O desmundo de cada um

A pedra de Sísifo do espírito humano é, sem dúvida, ter de manusear as rédeas dos próprios desejos. Cabe ao espírito tentar guiar esse tropel de impulsos e dar forma ao seu movimento furioso, caótico, desgovernado. E como a existência tem uma aparência de linearidade, cada desejo manejado representa um caminho abandonado, deixado pra trás na poeira do tempo. E mesmo que de vez em quando dê para enveredar por um atalho e se embrenhar por um dos caminhos quase abandonados, sempre chega um tempo em que o próprio tempo já passou, e o caminho preterido se transforma em história, lembrança, trilha aberta até a metade. No fim, a vida parecerá com um mapa incompleto, no qual a estrada principal terá sido mapeada até seu destino final, mas que deixará uma série de veredas que jamais poderão ser exploradas. Afinal, a vida de cada um é única e insubstituível.

Mas se o espírito tem de carregar o pesado fardo das rédeas do desejo, se tem de enfrentar a fúria de seus cavalos selvagens e dar à carreira a impressão de um trote pensado, ao menos lhe foi dado também o dom da fantasia. E não há empresa que dê mais consolo ao espírito do que o devaneio. Há mesmo quem diga que foi pra se consolar que o espírito aprendeu a brincar com as imagens que colhe, com as canções que escuta e com os perfumes que aspira. E o espírito aprende a tecer de um tudo: desde a ideia de que a senda a ser trilhada já está escrita em algum lugar até a ideia de que os caminhos escolhidos e os modos de trilhá-lo podem torná-lo merecedor disso ou daquilo. Hoje, meu espírito descobriu uma ideia que já deve ter sido descoberta por algum outro – o que não lhe tira a alegria da descoberta: se não fosse para descobrir por si as próprias coisas, meu espírito não estaria aqui (e sim, esse é meu consolo).

Retomemos essa ideia do mapa. Um longo e fino caule cheio de galhos curtos. Na existência, cada galho poderia ter sido a continuação do caule, mas permaneceu galho porque foi abandonado ao destino de ser vislumbrado e, depois, abandonado. Mas e se a cada espírito corresponde uma segunda vida? Não uma segunda vida real, nem transcendente, mas uma segunda vida composta precisamente pelo conjunto das ramificações abandonadas?

Bem, evidentemente cada ramificação – cada caminho – certamente teria um sem-fim de consequências imensuráveis. Quando mais o espírito envereda a fantasiar por um desses caminhos, mais se afasta da realidade em detrimento de qualquer coisa como um sonho. As veredas abandonadas conduziriam à terras desconhecidas, isso é certo. Mas e se há – e meu desejo de compensação gostaria que houvesse – um mundo à parte, mesmo que feito de sonho, onde só existem esses caminhos abandonados? Em confuso convívio, desordenado pela falta de familiaridade de uns com os outros. Em comum, só o fato de terem sido abandonados nas margens do caminho principal. Como em um caleidoscópio, os mais efêmeros desejos e os maiores sonhos malogrados e abandonados conviveriam em uma doce desordem, se sucedendo até mesmo sem o enfadonho imperativo da ordem temporal.

Esse, certamente, não poderia ser o mundo de alguém, mas precisamente seu desmundo. Diferentemente da fantasia profunda com as outras vidas possíveis, o desmundo de cada um seria composto daquelas cenas que poderiam ser o germe das outras vidas. Tais cenas podem ser pouquíssimas. Mas também podem ser, em casos mais obscuros, a maior parte das cenas que povoam alguns espíritos. Eis a melancolia: algumas almas passam menos tempo em seu próprio mundo do que em seu desmundo. O desmundo de cada um: eis a ideia desnudada em sua clareza inquieta e outonal.

a vida está em outro lugar

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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