Raça de Ouriços – O segredo dos seus olhos fechados

“Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar.
Y una hermana muy hermosa
que se llama Libertad.”

Pouco mais de um minuto era o tempo que ela levava para adormecer depois do ato sexual. Sobretudo se chegava ao êxtase depois do companheiro. Ulisses já havia percebido isso nas primeiras vezes, mas mesmo dez anos depois da primeira vez que dormiram juntos, isso ainda o impressionava. Encantava-o, na verdade, como tudo o que ela fazia. Suada e com os cabelos ainda colados ao rosto, ela parecia se desligar como uma máquina à vapor, expirando pesadamente e pela boca entreaberta um hálito morno que ela mesma nunca via, mas o fazia se aninhar a frente dela para respirá-lo. Os olhos fechados, porém, eram o símbolo que dava sentido àquele ainda belo corpo nu.

before sunriseOs olhos dela se fechavam algumas vezes durante o ato. Ulisses percebia que não era um ato espontâneo, involuntário, não. Era o recolhimento de um espírito que se ensimesmava e, por alguns segundos, fazia do ato sexual um meio para uma finalidade secreta, obscura, misteriosa, cujo sentido só se permitiria entrever a quem conseguisse entrar na névoa difusa do seu prazer. Mas, para poder fazê-lo, seria primeiro necessário vencer as duas pesadas cortinas que se interpunham entre Ulisses e as janelas da alma de sua companheira. Sentia-se como um físico, tentando adivinhar a essência da partícula fundamental da matéria através de seus inumeráveis indícios, mas proibido de vê-la diretamente.

Essa proibição, porém, é da essência da experiência humana. Ora, se o átomo ou a alma se apresentassem seja através do microscópio ou através do amor, pareceriam uma nova substância que pode ser dividida, medida, classificada e então infinitamente decomposta. Como o átomo, a alma jamais poderá ser vista. Segundo alguns, mesmo o pensamento já a deforma: os místicos medievais pareciam perceber que a experiência inefável é a experiência mais especial e privilegiada que a alma humana pode alcançar. Viam nisso a presença de Deus, seu contato direto conosco. O êxtase místico da companheira de Ulisses, porém, era muito provavelmente sem Deus. O sono que se seguia imediatamente depois do orgasmo – que podia durar dez minutos ou, como certa vez durou, 14 horas! – a levava para algum reino distante, absolutamente desconhecido de Ulisses. Mas que lugar seria esse?

Ulisses não sabia, mas desconfiava. Os anos passados ao lado de sua companheira indicavam que mesmo quando ela estava acordada, às vezes sua alma abandonava a máquina de carne e simplesmente a deixava em um funcionamento automático. Na ocasião mais emblemática, esse recolhimento durou alguns dias: durante uma viagem frustrada de férias para uma praia nudista, sua companheira – que era certamente uma das moças mais bonitas da praia – abandonou o corpo nu às areias e ondas, enquanto pareceu mandar sua alma para outro lugar, outro continente, outro mundo. A alma da moça só voltou no último dia, quando percebeu que iriam embora. Como se tomasse um susto ou acordasse de um transe, percebeu que havia deixado Ulisses “sozinho” durante dias. Sentiu-se nitidamente culpada e redobrou os carinhos. Naquela noite, antes de seguirem viagem, correram nus na praia deserta e foi o único momento em que realmente estiveram juntos naqueles dias.

Em momentos como esse, a companheira de Ulisses não descia necessariamente as pálpebras sobre os globos oculares, mas seu alheamento ao presente era maior e mais nítido do que se fechasse nervosamente os olhos como muitas pessoas fazem. Havia uma pequena variação entre o alheamento cotidiano e os instantes de recolhimento da alma no ato amoroso. Neste havia, ainda que pequena, uma parcela de deliberação. Era um ato intencional. Ela não fugia do lugar por necessidade, mas se recolhia por vontade própria.

Mas para onde ela ia?

Observando-a dormir, Ulisses só sentia mais admiração. Sabia que ela provavelmente não o abandonaria, mas sentia que podia. E que o fazia, a cada sono pesado, em que mergulhava completamente no oceano subterrâneo de si mesma a partir do momento do orgasmo. “Eu preciso ficar sozinha”, ela dizia às vezes ao chegar do trabalho. Soltava a bolsa, tirava o casaco, soltava o cabelo e se deitava no colo de Ulisses. Em um minuto se podia ouvir sua respiração mudar, ficar mais pesada. Estava dormindo.

Qualquer coisa podia motivá-la a se recolher em si mesma. Problemas no trabalho, na família, na política. “Motivos são coisas que a gente inventa quando tem que fazer o que quer”, ela sempre dizia rindo, ironizando em uma frase todos aqueles que vivem e pensam segundo razões rígidas e supõem, assim, poder controlar a vida. Certa vez, por exemplo, chegou entristecida em casa em razão da “feiura do mundo”. Ouvira, em uma fila, uma mãe ensinando a filha a respeitar o marido adúltero, pois ela era mulher e essa era uma tarefa das mulheres segundo a natureza das mulheres. Menstruar, engravidar e aceitar adultérios era a natureza das mulheres. Contou, em uma voz monótona, já sem a indignação juvenil, que pensou em humilhar aquela mãe em público. Imaginou mil abordagens: pedagógica, furiosa, irônica, etc. A monotonia de sua voz era a voz de quem havia desistido de tentar mudar o mundo, mas que ainda tinha esperanças e desejo de vê-lo mudado. Sua alma vivia, mas padecia de um irreversível cansaço. Foi nesse mesmo tom que certa vez ela própria confessou um adultério. Com o mesmo ritual – soltar a bolsa, tirar o casaco, desprender os cabelos – disse apenas: “Eu te traí hoje. Desculpe.” Ulisses olhou para ela atônito. Depois de uns vinte segundos, perguntou se ela queria conversar. “Depois”, ela disse, olhando profundamente nos olhos dele. Ulisses entendeu que ela precisava ficar sozinha. Foi até a estante, retirou um livro e ajeitou-se no sofá a ler, em frente a televisão ligada sem volume. Ela se deitou no colo dele e, como sempre, adormeceu rapidamente.

Veja bem: neste dia, a companheira de Ulisses olhou profundamente em seus olhos. Naquele momento, ela estava integralmente ali, com ele. Precisava saber se, antes de qualquer conversa, ele ia querer ficar com ela antes de qualquer diálogo. Se fosse necessário apostar, ela apostaria que ele iria aceitar que ela descansasse antes de conversar. Não tinha certeza, mas precisava saber. Nesses momentos, ela o olhava quase sem piscar. Essa era sua linguagem secreta, desde os primeiros dias: o olhar. Antes de conversar, se olhavam. Por minutos inteiros. Compartilhavam da convicção de que as palavras não transmitem o essencial mas, no máximo, ratificam o que o olhar comunica. Em momentos como esse, se olhavam em silêncio antes de conversar. As palavras só faziam adivinhar o que o olhar já havia estabelecido em silêncio. Também foi assim no dia em que decidiram morar juntos: ela o olhava, com um sorriso bobo e quase infantil, e olhava para o quarto dele. Ele sabia que ela já não estava à vontade dividindo um apartamento com pessoas quase estranhas. Como que em um ato mágico de telepatia, Ulisses acendeu um cigarro, se deitou e olhando para o teto, disse apenas “Traga suas coisas para cá.” Ela vendeu os móveis e levou sua vida numa caixa de roupas, livros e outras miudezas para a casa de Ulisses. Viveram anos plenos de beleza dividindo o mesmo teto, afinal, ela sabia ficar sozinha no momento que quisesse, mesmo em uma multidão.

No último ano em que ficaram juntos, seus olhares já traíam o destino que os esperava. Repetiam, como jovens, o ritual que os tornou próximos: se deitavam em silêncio, apenas trocando um mútuo olhar fixo, ininterrupto. Às vezes o silêncio era interrompido por uma dupla e melancólica gargalhada, às vezes por não menos melancólicas lágrimas. Às vezes ambos. Amavam-se mais do que nunca, como nos primeiros dias. Mas era o terceiro momento de uma dialética ingrata como só são igualmente ingratos os gêmeos Acaso e Destino. Já haviam vivido tudo o que tinham de viver um com o outro. Agora, tinham amantes. Tinham desejado um filho. Ela perdeu. Sem nenhum drama, não desejaram mais nenhum. Ela queria ir embora daquela cidade. Ulisses tinha um pai doente que ele tinha o dever de acompanhar nos últimos meses de vida. Não fazia nenhuma questão que ela se sacrificasse por ele ficando ali, pois esperava dela a mesma atitude. Em uma manhã fria de domingo, Ulisses acordou e encontrou um porta-retratos novo sobre a mesa de seu escritório. Uma das primeiras fotos que tiraram juntos. Se olhavam sentados em um gramado em uma tarde de sol e sorriam, quase rindo, como crianças. A cama, porém, estava vazia. Os armários e gavetas dela também.

O pai de Ulisses durou mais dois anos. Nesse meio tempo, Ulisses ouviu falar dela mais três vezes. Sabia onde ela estava. Mas, não a procurou. Casou-se com outra mulher e com esta sim teve um filho. Levou mais alguns anos para perceber que vivia uma vida de mentira, com uma mulher que não o amava e que fazia de sua vida um tormento. Não se entristeceu quando ela se mudou, com o filho, para a casa de outro homem. Não podia condenar a frustração de uma mulher que não conseguia viver com um homem que estava sempre tão distante, que fazia tanta questão de estar sozinho.

Uma semana depois da sua separação, a campainha tocou. Quando Ulisses abriu a porta, sentiu toda sua vida pulsando na órbita de seus olhos. Toda a sua vida acumulou-se e transbordou em silenciosas lágrimas. Da parte dela, o mesmo. Desnecessário dizer que choraram, gargalharam e, sem deixarem de se olhar por um instante sequer, fizeram amor durante horas, como dois jovens descobrindo os prazeres da carne. Naquela noite, ela não fechou os olhos nem mesmo durante o orgasmo. Suas unhas se encravaram nas costas de Ulisses enquanto ela gritava, em lágrimas, sorrindo, convulsa e em êxtase. Ulisses viveu a até então a inédita paz de sentir que ambos finalmente estavam onde queriam estar. A vida se concluía.

Infelizmente, a vida dela também se acabava. No dia seguinte, Ulisses ouviu de sua companheira que ela estava condenada. Seus pulmões frágeis haviam finalmente perdido a batalha contra o maço diário de cigarros que ela fumava desde a adolescência. Morreria em meses. Em lágrimas, Ulisses brigou com ela quando soube que ela morreria sem que ele soubesse se, por acaso, ele não estivesse divorciado. Mas, mais uma vez, perceberam que o Acaso e o Destino lhes havia dado a oportunidade de uma última beleza. A doença dela durou um ano. Ulisses se demitiu e viveu de suas economias cada dia de vida que restou à sua companheira. Esteve junto com ela quando ela perdeu os cabelos, quando ela perdeu o controle dos esfíncteres, quando ela pediu pra morrer para que ele não tivesse que vê-la naquele estado e quando ela finalmente compreendeu que mesmo aquele corpo decrépito padecendo sobre uma cama ainda aparecia para Ulisses tão belo quanto o canto das sereias.

Na noite da morte de sua companheira, Ulisses foi comprar cigarros, pois a tensão da situação o motivou a voltar à fumar. Ulisses não sabia que aquele seria o último olhar que trocariam. Quando ela fechou os olhos, Ulisses correu do hospital até o botequim mais próximo, pensando em voltar o mais rápido possível. Quando retornava, ele e outros pedestres foram atropelado por um motorista bêbado. Ele morreu imediatamente, poucas horas antes de sua companheira, que não acordaria mais, respirar lenta e pesadamente pela última vez.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Raça de Ouriços – O segredo dos seus olhos fechados

  1. juliettecosta disse:

    A parte mais triste é quando ela parte. Uma tragédia. Apesar dos momentos felizes, acho que tenho fixação pelas partes tristes, chega a doer em mim, e parecem mais verdadeiras.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s