“Aquém de si” (ou: o desafio da motivação e da expectativa)

É duplamente pesado visitar o texto de Husserl. Primeiro, pela densidade própria do texto. Segundo, porque o leio com lentes sartreanas – como talvez eu sempre faça com tudo. E é difícil não perceber a cada instante as conseqüências existenciais da fenomenologia.

Primeiro, é fácil notar como a intencionalidade, enquanto “investimento de significado”, transforma o sujeito em “senhor e dono” do mundo, como em Descartes. Esse mundo, contudo, é diametralmente oposto ao de Descartes: sem a fundamentação metafísica, a “egologia” de Husserl me sugere um cenário semelhante ao de Waking Life (em uma de suas interpretações possíveis), onde toda a aventura é estritamente individual, solipsista, e consiste em vencer os obstáculos projetados (ou melhor, constituídos) no mundo pelo próprio sujeito. Ao menos em Waking Life há um Deus, ainda que imanente (que, em termos psicanalíticos, não pode ser mais que um útero no qual eu dissolva minha individualidade e, com ela, todos os meus problemas). Husserl desvia do problema. Há a intencionalidade. Que, em um sentido existencial, é o meio pelo qual (e sine qua non) investimos o mundo com significado.

E isso é tudo.

Nenhum mundo real, nenhuma nível metafísico exigido pela razão Apenas um caldeirão de consciências em um caos vetorial de projetos existenciais. Assim sendo, é muito surpreendente que Sartre diga, na esteira de Husserl, que seres humanos se vêem e se tratam como objetos? Há uma razão filosófica para isso! Afinal, a consciência lida todo o tempo com objetos. Os “correlatos intencionais” da consciência são objetos. A alteridade, em sua presença concreta, não pode aparecer senão primeiro objetificada. O outro é um outro vetor consciente no mundo, mas diante da minha consciência ele não pode desobedecer a lei que dita que tudo o que me aparece é objeto. Mesmo o outro tem seu significado concreto constituído. Tem seu sentido investido por mim.

Evidentemente, a trama intencional só aparece na reflexão, e não na vida. Ocorre, contudo, que algumas vidas – para seu próprio prejuízo – se constituem como vidas devotadas à reflexão. Nesse caso, as tramas intencionais não retornam senão raramente ao esquecimento necessário para uma vivência autêntica, estritamente pré-reflexiva. Como se a vida se desdobrasse sobre si, se duplicasse no “eu” que não cessa de refletir e no “eu” que age e vive.

Assim como todo nível do sentido, a expectativa – componente essencial daquilo que existe como projeto, isto é, o ser humano – não tem outra substância senão, precisamente, intencionalidade. E se o objeto do desejo funciona como “móbil” porque promete o preenchimento da falta constitutiva, o reconhecimento do tecido intencional do próprio projeto não desnuda a expectativa de seus véus? A reflexão não desestabiliza para sempre a estrutura da motivação, revelando que ela é um fenômeno de superfície (pois tudo não passa, em suma, de tentativa de preenchimento da falta)? Como agir depois de se ter olhado de frente para a fonte do movimento? Ou, melhor dizendo: como agir, simplesmente, com ou sem esperança? Se Kant dizia que a motivação deve ser racional, Sartre nos ensina que ela não pode ser racional senão, no máximo, superficialmente. Pois ela é fundamentalmente não-racional, é absurda, é “paixão inútil”. E com ou sem esperanças, o movimento da consciência é sua lei, e não cessa ou cessará só para amenizar a angústia de se existir sempre aquém de si mesmo.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para “Aquém de si” (ou: o desafio da motivação e da expectativa)

  1. quemsera disse:

    Um texto típico de domingo. Mas,vamos lá. Caso se aceite essa consequência existencial da fenomenologia, quando se parte basicamente do ego tal como concebeu Husserl, é realmente muito aguda. Penso que Sartre traça mesmo essa linha, com esses cortes. Fiz essa ressalva sobre se partir apenas do ego, porque me parece que outros fenomenólogos, por também primarem por outras perspectivas, deixam consequências menos severas, existencialmente falando. Concordo mesmo que seja, talvez, uma consequência necessária dessa fenomenologia a solidão insolúvel. Esse pré-reflexivo não é nada hermenêutico, ele soa mais como uma potência ainda sem significação, esperando entrar no mundo pra, assim que ganhar significado, mostrar-se como vazia e/ou má-fé. Parece uma consequência nietzscheana da fenomenologia de Husserl. Pro Heidegger me parece um pouco menos severo essa conclusão, dado o fato de não estar em jogo mônadas ou egos, e que o pré-teórico seja algo mais ‘de entendimento intuitivo’ nosso, pois se trata apenas de algo não tematizado ainda, no âmbito de pressupostos e etc. Pouco menos severo, não que a conclusão não seja quase a mesma. Assim como um grande problema dos grandes pensamentos é sempre o reducionismo, pensá-los a partir de uma unidade parece sempre implicar numa radical solidão. Haja nervos, eu diria.
    Abraço.

    • Victor da Filosofia disse:

      “Esse pré-reflexivo não é nada hermenêutico, ele soa mais como uma potência ainda sem significação, esperando entrar no mundo pra, assim que ganhar significado, mostrar-se como vazia e/ou má-fé.”

      Num primeiro momento pensei em contra-argumentar. Depois lembrei da via longa ricoeuriana, da via curta heideggeriana e da “via nenhuma” cartesiana.

      O engraçado é que eu até vejo como o homem “decaído” na má-fé precise existir primeiro como homem de má-fé, na sopa do impessoal, da multidão, do falatório e etc. A “tomada de consciência” fenomenológica (ou existencial, para aqueles que descobriram a verdade sozinhos sem o método fenomenológico, tipo Kierkegaard) supõe a inautenticidade.

      Sem entrar no tema da “conversão à autenticidade” (inexistente em Heidegger), compartilho uma experiência: perguntei ao mestre M. F. se não seria possível que o olhar fenomenológico fosse a “atitude natural” de alguém. Materialmente sim (e aí o que se produz é uma visão parecida com o existencialismo ou com o idealismo, me parece). Logicamente, há um limite: mesmo uma consciência que leia fenomenologicamente as próprias vivências, só pode fazê-lo na reflexão. Há um nível vivencial que nem o fenomenólogo consegue superar: afinal, para refletir precisará estar instalado no mundo, na vida, etc.

      Para fechar, vou citar um texto que descobri em um período relativamente recente.

      “Em diferentes povos, sobretudo do Norte, encontra-se um mito de profundo significado, o mito do ‘espírito acompanhante’, do ‘duplo’, do ‘outro eu’. Segundo esse mito, o homem é, antes de tudo, aquilo que aparente ser, além disso, ele é o mesmo outra vez e, assim, é verdadeiro. Esse ser verdadeiro, contudo, coloca-se sempre atrás do ser imediato e por isso é chamado espirito acompanhante. O homem imediato não vê, portanto, o verdadeiro; apenas sente que ele está lá; porém sempre ‘atrás’ dele, ou seja, na região do não-manifestado. Entretanto, às vezes, o homem se volta, coloca-se diante do outro ‘ele’ e o contempla. É quando o imediato vê o verdadeiro e, ao vê-lo, fica conhecendo a si próprio. (…) Mas isso é a morte.”

  2. André disse:

    Ao ler Husserl entendi que a vida (filosófica?) não valia mais a pena ser vivida; uma espécie de doutrina da negação vital. Minha alegria de viver voltou ao pensar, como Kierkegaard, que a vida objetivada é, nas melhores vezes, irônica, enquanto que a vida subjetivada deve ser dedicada para a forma moral, emocional, religiosa, para a alteridade que não combina com a solidão, nem com a reflexão (mantendo os objetos aprisionados entre parênteses). Te agradeço por essa reflexão, embora nesta ocasião não esteja ao meu alcance as “lentes sartreanas” para a leitura.

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