Esboço de uma fenomenologia do sentimento ‘kitsch’

Se há um tópico no qual acho que Jean-Paul Sartre é interessantíssimo – mais interessante do que talvez correto – é nas suas descrições psicológico-fenomenológicas dos sentimentos e emoções. Quando fala de fenômenos como a tristeza, Sartre é brilhante em emparelhar a vivência das emoções e dos sentimentos com a representação cômica dos mesmos. Um sentimento vivido e um sentimento fingido são, segundo ele, quase indistinguíveis.

Pessoas que tem muita estima pela imagem que fazem de si mesmas (e isso inclui aquelas vaidosas condutas de auto-depreciação) são geralmente bem-sucedidas na prática daquilo que Sartre chama de “reflexão cúmplice”: refletem sempre a favor de si mesmas, incorrendo em inescapável má-fé. Criam aquilo que precisam sem se dar conta disso. Produzem, pela reflexão e em série, aquilo que for necessário para a manutenção da própria auto-imagem. Isso inclui a supervalorização da vida interior.

E é aí que entra Milan Kundera.

Kundera usa o termo kitsch para se referir ao paradigma de mau-gosto que cria todo um imaginário e simbolismo estético totalmente artificiais, baseado em uma imitação sentimentalista da vida que, para ele, instaura uma ditadura do coração: em nome do que “sentem”, pessoas e grupos são capazes de fazer qualquer coisa.

Ora, o sentimentalismo kitsch é um solo fértil para tomadas de posição irracionais, fundamentadas no injustificável e com um perigoso efeito colateral: como os sentimentos são aquilo que confere o reconhecimento de si desejado pelo sujeito que os vive/encena, nenhum tipo de experiência proporcionará uma “tomada de consciência” até que o sujeito deseje libertar a própria reflexão da cumplicidade e da conveniência necessárias para a manutenção da auto-imagem. O sentimentalista kitsch não sentirá culpa, pudor ou vergonha de tomar posições e atitudes que poderão ir do meramente patético ao monstruoso. O sentimentalismo kitsch pode ser usado para ler Álvares de Azevedo, a história de Abraão e seu filho ou a biografia de Stalin.

Voltando a Sartre, penso que ele pode ser positivo no seguinte sentido: ao nos informar que nossas vivências emocionais são feitas da mesma matéria da qual seria feita uma encenação cômica das mesmas, Sartre nos coloca um espelho límpido diante de nós cada vez que sentimos a emoção nos “tomar passivamente”. Somos responsáveis pela comédia. Como se uma voz na consciência perguntasse: você precisa mesmo representar essa comédia? Você quer mesmo acreditar nesses sentimentos patéticos? Você precisa desse gestual exagerado e desse vocabulário quase litúrgico, que torna sagrada sua vaidosa, narcísica tristeza? Sartre e Kundera nos ajudam a nos libertar desse vaidoso espelho sujo do sentimentalismo kitsch.

kitsch

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos e marcado , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Esboço de uma fenomenologia do sentimento ‘kitsch’

  1. Gabriel D. disse:

    Interessante. Do pouco que li de Sartre, sempre gostei de sua fenomenologia dos afetos e de sua fenomenologia da imaginação. Em certo sentido, imaginação e afetos são como que momentos constitutivos de um único fenômeno: o da criação, que, claro, inclui a criação de identidades para si próprio.

    Não sei se entendi direito o papel do sentimento ‘kitsch’. Ele atuaria como um tipo de racionalização e justificativa para um determinado comportamento, especialmente no caso de o comportamento em questão ser desviante daqueles padrões comportamentais publicamente estabelecidos? Tradicionalmente, parece-me que os filósofos procuraram fundar ou basear as justificativas em proposições que supostamente eram desvinculadas da dimensão afetiva. Penso que isso se deve pelo fato de tradicionalmente terem pensado o ser-humano em termos de faculdades: entendimento e sensibilidade, por exemplo. Admitindo que Sartre aceita que seja possível justificarmos algo, como seria a natureza desta justificação?

    Abraço, nobre!

    • Vítor Costa disse:

      Também me parece que antes da fenomenologia a alma humana era pensada de forma que a afetividade em geral era concebida como antagonista da racionalidade. Mas não sei se apanhei a questão sobre a “natureza da justificação”. Pode desenvolver?

      Abraço!

  2. jorge alam disse:

    Parabéns pelo blog, também admiro os dois autores, o interessante dessa sua reflexão é como essa exposição do ego sofrido e atormentado virou avatar de redes sociais: “fulano está se sentindo triste”, “fulano está se sentindo cansado”. Os que defendem isso nos falam da solidão da vida humana e da necessidade de comunicar, no entanto, não se pode levar á sério desesperos meticulosamente estampados em outdoors virtuais.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s