Excertos do subsolo – Compromisso negativo: platonismo e melancolia

É uma condição sofisticada e de difícil descrição. Talvez apenas algum filósofo marxista, psicanalista lacaniano ou outro tipo contemporâneo de mago hermético poderia me dar o conceito do qual necessito. Trata-se de uma etapa do espírito na qual aquilo que é mais necessário é também indesejado.

Evidentemente não me refiro às necessidades mais básicas do corpo e da carne. Essas só torturam até serem devidamente adestradas – e a atmosfera do subsolo as torna presas fáceis aos estratagemas do espírito. Este, por sua vez, tem suas próprias necessidades e parece criá-las a partir de um fundo secreto e misterioso, mas talvez e aparentemente lógico e ordenado como muitos símbolos humanos. Penso no zodíaco, com sua estrutura cíclica e seus inúmeros ponteiros, indicando que a existência humana é uma brincadeira combinatória de forças que jamais mapearemos adequadamente. A metáfora é boa, mas há uma melhor: Ulisses.

Ulisses deseja o desejo. Quer o objeto de seu desejo mas o quer perpétuo, não consumido, inesgotável. Diria mesmo infinito, se o termo não estivesse impregnado de aspectos nobres e edificantes (e a vida no subsolo, sabemos, se trata de desmoronamento sistemático, e não edificação). O doce infinito da fábrica de Willy Wonka, que não sacia nem se esgota, tem a estrutura do objeto dessa fase do espírito. Avançar a fase seria destruir aquilo que lhe dá sentido. Talvez por isso os existencialistas fossem obcecados pela consciência infeliz: a fruição da falta, a doçura da melancolia pode ser uma armadilha derradeira no caminho para onde quer que se vá. Mas há, sem sombra de dúvidas, um desejo de eternidade tão inocente quanto aquele que inspira os grandiloquentes sábios e santos de todos os tempos.

O instante mágico da transformação aconteceu quando fui abandonado no altar. Vestida de branco, ela disse “não” e correu. Correu para algum lugar onde, sei, jamais a encontrarei. Um “não” inesperado, surpreendente e trágico. Na noite anterior eu já havia confessado aos amigos, na despedida de solteiro, de que não seria capaz de fazer a mística e beatífica felicidade durar para sempre. Depois de doses de uísque e quase um maço inteiro de cigarros, confessei à todos algo que supunha ser uma característica universal do espírito humano: nada pode ser mais nocivo à alma do que a cessação do movimento. Disseram-me que eu estava paranoico, mas o “não” confirmava minha teoria. Aquele amor renascia na ausência que crescia na mesma medida em que sua silhueta se afastava no vestido branco.

Evidentemente, essa consciência não foi imediata. Em um primeiro momento, recebi a merecida semana de folga na redação do jornal e em um dos dias especialmente difíceis, voltei à casa de minha ex-esposa, também novamente solteira, para ver se reencontrava qualquer sobra de mim mesmo no cenário no qual eu já havia tentado a vida reta e real. Por ao menos uma noite seus braços e pernas me ajudaram a me despir e esquecer daquela persona fracassada e digna de pena na qual aquela semana havia me transformado. No sétimo e último dia de descanso, porém, uma carta me obrigava a recriar um mundo. Uma carta que me fez lembrar de Leibniz e da sua teoria que diz que esse é o melhor dos mundos possíveis e que nada que acontece poderia acontecer sem uma justa razão. Era como se eu tivesse exorcizado de minha alma sua melhor parte e esta fosse a responsável por cada linha.

Ariadne – esse era um de seus nomes para mim – dizia que teria dito sim, se tivesse certeza de que em mim havia qualquer tipo de certeza. Ela mesma afirmava que estava disposta ao papel de vilã, pois sabia que ela mesma não suportaria o itinerário dos rituais cotidianos que tomaria de assalto nossas vidas. Mas já percebia, há semanas, minha dúvida. Suas palavras faziam todo sentido: nossa vida, já trespassada por algumas intempéries naturais do desenvolvimento da partitura do amor conjugal, havia se renovado de uma forma quase mágica há algumas semanas. Sua paixão por mim parecia ter se restaurado sozinha e por milagre, sem que eu tivesse me esforçado nem um pouco para isso. Voltamos a frequentar os cinemas pelo simples prazer de trocar carícias escondidos nas salas escuras, sem o menor interesse nos filmes. Dormíamos na rede exalando o odor do repelente de insetos e fizemos amor na escuridão de um parque, na volta de uma noitada. A antecipação da perda premeditada fazia com que ela vivesse o que, segundo ela, é a forma mais adequada de se dispor na vida: a doce melancolia. Sempre entendi conceitualmente a ideia, mas não podia imaginar que ela a vivia de forma muito mais intensa e vívida do que eu.

Ela sempre esteve certa, afinal: a efemeridade da vida, derivada da ininterrupta ação destrutiva do tempo, avisa silenciosamente que absolutamente nada resistirá aos ventos da transformação. Mais do que eu, ela vivia com a consciência dessa impermanência de forma radical. Admitia, contudo, uma ilha de salvação provisória contra a desesperadora consciência da atividade corrosiva do tempo: a lembrança dos momentos perfeitos. Segundo Ariadne, era isso que ela me oferecia ao me abandonar no altar: um momento perfeito. Negativamente perfeito, perfeitamente adequado para se inscrever em uma narrativa trágica na qual o maior valor é a simples existência dos acontecimentos, e não sua utilidade para a execução de nossos projetos.

Como que por uma programação automática, meu sangue ferveu com um ódio que não tingiu o espírito. Embora talvez soe estranho, o fato é que a imagem de Ariadne em meus pensamentos continuava tão comovente quanto sempre fora. Encharcado de suor e ofegante, acendi e quase não consegui fumar um cigarro na sacada do apartamento. Mas meus pensamentos e sentimentos eram ternos àquela criatura tão mal-feita, cuja alma havia sido entalhada na mesma forja que a minha. Só eu poderia entendê-la, só ela podia me entender.

Os anos se sucediam e a distância só dava contornos mais nítidos à impressão que eu tinha, de que éramos nascidos um para o outro. Quanto mais distantes estávamos, mais idênticos éramos em nossa doença, em nossa franca impossibilidade de desfrutarmos a felicidade de superfície. Foi por isso que fui atingido por uma incontrolável vertigem quando descobri, indiretamente, que ela havia tido um filho e que, há mais de um ano, havia se casado com um bom e humilde homem.

Quem Ariadne havia se tornado? Porque ela deixara a vida se assentar em uma possibilidade tão distante daquela que éramos um para o outro? Quem poderia ser esse homem capaz de cooptar um espírito arredio ao calor e ao perfume regular de uma vida boa? As questões surgiam de um modo muito especial: surgiam para permanecer, pois não me moviam um milímetro na direção de possíveis respostas. Surgiam como soldados de um inconsciente auto-destrutivo, masoquista e perpetuamente insatisfeito, sempre capaz de colocar em marcha as forças necessárias para decompor o que quer que estivesse à caminho de uma serena sedimentação. Estive por meses inteiros dominado pela angústia de desejar saber sem desejar saber. Desejava entendê-la da mesma forma que desejava tê-la. Naquele instante, todas as estruturas da minha vida se sobrepunham em uma harmonia pré-estabelecida tão coerente quanto fadada ao fracasso: tudo o que eu desejava, desejava permanecer desejando. Queria Ariadne, mas não queria tê-la. Queria entendê-la, mas queria permanecer querendo. Queria descansar da incerteza, mas queria fruir até a última gota da sensação de dúvida.

Reencontrei Ariadne em um café. Havia marcado uma entrevista com um professor e cheguei meia-hora antes para me inteirar do que devia perguntar. Foi quando Ariadne surgiu. Majestosa. Cabelos soltos, sem nenhuma maquiagem. Uma blusa que não ajudava nem um pouco a realçar sua cintura ou seus seios, mas que a deixava ainda mais elegante e precisamente desalinhada, com aquele perpétuo ar de quem não está aqui, de quem não está na superfície, de quem vive no próprio subsolo e não se interessa pelo frívolo suceder de cenas da superfície. Vi o quanto ficou desconcertada quando me viu. Mas, ainda majestosa, sorriu e se sentou diante de mim.

Liguei para o professor, dizendo que não poderia ir ao nosso encontro. Ele disse que não entendia nada, pois havia passado em seu automóvel em frente ao café minutos atrás e me vira lá à sua espera. Disse que não podia mesmo. Quando ele insistiu, lhe disse desaforos, que arrebentaria sua cara se aparecesse, que contaria à todos que tem casos com alunas e que suas publicações cheiravam a charlatanismo. Apavorado, o homem desligou. Aquela brincadeira me renderia um processo e eu perderia meu automóvel para indenizar o sujeito. Mas era um preço justo à ser pago por alguns momentos com Ariadne.

Naquele dia, ela me explicou: me deixara para perpetuar o amor, para não deixar que ele se decompusesse em rancor e tédio ao ser superexposto à infecta atmosfera do cotidiano conjugal. Perguntei, inevitavelmente, porque ela decidira se casar com outro homem e ter um filho. “Uma filha”, ela me corrigiu. Disse que engravidou sem querer e, por conveniência, decidiu viver ao lado do pai de sua filha. Mas que isso tinha data de validade, e que logo desmoronaria por si. Que isso era inevitável e que seu marido já pressentia tal desmoronamento. Eu estava perplexo, mas também compreendia cada palavra, em cada frase, acompanhada de cada olhar e cada suspiro. Ela disse que ainda tinha uma hora até ter de voltar para casa. Acompanhou-me até meu apartamento. Foi a noite mais bonita da minha vida.

Ela continua distante. Livrou-se do marido, que se tornou um bêbado. A filha vive com ela, e é uma menina linda. Posso senti-la aqui e ali, se esgueirando entre as esquinas e os meus pensamentos. Ela não parece mais ter o mesmo interesse em me ver, mas nas duas ou três vezes em que nos encontramos casualmente, pude ter certeza: ela ainda tem o mesmo interesse em querer me ver. Tenho medo de que algo de ruim aconteça à ela, e que eu perca a única coisa que me motiva e se destaca do fundo indiferenciado do cotidiano: vê-la passar por mim e, com um olhar silencioso, confirmar nosso perpétuo, platônico e melancólico compromisso negativo.

Noah Kalina

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Excertos do subsolo – Compromisso negativo: platonismo e melancolia

  1. Gabriel D. disse:

    Impressionante, Vítor. Por conveniência, desformalizei algumas de tuas descrições preenchendo-as com lugares e pessoas conhecidas, ou melhor, íntimas. Inevitavelmente, tive diante de mim alguns fantasmas com os quais compactuem e ainda compactuo, apesar de meus esforços para exorcizá-los. Parabéns!

    Vítor, no início, você fala que necessita de um conceito bastante difícil. Acho que você sempre necessita, e também sempre está de posse de, conceitos difíceis (você é um rapaz difícil). Depois de ler o texto, pensei que este conceito difícil poderia ser encontrado não num lacaniano, nem num marxista, mas num hermeneuta. Ao mesmo tempo, e justamente por ser um conceito hermenêutico, isso já significa não responder tuas necessidades, uma vez que seria difícil compatibilizar aspirações platônicas com algo que tem, por assim dizer, historicidade em suas veias. Na verdade, pensei em três conceitos, mas um deles parece abarcar, pelo menos parcialmente, os outros conceitos e também algumas de tuas necessidades. O primeiro dos conceitos é o de facticidade, pois estamos jogados no mundo e expostos àquilo que se nos apresenta, e ser algo como existente é sempre um tomar algo para si e um deixar algo para trás (e simultaneamente). O segundo dos conceitos é o de queda, que é um conceito ontológico de movimento. Como todo movimento, este deve ter uma direção. Parece-me que a direção do movimento de queda é algo que não somos, algo em relação a que somos estranhos, e que, ao nos vincularmos, faz com que nos alienemos de nós mesmos. Finalmente, o terceiro conceito é o de ruinância. Em certo sentido, este conceito abarca os anteriores, e parece-me que ele abarca pelo menos algumas das tuas preocupações, uma vez que isso parece ser necessário e indesejado. A ruinância parece ter sido a concepção mais ou menos pessimista de Hger em relação à própria existência: sua tendência de fragmentação, aniquilamento auto-interpretação decadente. Segundo Hger, a ruinância tem um ‘para-onde’: e é o nada. Para resumir, acho que o que procuras tem relação com um conceito móvel de vida, entendida como determinada por uma dinâmica interna em direção ao nada. Que te parece?

    Abraço!

    • Vítor Costa disse:

      Isso de ruinância eu não conheço, mas me parece interessante. Porque Heidegger não me parece um pensador cujo pensamento padeça do desejo de infinito e eternidade que impregna a ontoteologia – que supõe que essas são categorias possíveis – em geral e em especial, para mim, a de Sartre. Onde posso ler mais sobre isso?

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