Jacques, o fatalista (e seu amo)

Semana passada aconteceu, nas redes sociais, uma brincadeira que consistia em listar os dez livros favoritos e passar a corrente para dez amigos. Fiz a lista. Optei por excluir os livros de filosofia, haja visto que eles sempre se me aparecem metade como prazer, mas metade como dever (e todos sabemos da disjunção exclusiva que existe – e é bom que exista – entre prazer e dever). Um amigo disse que escolhi “uma linha” de literatura para mencionar, dada a aparente familiaridade entre a maior parte dos autores citados. Tive de dizer que na verdade essa “linha” é precisamente dos romances que leio: não há outros. Assim como não li Cervantes, não li Agatha Christie, por exemplo. Segue a lista com pequenos comentários, da mesma forma que postei nas redes:

01. “A Imortalidade”, Milan Kundera – o romance mais inteligente e bem construído que já li.

02. “A Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera – o clássico do meu autor favorito é, além disso, pra mim, o texto mais “existencialista” já escrito.

03. “O Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde – uma escola de imoralismo. O tom sentencioso tira o fôlego. Dá vontade de sublinhar todo.

04. “O Lobo da Estepe”, Hermann Hesse – um romance místico e essencial a todos os “habitantes de dois mundos”.

05. “Tom Jones”, Henry Fielding – li por “recomendação do Kundera” e me surpreendi ao descobrir que o romance começou como aventura.

06. “Memórias do Subsolo”, Fiódor Dostoievski – um amigo diz (ou já disse) que a obra de Nietzsche é comentário à Dostoievski. Arrisco dizer que isso procede e se refere a primeira parte desse livro.

07. “O Estrangeiro”, Albert Camus – um verdadeiro laboratório filosófico. Ação gratuita, liberdade de indiferença, está tudo aqui e magistralmente composto.

08. “Noite”, Érico Veríssimo – o romance mais “dark” que já li. Pesado, claustrofóbico e escrito pela pena de um dos melhores escritores da língua portuguesa. Quem gosta de David Lynch (ou até de Silent Hill) deveria ler esse romance.

09. “O Livro do Riso e do Esquecimento”, Milan Kundera – mais uma obra prima de composição desse tcheco, que demonstra nesse livro que um romance não precisa ser presidido por uma story, mas pode ser organizado em toro do “tema e suas variações”.

10. “A Náusea”, Jean-Paul Sartre – o “discurso do método” do existencialismo demorou a me pegar. Só passei a apreciar quando achei que entendi mais ou menos a filosofia de Sartre.

Menção honrosa: “Jacques, o fatalista, e seu amo”, Denis Diderot (ainda não li todo) – mais uma recomendação do Kundera, esse romance é uma farra, uma brincadeira, um romance cômico onde só se vê uma tempestade de episódios.

Este fim de semana, concluí a leitura do Jacques. E ele tem que entrar nessa lista.

Como disse meu amigo, essa minha lista de dez tem uma “linha”. Tem um “estilo”. Compartilhariam muitas tags, por assim dizer. Exceto talvez pelo Tom Jones de Fielding, lido por mim há seis ou sete anos atrás, todos os demais são livros mais sombrios ou ao menos “existencialistas”. E o Jacques de Diderot se infiltra nessa lista para ampliar a fenda nessa barragem, pois é uma obra que para mim se impôs pela genialidade formal, e não exatamente pelo seu conteúdo.

O enredo seria de simples descrição, caso essa descrição fosse possível, e eis o começo da genialidade: é a história de Jacques e seu amo vindo de não se sabe onde e indodiderot-jacques-le-fataliste-auberge para algum lugar que também ignoramos. O que poderia parecer um tema de mistério é, na verdade, resultado da implosão da barreira entre leitor e escritor: Diderot literalmente brinca o tempo todo, deixando claro que a substância do presente, do passado e do futuro de Jacques e seu amo depende total e inteiramente das escolhas narrativas que ele fizer. Conversando o tempo inteiro com o leitor, Diderot cria um clima completamente favorável para um tipo de fruição completamente desconhecido àqueles que entram na literatura pelo “subsolo”. Diderot conversa, brinca, troça, interrompe constantemente a narrativa de Jacques para falar de qualquer outra coisa, desde episódios reais de sua vida pessoal até digressões completamente irrelevantes para a story de Jacques e seu amo.

Denis Diderot

Denis Diderot

Jacques, o fatalista, e seu amo é reconhecidamente uma obra inspirada em um outro romance famoso por sua liberdade narrativa: The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, de Lawrence Sterne. Os pesquisadores não tem uma posição definitiva sobre se Diderot teria mesmo recebido pessoalmente alguns capítulos de Tristram Shandy do próprio autor, mas têm certeza de que o francês teve contato com a obra do inglês (há mesmo uma referência direta, quase ao final do romance, a Sterne). Embora ainda não tenha lido Sterne (encontra-se na internet uma versão PDF do texto original, em inglês), está na minha lista em função de ser, como foi Tom Jones, um dos romances preferidos de Milan Kundera – que é, por sua vez, meu romancista preferido. Segundo Kundera, Jacques e Tristram Shandy são dois exercícios de liberdade narrativa que injustamente não fizeram escola. Duas obras que têm em germe uma potencialidade inexplorada pela arte romanesca.

Finalmente, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi que Jacques é um fatalista, e a implosão da barreira entre escritor e leitor revela nitidamente os fios através dos quais o escritor de fato “controla” os personagens e o ambiente da narrativa. Se “tudo já está escrito no pergaminho lá de cima” como diz Jacques, essa afirmação tem dois sentidos: metafísica para Jacques e metalinguística para o leitor, que constata nas inúmeras interrupções de Diderot a efetiva onipotência do escritor sobre o cenário.

Ah, eu havia começado a falar do enredo, não? Pois então. O enredo é a história de Jacques e seu amo viajando não se sabe de onde e nem para onde. E enquanto viajam, o par e seu mestre Diderot nos divertem com histórias vividas e narradas. Histórias de amores, de traições e de contendas, regadas à muito vinho. Quais sejam essas histórias que preenchem as duzentos e cinquenta páginas do romance, é o que menos importa. A lição que Diderot me deixa é precisamente essa: que a despeito do eventual fatalismo, as existências individuais podem ser pensadas – e talvez vividas – como sendo constituídas de uma substância tão efêmera e contingente que assumem a forma – e mesmo o conteúdo – que lhes dermos ao lhes narrar.

jacques-le-fataliste-et-son-maitre-1984-tv-03-g

PS: Quando comecei a ler Jacques, comecei também a assistir os episódios de Seinfeld. Inevitavelmente imaginei Jacques com a aparência de Michael Richards, ator que faz o papel de Cosmo Kramer.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Jacques, o fatalista (e seu amo)

  1. quemsera disse:

    Kramer, o fatalista.
    Imagino que a construção do teu texto foi algo cômico-fatalista, por assim dizer.
    Duas perguntas: Que acha dessa ‘genialidade formal’, que tu mencionou? Ou melhor… haveria outro tipo de genialidade? Pergunto isso mais em função de eu ter gostado bastante do termo do que por alguma implicância aleatória.
    E sobre essa passagem: “as existências individuais podem ser pensadas – e talvez vividas – como sendo constituídas de uma substância tão efêmera e contingente que assumem a forma – e mesmo o conteúdo – que lhes dermos ao lhes narrar.” Concordo com isso, mas, obviamente, vejo algum problema. A consequência disso não seria que a vida é também uma ficção, como bem querem tantos escritores? (Acho que muitos defendem isso apenas por coerência com suas próprias vidas). E tu não achas que esse existencialismo fatalista, quando na filosofia, não rompe com pressupostos ontológicos, desses mais básicos, que nós estamos inseridos? (Pressupostos ontológicos/herm.-fenomenológicos, essas coisas).

    Enfim, baita texto.
    Abraço.

    • Victor da Filosofia disse:

      Bueno,

      A “genialidade formal” diz respeito, sobretudo, ao fato de que ao invés de contar uma história cujo atrativo seja sobretudo o conteúdo (pensemos no caso das ficções fantásticas que nos atraem por si mesmas, mas podem ser mal contadas), em Diderot o que embriaga é a forma completamente livre. Uma grande brincadeira.

      Com relação a esse segundo ponto – essa vida leve, quase ficcional -, eu tinha certeza que algum dos bons amigos não ia deixar passar impune meu exagero. Digamos, por hora, que é uma hipótese de trabalho. Exagerada, admito. Mas com a qual quer ver se é possível trabalhar.

      E bem, o fatalismo é má-fé, sem dúvida. O fatalismo tradicional de Jacques dá ao personagem as razões de que ele precisa para abrir mão da boa e velha prudência, hahaha. É um horror. Acho que aí há que se fazer a distinção entre ficção e realidade: poucos fatalistas teriam a sorte que Jacques tem, ao simplesmente deixar a vida acontecer. Eu acho. :P

      Valeu!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s