A balada de Lulu e seu professor

É aquele velho clichê, sobre como uma vida pode seguir por caminhos completamente inesperados, imprevisíveis. Sobre como a qualquer momento todo um projeto de vida naufraga e dá lugar a outro. Mas também é sobre aquele velho clichê do quanto a vida pode, às vezes, ser irônica.

Estava com trinta e nove anos e gozava da posição de ser um professor universitário. Enfrentava o segundo casamento. O primeiro havia terminado naturalmente, da mesma forma que se esvai a vida de um vegetal. A diferença de visões de mundo e de anseios relativos ao futuro era tanta que, quando viram, já estavam separados. Mas após a experiência do alegre alívio (e da inconfessa nostalgia do casamento, devidamente afogada em vinho) da primeira semana de solteiro – semana na qual a maioria dos homens se sente como se tivesse 15 anos novamente – convidou uma amiga para passar a noite com ele. Ela passou a noite, o fim de semana e os cinco anos subsequentes. E ainda vivia com ele.

Em um primeiro momento, o professor supôs que assinava a promissória de uma interminável amizade colorida com sua nova amiga. Quase dez anos mais jovem que ele e dona de opiniões bastante ousadas, a moça não lhe parecia um entrave a eventuais revivências da adolescência. Uma vez devidamente instalada em sua casa com seus livros, discos, roupas (que logo ocuparam a maior parte de seu guarda-roupas, deixando-lhe então um espaço pífio), plantas, gatos (a moça tinha quatro gatos, quatro!) e incensos, a moça se tornou a mais convencional das companheiras. Quando o professor se deu conta de que sua companheira tecia comentários pejorativos sobre infidelidades, libertinagem e promiscuidade, percebeu que estava novamente preso.

Se a vida amorosa não lhe dava espaço para realizar impulsos vitais, a vida profissional parecia igualmente fechada a qualquer tipo de empolgação. Passando os dias entre artigos, aulas, orientações e todo o tipo de burocracia, dificilmente o professor tinha a sensação de estar realizando algo real, concreto, genuíno, autêntico. Raramente lia algum trabalho interessante, mas não responsabilizava seus alunos: a estrutura acadêmica parecia mesmo toda construída de uma forma tal que se algo interessante devia acontecer, certamente não devia ser ali.

E, de fato, não era nas salas de aula que ele encontrava a parte mais interessante de seu trabalho. Uma vez por semestre, quando sua esposa viajava para a casa dos pais, o professor dava uma festa de encerramento do semestre em sua própria casa (com o consentimento dela). Do início da noite até o início da manhã seguinte o professor pagava bebidas e lanches para, como um vampiro, sorver a vida e o calor que aquelas histórias, risadas e gracejos juvenis produziam em sua residência. Visto como um professor respeitável e erudito, dificilmente lhe sobrava algum olhar acrescido de segundas intenções. Quando acontecia, geralmente era por alguma mocinha por quem não valeria a pena arriscar sua reputação. Assim foi até a festa oferecida para uma certa aluna que chamaremos de Lulu.

Lulu estava na metade do primeiro ano. Havia abandonado a respeitável faculdade de medicina para se aventurar no campo das humanidades, o que deixara seus pais francamente transtornados. Tinha pouco mais de 20 anos e era a líder das garotas da turma do primeiro ano. Coincidentemente, a festa de fim de semestre era também festa de fim de ano e seria realizada no exato dia do aniversário de Lulu. Assim, muitas semanas antes da festa, estava combinado de que a bebida e a comida era por conta do professor, mas o “ingresso” deveria ser um presente para Lulu.

A noite caiu, e na medida em que os convidados chegavam, se formava na mesa do professor uma pilha de presentes: uma enfadonha pilha de livros (escritos por homens velhos sobre assuntos extremamente abstratos). A falta de originalidade de seus colegas permitiu mesmo que um título fosse repetido por dois colegas que certamente não conversaram antes sobre o presente para Lulu. A moça sequer teria como, na manhã seguinte, levar para sua casa as mais de duas dezenas de livros, já que não tinha carro.

A situação só mudou quando a melhor amiga de Lulu, Estela, chegou na casa do professor. Trazendo na mão uma cesta semelhante a uma cesta de piquenique, Estela animou a noite presenteando Lulu com uma série de acessórios eróticos. Da muito básica lingerie até itens de uso pouquíssimo intuitivo, a cesta para Lulu causou gritinhos, assobios e exaltadas comemorações. Os até então decorosos – e mesmo pouco embriagados – estudantes então reagiam como uma torcida de futebol, celebrando cada item com vivo entusiasmo. Foi assim até o último item da cesta. Terminada a exposição dos presentes de Estela para Lulu, a turma já estava na atmosfera adequada para a fruição da noite.

O presente de Estela para Lulu, desnecessário dizer, foi o mote da festa. A cada silêncio cíclico que acomete os grupos quando um assunto é esgotado, a cesta voltava. Os colegas perguntavam a Lulu como ela usaria esse item, com quem ela usaria aquele outro. Enquetes foram feitas sobre o modo de utilização dos objetos mais inusitados. No meio da madrugada, com a música alta, cada estudante desfilava pela casa em posse de um “brinquedo”. Pouco antes do amanhecer, já cansados, todos os presentes se sentaram em sofás, cadeiras, poltronas e assentos improvisados na sala da residência do professor. Este permanecia em pé, próximo a janela, já com um pouco de calor pelo excesso de vinho. Lulu estava sentada e Estela deitada em seu colo. Ambas estavam docemente embriagadas, e conduziam a conversa que o professor, quando prestou atenção, só pode apreender pela metade:

– Mas é claro que eu iria para a cama com você, Lulu. Você é linda. Mas eu confesso que o ideal é que houvesse um homem com a gente. Porque eu gosto mesmo é de homem! – E gargalhava, ganhando carinhos de Lulu. Mais nova que Lulu, Estela parecia uma mulher muito mais experiente que a amiga. Sua resposta arrancou mais algumas reações efusivas dos colegas ali presentes, e mesmo um desafio lançado por um deles: se de fato as duas garotas estavam falando sério, deveriam dar uma prova qualquer. Sem perguntar, Estela deu um beijo em Lulu. Mais uma ovação foi ouvida – provavelmente até mesmo pelos vizinhos do professor -, mas era uma das últimas: o dia estava nascendo e a bebida estava acabando. Como que em um pacto tácito, os estudantes começaram, um a um, a ir embora. Nesses aproximadamente sessenta minutos entre o beijo de Estela em Lulu e o amanhecer, Estela conseguiu ficar demasiadamente bêbada. O professor decidiu, então, ir de carro com um dos estudantes até a casa de Estela, que não parecia estar em condições de ir para casa sozinha. Lulu pediu para ficar e esperar o professor voltar para a casa. Ficaria arrumando um pouco a bagunça que a festa havia causado. O professor sentiu o coração apertar: a proposta de Lulu deixava entrever segundas intenções? Seria nesse dia que ele, pela primeira vez, trairia sua segunda esposa?

Depois de deixar Estela e o colega – que se encarregou de levar a amiga pelas escadas do prédio onde morava – o professor voltou. Parou o carro em uma lanchonete e pediu uma água com gás. Sentou-se e sorveu cada gole como se fosse uma tragada de cigarro, como fazia outrora para disfarçar os suspiros que a reflexão produzia. Deveria voltar para casa, ou deveria circular de carro por mais uma hora e deixar a aluna entender que ele não queria trair a esposa? Ou deveria voltar imediatamente? Afinal, talvez Lulu fosse apenas uma pessoa prestativa, e não tivesse qualquer intenção dissimulada. Talvez o professor só estivesse profundamente desconectado da empatia necessária para entender os códigos a ser subentendidos no convívio com pessoas de vinte-e-poucos anos. Terminou sua água e voltou para casa.

Lá estava Lulu e a casa razoavelmente arrumada. De toda a turma, apenas ela havia permanecido. Ela estava sentada no mesmo sofá em que havia sido beijada por Estela. Tomava um café em uma caneca estilizada com a foto de um pensador. Havia café fresco na cafeteira. Lulu ofereceu e o professor se serviu de uma caneca.

– Muito obrigado, Lulu. – Disse o professor, se sentando na poltrona defronte àquela na qual estava Lulu. Lulu estava recostada ao braço do sofá, com as pernas sobre este, demonstrando estar muito confortavelmente instalada, sem deixar qualquer indício de que queria ir embora.

– Gosto que o sr. me chame assim, professor.

– Assim como?

– “Lulu”.

– Mas é como seus colegas a chamam, não? Pareceu-me adequado.

– Sim, mas o senhor é meu professor. – Disse sorrindo, olhando profundamente nos olhos do professor. O olhar de Lulu, aliás, mereceria uma menção especial: se Afrodite nasceu da espuma, Lulu nasceu de seu próprio olhar felino. Talvez esse simples olhar penetrante e intimidador tenha feito dessa moça a líder moral de sua turma. O olhar agressivo e intimidatório aliado à voz macia e o jeito infantilizado de falar faziam com que o professor não tivesse dúvidas: aquilo era um jogo. Todas as racionalizações que ele se oferecera a caminho de casa haviam se desmanchado como esculturas de açúcar diante daquela moça quase deitada em seu sofá, e que tinha se dado o direito de preparar café.

(Vale dizer que Lulu não tinha apenas um olhar agressivo: era uma mulher linda. Se mentalmente o professor se via hipnotizado pelo olhar, seu corpo inteiro já reagia às pernas bem torneadas, aos quadris firmes e redondos como a própria lua, à pele morena e que parecia possuir naturalmente o perfume de frutas que se mantinha na sala e dela emanava. Os cabelos negros emolduravam um rosto simétrico e um par de lábios que chegavam a fazer o professor cerrar os dentes, só de se imaginar mergulhando neles. A sensualidade de sua figura deitada sobre o sofá o fazia despir a moça mentalmente e ele já adivinhava como seria seu umbigo, seus pelos, seus pés. Estava completamente pego por aquela moça.)

É aquele velho clichê, sobre como uma vida pode seguir por caminhos completamente inesperados, imprevisíveis. E a de nosso amigo professor começou a mudar durante aquela caneca de café. Após o último gole, subitamente, em um instante quase mágico, o professor se levantou e foi até o sofá onde Lulu, em um misto de caça e caçadora, sorria satisfeita. Ela ainda sorria quando os lábios do professor tocaram os seus. E ainda sorria – agora com o olhar felino cravado no rosto do professor – enquanto este lhe carregava, de modo piegas e desajeitado, para o quarto de casal, deitando sua jovem amante na cama onde dormia com a esposa então ausente. Sentia-se forte, jovem e vigoroso tanto ao carregá-la nos braços quanto por fazer amor durante horas com sua lindíssima aluna – que permanecia perfumada mesmo depois do sexo. Antes de adormecerem, porém, Lulu disse algo que pode ter sido a gota d’água para seu professor.

– Confesse: quando Estela falou em ir para a cama comigo e com um homem, o senhor se imaginou sendo esse homem, não é?

Completamente surpreso, o professor quase se sentou na cama para olhar para o rosto de Lulu. Não, absolutamente! Por uma espécie de virtude – ou vício, mas de qualquer forma uma hábito – de pensamento, o professor não costumava imaginar coisas que não se via como capaz de realizar. E levar duas alunas para a cama, não, isso não lhe parecia nem remotamente possível! Ao perguntar se era isso que ela realmente supunha que ele havia pensado.

– Imaginei que sim. Achei que tinha ficado claro que gostaria que fosse o senhor, depois que lhe olhei daquela forma tão logo ela disse aquilo. – “Daquela forma”. Ela sabia que o olhar felino era, afinal, um instrumento de jogo.

– Você gostaria? Digo, você gostou da ideia de Estela?

– Claro!

O professor estava perplexo. Depois de toda a bebedeira madrugada adentro e das horas de sexo com Lulu, aquela reflexão era como uma dose de anfetamina que lhe acordava. Naquele instante, meio sentado e meio deitado na cama de casal onde dormia com sua segunda esposa, mas acompanhado de sua aluna-amante de frutado aroma, o professor estabeleceu uma nova meta para sua vida: levar, juntas, Lulu e Estela para a cama.

Muito sensível a valores éticos, se separou da mulher. Não queria se sentir traindo ninguém. Sem conseguir se justificar de modo minimamente razoável para a decisão repentina, teve de assistir sua segunda companheira passar a semana levando seus pertences para a casa da mãe. Mesmo fazendo um escândalo por dia e alarmando toda a vizinhança, o professor foi irredutível: queria se separar. Ela levou seus livros, discos, roupas, plantas, incensos. Deixou os gatos, todos, na casa do professor. Que, de volta à vida de solteiro, não tinha a menor paciência com os felinos e suas necessidades: já negligenciava nos primeiros dias a ração e o espaço para as necessidades fisiológicas dos animais. Mas, ao menos, não tinha qualquer nostalgia da união anterior.

Os meses de férias foram transformando a casa do professor em um genuíno pardieiro. Lulu ainda quis encontrá-lo umas duas ou três vezes, mas o professor, com vergonha da própria falta de organização e asseio, já preferia levar sua amiga (que finalmente havia deixado de chamá-lo de “senhor”) para um motel. Some-se à falta de organização do professor o fato de que no único dia em que esperava sua amiga em casa – e já via sua figura surgindo ao longe na rua – sua primeira esposa, ao passar de carro e vê-lo em frente a própria casa, parou para conversar com ele. Ao ver o olhar desesperado do professor, Lulu entendeu que devia esperar. Foi até uma lanchonete e voltou só meia-hora depois. Teve de ouvir um desconcertado professor de meia-idade dando explicações que ela nem sequer havia pedido.

O semestre começou e, durante os meses de aula, a turma viu um professor mais leve do que jamais se vira. Bem humorado e nitidamente empolgado, fazia piadas e brincadeiras que surpreendiam a todos por virem dele, sujeito razoavelmente sóbrio. O que ninguém percebia é que o professor investia, todos os dias, naquela mocinha que sentava à sua frente. Cada vez que via a risada de Estela (uma risada alta, aberta, na qual era quase sempre possível ver até mesmo a úvula da moça goela abaixo) o professor supunha estar mais e mais próximo de levá-la para a cama. Decidiu antecipar as coisas: não esperaria mais o fim do semestre, mas faria uma reunião com a turma em algum bar da cidade. E lá, então, faria a proposta. Lulu parecia ter entendido a intenção do professor e, como sempre, lhe sorria de modo felino à distância.

Depois da primeira prova, a turma se reuniu em um bar, como o professor gostaria. Lulu, ciente do que aconteceria naquela noite, já estava sentada próxima ao professor. Na medida em que iam chegando, o garçom – e depois os garçons, haja visto que era preciso atender quase vinte pessoas – ia juntando mesas e fazendo uma longa fila. Estela chegou e Lulu tratou de chamá-la para perto dela própria. Assim, entre o professor e Estela estava sentada Lulu. O professor já sentia seu coração bater acelerado.

Duas horas e algumas rodadas de bebida depois, o professor já constatava risadinhas de cumplicidade entre Lulu e Estela. Chegou a supor que o terreno estava preparado pela amiga, mas não era o caso. Empolgado, então, pediu para que Lulu trocasse de lugar com Estela, o que foi feito imediatamente. Estela sentou ao lado do professor, entre ele e Lulu. Estava claramente curiosa sobre o que o professor gostaria de compartilhar com ela.

– Então Estela… estávamos aqui pensando, Lulu e eu… se você não gostaria de fazer uma coisa conosco.

– O senhor fuma… digo, o senhor usa…? – Tentava Estela perguntar com expressão de espanto, entendendo que o convite era pra outra coisa. O professor riu e voltou ao ponto.

– Não, não é isso. Estávamos pensando em uma coisa que você disse em minha casa, na festa de encerramento do fim do semestre. – O professor sorria de forma felina, sem perceber, com olhar cáustico e intimidatório pousado sobre a moça que, um pouco confusa, tinha dificuldade em lembrar o que exatamente tinha dito.

– O que exatamente professor? Não estou lembrando…

A atitude da mocinha era honesta. Será que era uma boa ideia continuar com isso? Ora, é claro que sim! Que outra coisa fazer depois que se decidiu reorganizar toda a vida em torno dessa possibilidade (era mesmo uma possibilidade? Algo no interior da consciência do professor – uma vozinha muito baixa – já parecia dizer que não)? Agora era a hora de levar a situação ao seu limite.

– Não se lembra que, no colo de Lulu, pouco antes de lhe dar um beijo, você disse que gostaria de ir para a cama com ela? Mas que o ideal era que junto com vocês houvesse um homem?

O sorriso do professor foi se desfazendo no mesmo ritmo em que a perplexidade de Estela parecia ebulir como uma chaleira, como um vulcão. A menina ficou corada e ofegante em poucos segundos, e se levantou, derrubando a própria cadeira e batendo com o próprio joelho na mesa, fazendo caírem sobre esta alguns dos copos e garrafas que ali estavam. Lulu, que estava virada de costas para Estela enquanto conversava com outro colega, se virou rápido para a amiga (na verdade, o bar inteiro olhava para Estela nesse momento). Foi a primeira vez que o professor viu o olhar felino de Lulu desarmado.

– Seu nojento! Nojento, asqueroso! Meu Deus, meu Deus, que asco! – gritava Estela, enquanto o bar todo já olhava para ela. – E você Lulu, você sabia disso? Sabia? Você faz parte dessa nojeira? Quem vocês pensam que eu sou? O que vocês pensam que eu sou?

Um colega de Estela atravessou a longa mesa formada por mesas encostadas e se aproximou de Estela, perguntando o que houve. Enquanto o professor pagava a conta do que fora consumido até então – e Lulu arrumava suas coisas para, junto com o professor, sair daquele lugar tão logo quanto fosse possível – Estela contava em detalhes sórdidos (que não ocorreram) a proposta obscena e vulgar do professor e da sua até então considerada amiga Lulu. O professor sentia as mãos formigando enquanto pagava a conta. Tinha vontade de estrangular aquela gralha, aquela galinha que não parava de cacarejar, aquele animalzinho (cuja simples imagem mental, agora, lhe causava também asco) parecido com a evolução biológica de algo como uma lagartixa. Foi embora com Lulu mas teve certeza que já fora do estabelecimento ainda conseguia ouvir os xingamentos de Estela abafados pela música do ambiente. Tomou um táxi e foi com Lulu para o motel, pedindo apena para o motorista fazer uma parada para que ele pudesse comprar um maço de cigarros. Chegando ao motel, não fizeram amor e conversaram pouco. Ouviu, surpreso, um pedido de desculpas de Lulu. Segurou-a pelos ombros e lhe beijou a testa, enfatizando que ela não tinha qualquer responsabilidade pelo acontecido. Passou algum tempo olhando pela janela e fumando cigarros.

As semanas seguintes foram algumas das piores da vida do professor. Pediu para um médico amigo seu emitir um laudo que justificasse meses de ausência. Começou a procurar outro emprego e a encaixotar suas coisas para uma mudança. O escândalo de Estela aproximou as vítimas: Lulu e o professor se encontravam quase três vezes por semana. Lulu, que começou sua aluna, se tornou amante e depois amiga, agora tinha momentos em que lhe lembrava uma irmã: em mais da metade das visitas Lulu demonstrava apenas querer ficar por perto, sem qualquer intenção erótica. Ajudava-o a encaixotar coisas ou lavava a louça e as roupas do professor. Também se tornou amiga dos três gatos (um deles havia simplesmente desaparecido), como se fosse secretamente uma felina também. Para fugir ao incômodo de conviver com aquela turma, Lulu havia decidido voltar para a faculdade de medicina.

No semestre seguinte, o professor já estava trabalhando em uma faculdade menos renomada e morando no outro lado da cidade. Lulu lhe contou que ficou sabendo, através de um dos antigos colegas da turma (como assim, ela ainda tinha contatos dentro daquela turma? iria para a cama com algum daqueles moleques?) que em uma noite de bebedeira e aos prantos, Estela havia contado aos colegas – que já estavam acostumados às reações sempre exageradas de Estela – que ela era, na verdade, virgem (aquela cesta de presentes eróticos de Estela era, afinal, uma cesta de souvenirs de um país desconhecido por ela própria). O professor já sabia que Estela devia estar arrependida, mas fazia questão de rasgar a correspondência e deletar os e-mails que ela enviava. À essa altura, Lulu visitava o professor todos os dias e já era mais dona dos gatos que ele. Em um desses dias, depois de ouvir quase uma dezena de comentários de Lulu sobre como deveria viver em sua própria casa, o professor percebeu: estava novamente diante de seu patíbulo. Naquele preciso momento em que ele e Lulu olhavam para o teto depois do amor era o momento mágico no qual ele poderia fazer a opção: ou silenciava e deixava a situação evoluir por si (como uma doença), ou colocava a corda ao redor do próprio pescoço e pedia para Lulu chutar o degrau, tal como faria um personagem de Kafka. O que estava fora de cogitação era pedir para Lulu sair de sua vida: eram irmãos na tragédia, e se alguém devia querer sair da vida do professor era ela. Mas, ele sabia, ela não quereria.

– Quer vir morar comigo? – Disse o professor. Lulu se virou. O olhar felino – seu encanto, sua mágica – estava ausente. O que se via era uma expressão feminina genérica na qual o tempo, irônico, convertia a de todas as suas amantes.

– É isso que você quer?

“Não, não, não! É claro que não! Eu queria você e Estela nuas, na minha cama! E queria que pela manhã vocês tivessem partido para suas próprias vidas! Ah, e também quero meu antigo emprego de volta!”, pensou o professor, enquanto sorria com ar beatífico e respondia “sim”. Lulu sorriu, o beijou languidamente e ele pôde sentir a dor da corda imaginária apertando seu pescoço, enquanto imaginava a si mesmo enforcado, e Lulu, sua amiga, lhe fazendo o último carinho no rosto enquanto sua vida se esvaia.

Em três dias, Lulu havia saído da casa dos pais e já estava devidamente instalada na casa do professor. E o professor estava, pela terceira vez, vivendo junto de uma mulher. E ainda no primeiro semestre em que viviam juntos, houve um episódio muito desagradável: a segunda esposa do professor bateu à porta da nova casa do, agora, novo casal. Foi atendida por Lulu.

– Você é a depravada que vive com meu ex?

Ao ouvir – ao longe, de seu escritório nos fundos da casa – aquela voz tão conhecida quanto já irritante, o professor saiu correndo e foi até a porta da própria casa. Pediu para Lulu sair. Lá estava sua segunda esposa e, atrás dela, na rua, um homem gordo de quase sessenta anos.

– O que você quer?

– O que eu quero? Eu quero meus gatos! Ou você achou que eu ia deixar eles com você? Amooor! – Disse gritando para o gorducho do lado de fora – Traga as gaiolinhas que vamos levar os gatos. – E o professor viu o sujeito pegar quatro gaiolinhas. Três deles estavam guardados, ao que a ex do professor percebeu a falta do quarto gato.

– Cadê o Lulu? – Sim, naquele instante o professor se lembrou que aquele maldito gato idiota (o mais arredio de todos, que vivia lhe arranhando os braços) era chamado de Lulu por sua ex. A Lulu do professor – também felina mas humana – olhou com visível irritação para aquela mulher que levava seus gatos. Com ambas diante do seu campo de visão, o professor sentiu uma vertigem ao perceber o quanto eram fisicamente parecidas: a ex era quase dez anos mais velha que Lulu, e parecia uma versão alternativa desta, vinda do futuro. Era como se ambas só pudessem coexistir por uma espécie de falha na programação da realidade.

– Ele fugiu, ainda na outra casa. Não faço a menor ideia de onde ele esteja.

A ex soltou as gaiolas no chão sem o menor cuidado, ao que se ouviram miados de gatos engaiolados e assustados. A ex estapeava o professor lhe dizendo ofensas sem fim. O gorducho pegou sua ex como se pega um gato, e disse “Calma amor, calma…”. Tinha um olhar submisso e cansado, e o professor sentiu um calafrio: aquele homem era uma versão dele próprio assim como a ex parecia uma versão de Lulu. Ainda era possível ouvir as ofensas de sua ex enquanto seu carro partia. Depois da confusão, o professor olhou para Lulu que, de braços cruzados e recostada à passagem entre sala e cozinha, tinha os olhos cheios de lágrimas. Entendeu na hora: ela já amava aqueles gatos. Se aproximou dela, segurou-a pelos ombros e lhe beijou a testa. Prometeu gatos novos. Ela sorriu, agradeceu e, enquanto tirava o feijão da panela, olhou para o professor sem o menor traço felino no olhar, mas apenas melancolia, e disse:

– Mas certas coisas não são substituíveis, não é professor?

O professor já não sabia. Falava dessas coisas em sala de aula, mas já não sabia. O que é substituível? Suas companheiras não representavam, sucessivamente, a personificação de uma mulher genérica e informe? Não eram precisamente substituídas por uma versão convencional e insossa de si mesmas, na medida em que deixavam de ser o que eram para se transformarem nessa personagem impessoal? Aquele casal que acabava de partir com os gatos não era uma versão deles próprios? Em algum momento de nossas vidas somos indivíduos, ou apenas exemplares de tipos produzidos no atacado por um mundo cego e indiferente? Ainda era cedo para saber como aconteceria com Lulu e ele próprio. O consolo do professor era que o olhar felino de Lulu, vez por outra, escapava dos escombros produzidos pelo gradativo desmoronamento do seu eu. Desnecessário dizer que em pouco tempo Lulu já tecia comentários pejorativos sobre infidelidades, libertinagem e promiscuidade. Como se nada tivesse acontecido. Porque, afinal, também é sobre aquele velho clichê do quanto a vida pode, às vezes, ser irônica. O olhar felino era, percebia o professor, seu único consolo. Afinal, nas festas de final de semestre com os novos alunos, Lulu estava sempre presente.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para A balada de Lulu e seu professor

  1. Isadora Trilha disse:

    Tudo isso me lembrou Zé Ramalho…
    “dê-me seu amor que dele não preciso”

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