Excertos do Subsolo – O desmoronamento

Ninguém estava satisfeito ao ver Clarissa dançando sua valsa de quinze anos com seu pai. Seus jovens amigos, entre atônitos e indignados, sabiam que perdiam novamente a amiga. Contudo, quem mais sofria era Alex. Atrás do balcão da festa, preparando drinques e servindo doses de uísque, sentia seu sangue ferver em intenso rancor. Estela, sua namorada, percebeu nitidamente o ódio no olhar de Alex, e supunha saber a razão: Alex odiava o pai de Clarissa porque fora através dele que Estela descobrira em que cidade Alex estava morando desde que fugira dela própria, e porque Alex não tinha chances de ter o amor de Clarissa se tivesse de disputá-lo com o pai a menina. Ao perceber o ódio no olhar de Alex, Estela tinha a evidência daquilo que preferia não saber. Irritada com a constatação, decidiu que não ficaria mais servindo as mesas do aniversário da insuportável Clarissa. Livrou-se da bandeja e do colete, e se retirou discretamente da festa.

Para Alex, o retorno do pai de Clarissa era a sua maior derrota. Quando ele conheceu a menina, ela se encontrava em um estado psicológico fragilíssimo. Vivia sob a tutela de Estela, sua irmã de criação. Estava devastada mentalmente: apresentava crises nervosas e parecia sofrer de significativa amnésia. Alex estava começando o namoro com Estela, e a fragilidade de Clarissa fazia com que ele próprio não percebesse o quanto Estela também estava frágil. Alex também não percebeu que sua atenção e seu carinho para com a menina fazia com que o coração de Estela se enchesse de ciúmes.

O que o próprio Alex não percebia é que ele próprio estava se apaixonando por Clarissa.

No intento de ajudar a menina, Alex descobriu um renomado psicanalista. Gastava pelo menos um quarto do que ganhava com Clarissa, o que irritava Estela. Alex era proprietário de um pequeno café, que era também uma tabacaria. No salão principal do estabelecimento as mesas eram também tabuleiros de xadrez onde entusiastas da cidade se reuniam, lotando o local. Naquele mês, Alex havia contraído uma dívida por ter adquirido algumas dezenas de caixas de livros usados para deixar apenas como decoração do ambiente. Teve mesmo que “contratar” Estela, não sem antes ter de lidar com sua chantagem emocional: se não a deixasse trabalhar no local, não a amava mais. Sem opção, Alex assistiu Estela “se associar” ao seu pequeno negócio, fazendo uso do dinheiro como se fosse seu, sem sequer pedir.

Para Clarissa, as seções com o psicanalista eram decisivas. Sua memória estava mesmo bloqueada por algum trauma muito intenso do qual ela, naturalmente, parecia se esquivar cada vez que se aproximava. O analista, muito paciente, sempre deixava que Clarissa se esquivasse e conduzisse seu discurso para temas sobre os quais a menina conseguisse falar com tranquilidade. Os efeitos dessa abordagem pareciam satisfatórios tanto para Clarissa quanto para seus amigos – e sobretudo para Alex, que conseguia fazer da nítida melhora de Clarissa uma compensação para algo que descobrira e que muito o incomodava: Estela o traía.

Alex não fazia a menor ideia de quem era o amante de Estela, mas em sua estoica resignação, quase preferia saber que alguém dava à moça a atenção de que ela precisava para se acalmar. Com o tempo, porém, o amante de Estela parecia se tornar um fardo para a própria moça. Estando não raramente bêbada, falava bobagens e mais de uma vez propôs coisas como “encontros à três” para Alex. Incapaz de perceber que Estela queria dele uma atitude enérgica, Alex condescendia que ela tivesse outros amantes, mas não fazia a menor questão de participar das fantasias sórdidas nascidas do desequilíbrio emocional de sua namorada.

Stella Was a Diver And She Was Always DownEstela se enfurecia e se vingava ainda mais. Por que Alex simplesmente não lhe proibia esses pensamentos? Ou, então, porque não experimentava? Sua atitude de desistência só parecia, para Estela, desamor. Aliás, todo o comportamento de Alex lhe parecia desamor. Deixava que ela fizesse tudo o que quisesse. Que atitude poderia ser mais desinteressada do que essa? Somado a isso, havia a superproteção de Clarissa – a eterna preferida de seu pai. Estela extravasava sua raiva gastando todo o dinheiro de Alex, se encontrando com seu amante e, quando nada mais dava certo para aliviar sua alma sedenta por estima verdadeira, tendo ataques dos nervos – aos quais Alex também reagia sempre com triste condescendência, tentando racionalizar a loucura da namorada. Vendo todas as vias de sua vingança fechadas, Estela começou a seduzir secretamente um dos melhores amigos de Clarissa, chamado Jonathan.

Jonathan era o perfeito projeto de um fracassado. Pouco mais velho do que Clarissa, era um daqueles típicos jovens que procurava compensar com uma suposta “inteligência” suas faltas e fracassos nas conquistas típicas dos seus pares. Era uma alma lírica e ultra-romântica que só poderia encontrar colo na castíssima amizade de Clarissa. Alex confiava totalmente em Jonathan, e via nele o melhor amigo que Clarissa poderia ter entre os de sua idade. O que Alex não esperaria é que o também castíssimo rapaz tivesse como ponto fraco justamente aquele domínio no qual todo seu auto-reconhecimento como homem repousava: a sexualidade. Pois se com Clarissa a relação era de uma amizade sagrada e platônica, com Estela – alguns anos mais velha do que ele próprio – Jonathan podia viver experiências das quais sua alma tinha muita necessidade. Foi em encontros noturnos secretos com Estela que Jonathan conheceu as delícias do vinho e do corpo feminino. Em algumas semanas, o rapaz estava irremediavelmente mudado. Mudança que, evidentemente, entristeceu Clarissa e encheu as narrativas da menina para seu analista.

Clarissa 2A situação por si mesma já beirava o insustentável, quando a cortina caiu: em uma sessão fatídica, quando já estava quase plenamente recuperada da relativa “perda” de seu amigo Jonathan, Clarissa descobriu que seu analista era, na verdade, seu pai. A descoberta, feita através da confissão do próprio sujeito para a menina, não apenas destravou as memórias de Clarissa sobre seu passado como também a atirou em um estado mental mil vezes pior do que aquele no qual a menina se encontrava inicialmente, quando Alex e Estela se conheceram. Foi preciso que o sujeito ligasse para Alex e o mandasse buscar a menina em uma praça, próxima ao consultório. Incrédulo no que acontecera, Alex foi ao encontro de Clarissa e a encontrou em uma tarde de sol, sentada em um banco de praça, trêmula, em lágrimas, urinada e incapaz de dizer palavra. Quando entrou em casa com a menina nos braços e explicou a história à Estela, viu a namorada sair em fúria da própria casa. Pensou em ir atrás de Estela, supondo que essa cometeria alguma loucura contra o próprio pai. Mas, foi incapaz de seguir Estela. Ficou cuidando de Clarissa. Não imaginava que Estela não voltaria mais para casa.

Alex mudou de cidade com Clarissa. Vendeu o café-e-tabacaria e entrou em contato com um advogada, para tentar viabilizar uma adoção legal da menina. Clarissa havia,ink face novamente, bloqueado as próprias lembranças. Desta vez, porém, elas voltavam lenta e naturalmente. Alex não sabia o que fazer com a constante e crescente melancolia de Clarissa, sobretudo porque percebia que tal estado de espírito era ocasionado justamente pela ausência do pai. Não era um psicólogo, e não conseguia compreender que tipo de sentimento fazia com que a menina desejasse estar novamente com aquele monstro. Tentava fazer com que Clarissa pensasse no futuro, ignorava deliberadamente os apelos de Clarissa por seu pai e prometia à ela uma bela festa de quinze anos. Clarissa havia feito novos amigos na nova cidade, mas era inevitavelmente vista como uma criaturinha muito estranha num ambiente mais provinciano que o anterior. Jonathan, rapidamente esquecido por Estela e novamente frustrado em qualquer tentativa de viver uma adolescência normal, já havia viajado uma meia-dúzia de vezes para passar o fim-de-semana com Alex e Clarissa, mas mesmo o rapazinho não conseguia mais acompanhar os delírios da sua amiga. Clarissa falava o tempo todo da vida maravilhosa que tivera com seu pai, e de como seriam novamente felizes juntos, no futuro. No entendimento de Jonathan, Clarissa havia enlouquecido completamente. Alex, contudo, não queria se dar por vencido.

Em uma das tardes ensolaradas da semana que precedia a festa de quinze anos de Clarissa, Alex recebeu uma ligação.

– Tudo bem, Alex? Posso falar com você um instante? – Era uma voz masculina. Alex supunha, mas preferia não ter certeza de quem se tratava.

– Com quem eu falo?

– Você sabe com quem está falando.

Era o pai de Clarissa.

– Veja, sei que você vai dar uma festa para Clarissa. Também sei que você não gostaria que eu fosse. Mas não estou lhe dando opção. Na verdade, o objetivo da minha ligação é outro. Estela está precisando de um emprego. Avisei que você está morando aí, e avisei da festa. Providencie algo para que ela possa fazer. E guarde a última valsa de Clarissa para mim.

E desligou.

Alex sofreu a maior vertigem que já sentira em toda sua vida. Sentou-se. Era como se sua própria morte lhe tivesse sido anunciada. Sentia sua vida desmoronando. Recuperou o fôlego e, como um morto-vivo, serviu as pessoas atrás do balcão do bar onde trabalhava na nova cidade. Ao fim do expediente, encontrou Estela à sua espera na porta do bar. Com seus incorrigíveis olhos tristes, a moça não precisou dizer nada. Alex a levou para o pequeno apartamento de um dormitório onde vivia com Clarissa. A jovem não pareceu surpresa ao ver a própria irmã, nem pareceu se incomodar com o fato de que Alex e Estela dividiam uma cama de solteiro ao lado da sua. E nesse ritmo, em silêncio quase sepulcral, os dias se passaram até o dia da festa de Clarissa.

No dia da festa (para a qual o próprio Alex alugou dois ônibus para que os convidados pudessem vir desde a antiga cidade onde moravam), Alex estava uma pilha de nervos. Esperava que o acaso lhe desse alguma ocasião para que ele pudesse “vencer” o pai de Clarissa, mas não conseguia pensar em nada. Havia organizado a festa de modo que Jonathan e em seguida ele próprio dançassem as valsas com Clarissa, mas a menina foi irredutível: só queria dançar com seu pai. Os amigos de Clarissa insistiam com Alex que a menina estava fora de si, que não sabia o que falava, que seu pai jamais apareceria. Jonathan alimentava a esperança de que seria ele, e apenas ele, a dançar com Clarissa. Para a surpresa de todos, o pai de Clarissa surgiu triunfante no salão. Seguiu-se um silêncio. Alex, que não recebera nem ao menos um instante do olhar do pai de Clarissa – totalmente fixo na filha, que o retribuía com fascínio e silenciosas lágrimas – mandou a valsa começar a tocar.

Clarissa e seu pai dançaram. Flutuavam pelo salão, ao som da valsa e do silêncio absoluto de todos os presentes. Foi nesse instante que Estela se retirou, discretamente, da festa. A valsa, que durou alguns minutos, foi suficiente para que os anos de dedicação de Alex para Clarissa desmoronassem, pedra por pedra. Cada passo sincronizado do bizarro casal fazia com que o coração de Alex batesse de forma descompassada. Percebia que não via nada que já não soubesse. Mesmo em seus momentos mais lúcidos, Clarissa deixava entrever que sempre preferiria seu pai. Alex não conseguia imaginar o que seria sua vida a partir daquele instante. De modo mais automático do que jamais fizera, foi ele que puxou as palmas que sucederam imediatamente o fim da valsa. Os presentes, sem entender o que acontecia, acompanharam.

Logo que a valsa acabou, o pai de Clarissa sussurrou algo ao ouvido da filha. A menina meneou a cabeça negativamente mas, como sempre, cedeu. O pai de Clarissa se retirou da festa discretamente. Quando Alex perguntou a Clarissa o que seu pai havia dito, a menina fugiu do assunto. Era irreversível. Alex perdera Clarissa para sempre.

A festa duraria mais algumas horas, mas depois que seu pai se retirou Clarissa não tardou a pedir que Alex a levasse para casa, pois estaria cansada. Alex, sem saber recusar qualquer pedido da menina, cedeu e pediu que Jonathan cuidasse do resto que no dia seguinte o remuneraria. Jonathan, também arrasado, concordou. Alex tomou um táxi e foi com Clarissa para casa. Quando entraram em casa, Clarissa foi direto para o banheiro. No caminho para o quarto, Alex percebeu que havia luz dentro do quarto. A luz do abajur estava ligada e a porta entreaberta. Aproximou-se o mais silenciosamente possível do vão da porta entreaberta e pôde ver o corpo de Estela sobre o do pai de Clarissa, repetindo maquinalmente os mesmos gestos que ele conhecia tão bem. Descobria, enfim, o amante de Estela. Era inacreditável.

Desmoronava o resto da alma de Alex naquele instante. Olhou por mais alguns segundos e olharia até que não sobrasse mais parte nenhuma de sua alma em pé. Então ouviu barulho no banheiro, onde estava Clarissa. Entrou no quarto e fechou a porta por dentro, o que fez com que o casal parasse imediatamente. Olharam para Alex, esperando que este dissesse alguma coisa.

– Recomponham-se. Clarissa está em casa.

Ao ouvir menção ao nome de Clarissa, Estela, ainda nua, se levantou. Teria iniciado um ataque de nervos se, de modo imperativo, não tivesse sido ordenada a se calar pelo outro homem no quarto. De modo incompreensível para Alex, Estela se calou. Vestiram-se rapidamente e ouviram Clarissa batendo na porta. Alex abriu e Clarissa, ao ver seu pai, correu para os braços dele. Estela olhava pela janela, sem olhar para Clarissa ou seu pai. Alex só desejava que a cena acabasse o mais depressa possível. O pai de Clarissa abraçou a filha, se levantou e, com as mãos pousadas sobre os ombros da filha, ainda de vestido branco, disse calmamente:

– Vou levar Clarissa.

Alex, em silêncio, olhou para o pai de Clarissa e, em seguida, para a menina.

– É isso o que você quer, Clarissa?

A menina saiu delicadamente do abraço do pai, parou na frente de Alex e lhe deu um abraço. Olhou novamente para ele e disse. “Sim, mais do que tudo.” Alex sorriu, abraçou Clarissa e abriu a porta. Clarissa estendeu a mão para seu pai, que se aproximou da menina e tocou-lhe a mão. Com a outra, tocou o ombro de Alex.

– Nos veremos novamente, Alex.

O rapaz nada respondeu. Ouviu a porta da frente se abrir e se fechar. Clarissa não voltaria mais. Foi até a janela com Estela e, em silêncio, fumaram os dois últimos cigarros que tinham. Estela esperou alguns minutos e, sob o pretexto de comprar mais cigarros, saiu. Também não voltaria. Alex já sabia.

Alex se despiu, se deitou e depois de um longo e justo ritual de autocomiseração e lágrimas, conseguiu dormir. Não sem antes ajustar o relógio para despertar, pois o dia seguinte era segunda-feira, era necessário trabalhar. Acordou exausto, duas horas antes do despertador tocar, e lamentou que tudo não tivesse passado de um pesadelo. Sua vida estava devastada e nem mesmo havia sobrado um cigarro ou um resto de café em seu armário. No caminho para o trabalho, ligou para Jonathan, para lhe oferecer uma recompensa pela amizade, por ter se encarregado de cuidar do salão de festas. Jonathan recusou qualquer recompensa.

– Mas como, meu amigo? Você me deu uma ajuda e tanto ontem. Deixe eu lhe recompensar!

– Insisto que não precisa, Alex… vamos deixar tudo como está…

– Jonathan, o que é isso? Eu insisto. – Uma voz feminina se interpôs no telefone.

– Ele não quer nada, Alex. Ele não precisa de nada. De nada que venha de você. Aliás, ninguém precisa. Faça o favor de deixar as pessoas viverem suas vidas, Alex. Comece, talvez, arrumando uma para você mesmo.

Alex não teve tempo de responder. Estela desligou. Alex continuou caminhando. Já não havia mais o que desmoronar.

The-Ballad-of-Jack---Rose-daniel-day-lewis

Clarissa é uma personagem que protagoniza meus contos e habita minha imaginação desde meus dezessete anos. Nasceu, como diria um pensador, de uma necessidade. Permaneceu intocada pelo tempo durante mais de uma década e, se não tem o fim que merece, tem o fim que posso lhe dar. Destruí todas as histórias que teci para ela e a mantive guardada como arquétipo. Por tempo demais. Tempo suficiente para perceber que a ideia por ela encarnada já não é mais necessária, mas que pode ser útil. Se ela reaparecer em minhas narrativas, será como variação eidética, e suas histórias serão sempre variações do mesmo tema, sem encadeamento linear possível. O mesmo vale para seu pai e todos os coadjuvantes que apareceram nessa história. Clarissa sempre retorna para seu pai, que é sempre o mestre do tabuleiro. Estela tem olhos tristes e nenhum autocontrole. Jonathan vive a saga da compensação e sobrevive de migalhas. Alex já foi a personificação da angústia antes que eu conhecesse o próprio conceito, pois ele era o personagem que nunca sabia qual caminho deveria escolher. Hoje, ele é o herói da renúncia, do amor incondicional, que aprende a crescer a cada derrota. É o que lhe restou.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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