Excertos do Subsolo – Aviso aos homens do subsolo

Conhecer a si mesmo é talvez o único dever dessa raça de almas mortas que habita o subsolo. Um mínimo de autoconhecimento, senhores, um mínimo. É isso que vos peço e sugiro. Pelo bem-estar daqueles que cruzarem seus caminhos.

É preciso conhecer a própria natureza. Para nós, os ares da superfície são demasiado rarefeitos. Os efeitos da superexposição à eles não podem ser outros: embriaguez, delírio, alucinações! O ar da superfície deve ser fruído com moderação, aspirado delicadamente, degustado como um vinho, como um licor. Não vêem seus efeitos aos homens da superfície? Vivem como crianças. Como poderia ser diferente? Advirto-lhes: nossa consciência cindida – nossa sina – se deve em muito à umidade do pesado ar que respiramos. Senhores, cuidado com os ares da superfície. Se não se convencem, lhes conto uma pequena história do que poderia ter sido um simples passeio.

Certa feita, um homem do subsolo igualzinho a nós – isto é, com uma vida inteira vivida entre aspas – foi passear pela superfície, como alguns de nós têm o costume de fazer. Nesse passeio, distraiu-se em um jardim. Nada mais natural do que se deixar distrair diante da beleza quando se vive no subsolo. Mesmo que alguns de nós tenham desenvolvido o dom da apreciação do próprio subsolo, é perfeitamente compreensível que as cores das flores ainda sejam capazes de cativar as almas mortas. O único equívoco desse distraído homem do subsolo foi ter se perdido nesse jardim. Muito extenso e muito bonito, o jardim se estendia em todas as direções no horizonte. E se o ar da superfície já é embriagante, combinado com o perfume das flores se tornou literalmente venenoso.

Nosso amigo perdeu a noção do tempo no jardim. Não percebeu quando os primeiros sintomas começaram a aparecer. Como sabemos, aqui embaixo há toda uma sorte de coisas que simplesmente não pode sobreviver, nem mesmo nascer. Crenças, por exemplo, não encontram no subsolo nenhum nutriente para que possam, digamos, florir. Valores, da mesma forma, não sobrevivem muito tempo no subsolo. Simplesmente fenecem, custando o tempo que custar. Como nem mesmo nós, homens do subsolo, nascemos aqui, é natural que ainda carreguemos vestígios de crenças e valores. Mas aqui, elas se assemelham à cicatrizes. Já não operam como na superfície. O fenecimento dessas partes da alma fazem parte do processo de adaptação ao subsolo. Aqueles que não conseguem se despojar desses caprichos da superfície sufocam em si mesmos quando passam a viver no ar pesado do subsolo. Contudo, o ar da superfície pode produzir, mesmo em uma alma morta, algo como uma crença ou um valor.

Senhores, nada pode ser mais trágico.

(Desnecessário lhes dizer que não estou afirmando que isso seja ruim. A constatação da tragédia é mais básica do que os juízos de valor. Como vêem, a ideia de tragédia é uma das poucas que sobrevive no subsolo, por ser pesada como o ar daqui. Na superfície, o juízo maniqueísta funciona melhor e combina com o colorido do mundo da superfície)

Em uma alma morta, um valor ou uma crença não podem sobreviver senão como parasitas. Desenvolvem-se, literalmente, como tumores. Assim, só se fazem notar quando o estado da vítima já é terminal. Em desespero, nosso amigo – perdido na imensidão do jardim, embriagado pelo perfume da superfície, pelo azul tão raramente visto (nossos olhos, de homens do subsolo, vêem tudo cinza quando passeamos pela superfície, só vendo o azul quando suficientemente intoxicados de ar puro) e fazendo o esforço de se manter consciente de que o que estava em jogo era sua vida, nosso amigo correu.

Correu destruindo tudo em volta. Seus pés enlameados esmagaram belas flores. Evidentemente, uma pequena destruição. O tempo, no subsolo ou na superfície, destrói e reconstrói tudo o tempo inteiro. Sem saber se teria forças de achar uma boca-de-lobo a tempo, cavou um buraco dentro do jardim e, então, desapareceu nele.

Essa história é uma advertência, meus amigos, pois esse irmão do subsolo até hoje não reapareceu por aqui. Acredito que ele deva estar escavando, devidamente protegido da luz e respirando o ar necessariamente pesado dos subterrâneos. Se ele for bem sucedido, voltará para nos contar como é se deixar embriagar de luz, céu e perfume de flores. Teremos de cuidá-lo de perto, pois não sabemos o quanto as crenças e valores terão crescido em sua alma morta. Sem a luz da superfície, elas fenecerão. Mas isso pode levar muito tempo. Até lá, vamos confiar que sua alma morta se lembre do caminho de retorno. Até lá, brindemos à sua saúde. Brindemos à essa estranha saúde avessa, que só cabe à nós, homens do subsolo.

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Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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