilhamento dos elementos que tecem a aventura cotidiana. Aposto mesmo que com algum esforço eu poderia encontrar um desses estudantes e postar sua foto no ônibus. Finalmente: não foi coincidência, sincronicidade ou agudeza da minha sensibilidade que proporcionou o encontro – fático inclusive – da leitura de um texto e de uma situação relacionada a ele. Trata-se apenas de uma consequência normal de se mexer com a reflexão acerca da existência.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos e marcado , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Momentos perfeitos

  1. Puxa, parece que vivemos coisas parecidas, mesmo em cidades e universidades diferentes. Aqui também é aquela emoção ao revisitar as paisagens, os prédios e casas ficando mais raros e chegando ao campus, aquela beleza de natureza e tantas lembranças. Que tenhamos alegrias nas novas vivências. ;)

  2. Ao contrário, desde que busquei meu diploma nunca mais pisei na faculdade!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s