Excertos do Subsolo – Instante de Plenitude

À meia-luz do abajur, cuja cortina alaranjada de tênue claridade parecia apenas preservar o calor dos miasmas, o corpo de Amelie ainda reluzia delicadamente, coberto por uma fina camada de seu próprio suor misturado com o de seu amante. A pele morena parecia respirar junto com a moça, cujo arfar pesado exprimia o cansaço e denunciava, assim como os olhos fechados, seu lento e progressivo adormecimento. Seus aromas e perfumes certamente impregnariam os lençóis de Yan que, sentado às costas de Amelie, não podia ser visto pela moça, mas era por ela sentido como sempre estado presente, mesmo em seus sonhos. Diante do corpo da amante nua, o rapaz já devia desejar possuí-la novamente. Assim, após o instante inextenso de êxtase, a dinâmica da existência recolocava os elementos em seus devidos locais: o desejo por Amelie era o desejo por plenitude, e o instante inaprisionável do êxtase dividido seria ainda perseguido por incontáveis vezes. Era sua única janela para a eternidade, para o infinito, para a plenitude da fusão das almas.

O pior de tudo, para Yan – e mesmo para Amelie – era saber disso.

Embora sempre incorra em compromissos epistemológicos provisórios, a psicologia é eventualmente sábia e oferece descrições lúcidas do fenômeno do condicionamento. Isto é: a psicologia sabe que uma pessoa pode ser ajustada para responder de formas específicas em circunstâncias específicas. É possível, neste sentido, adestrar uma pessoa até fazê-la abandonar seus vícios, corrigir seus desajustes. Yan, contudo, se enquadraria na categoria de pessoas que condicionaram a si mesmas para a reflexão.

Ora, mas isso é possível? Desde a aurora dos tempos modernos, a reflexão foi sempre vista como o poder mais característico do espírito humano. Descastes nos ensinou que a reflexão é o símbolo da liberdade, que é capaz de nos arrancar do interior das engrenagens da natureza. Se a natureza é previsível, o espírito é o contrário do previsível: espontâneo e imprevisível, o espírito é pura liberdade. Nem mesmo os deuses podem nada contra o espírito humano quando a liberdade desperta, e isso se evidencia na reflexão: através dela, o espírito se ergue da circunstancialidade pelos próprios cabelos, tal qual o Barão de Munchausen. Só duzentos anos depois de Descartes foi possível desconfiar da reflexão: o temperamento irracionalista de gênios como os de Schopenhauer, Nietzsche e Freud levou décadas para produzir uma suspeita: não será nossa reflexão, ao menos eventualmente, refém de impulsos e paixões? Não será, em última instância, o caso que “desejamos e pensamos que pensamos”?

Yan acreditava que sim, e que tinha suficiente impulso auto-destrutivo para desconfiar de si mesmo. Pois por que outra razão seu humor comum seria essa perene e agridoce melancolia? Não sabia dizer e assumia a existência de um impulso qualquer uma paixão adoecida como sendo o componente a definir o tom no qual vibrava seu espírito. Como não admitir que seu espírito – e, portanto, sua reflexão – era condicionada? Apenas tal compreensão permite que entremos em páginas como essa que se segue, extraída de seu diário de reflexões e escrita em um momento semelhante à esse, depois do amor:

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Há –  ou pode haver? – algo como uma verdadeira empatia?

Nosso espírito é um segredo inescrutável e essa “empatia” analógica de que tanto se fala não poderá jamais senão arranhar o outro, sua casca, sua pele. É por isso que os outros sujeitos – as outras consciências – não poderão jamais senão mais do que se insinuar. Escondidos e dissolvidos na matéria orgânica viva da carne, dos corpos, os espíritos não podem nunca fazer mais que tentar se manifestar através de seus títeres de carne. Seus gestos, contudo, estão à mercê do filtro ativo que é minha visão de mundo, meus conceitos, meus significados, meu horizonte de sentido. Os outros e as coisas não podem passar jamais de coadjuvantes e cenários de minha aventura. Minha solitária aventura, para além da possibilidade de qualquer partilha autêntica. E para viver uma comunhão qualquer, dependo de uma original – isto é, de um engano original, uma ingenuidade original – de que isso seja possível. É necessário inventar a comunhão e a empatia para sobreviver. E o necessário é impossível: a solidão é inultrapassável. E o lamento também é inútil, pois não será jamais plenamente compreendido.

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Esse é o humor que retorna, como um tanque que se enche, logo depois de ser varrido para longe pelo instante de êxtase e plenitude. Esse é o espírito das anotações de Yan que, ainda nu, registrava em seu caderno durante o sono de Amelie. Desta vez, contudo, foi interrompido pela voz da moça.

“Você não consegue descansar nem eu seus próprios sonhos, não é mesmo?”

Virou-se. Amelie estava sentada na cama, mais linda do que nunca. Também estava nua. Recolocava os óculos e acendia um cigarro. Mas… ela não fumava. Por que estaria o fazendo agora? Yan desconfiou e logo confirmou a própria suspeita, ao olhar para o próprio caderno e ver sinais sem sentido ao invés de letras: estava sonhando.

“Você realmente está aqui ou estou conversando comigo mesmo?”

“Eu estou onde sempre estive, onde você me deixou.”

“Quero saber se você veio me visitar no sonho, de verdade, ou se só está aqui por projeção dos meus desejos.”

“Você sabe que não quer saber isso. Sabe que vai acordar antes de descobrir, porque no fundo não quer saber. Você acredita tanto que está irremediavelmente sozinho que me deixou no mundo real e me preserva em sonho como dúvida, porque é só o que você admite que pode possuir com segurança: suas próprias dúvidas.”

Yan silenciou. Sabia que sonhava, mas que se tentasse testar o ambiente e “controlar” a personagem de Amelie, acordaria. Fosse ela uma projeção do seu inconsciente ou a própria Amelie o visitando em sonho, ela e o ambiente desvaneceriam imediatamente ao menor esforço de confirmação e teste de realidade. Levantou-se e foi até a cama. Beijou Amelie com desejo, mas também com a resignação de quem se sabe – ou ao menos se – refém das próprias paixões. Controlava-se, agora, para não testar a realidade, para não tentar descobrir se Amélia era real, para não acordar.

Mas, tentar não pensar em algo exige justamente que se pense nesse algo. Espontaneamente, seu ambiente esmaeceu tão logo quanto surgiu a preocupação em não testá-lo. Ao acordar, estava sozinho em seu quarto material, contraparte física de seu lar onírico, com seu cinzeiro e seu caderno de notas – um diário de sonhos, na verdade. E só desperto, Yan lembrou – ou percebeu – que ele próprio não era Yan, mas Amelie. Amelie que, todas as noites, sonhava que era Yan. Um Yan que queria revê-la, um Yan que sonhava com o amor que, no mundo real, havia decidido abandonar sem aviso ou explicação, um Yan que precisava dela da mesma forma que ela precisava dele todas as noites e todos os dias. Um Yan que a veria como perfeita projeção das próprias necessidades, perfeita e necessária como só nos olhos dele, por um instante inextenso de êxtase, ela se sentiu. Instante no qual ela se sentiu verdadeiramente viva e pelo qual ela permanecerá procurando pelo tempo que for necessário, nem que para isso precise sonhar toda uma existência na qual ela consiga reviver o instante de plenitude de se sentir amada, mesmo que seja por si mesma e através de amores imaginários, sonhados, que não existem. Mesmo que para isso ela própria precise esquecer de si mesma e de sua incurável solidão.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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