Acordo e desacordo, silêncio e amor

O debate entre os que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que o universo apareceu por si mesmo implica coisas que vão além de nossa compreensão e experiência. Muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.

– Milan Kundera

Essa passagem retirada d’A Insustentável leveza do ser me oferece uma chave de leitura não apenas para a história da filosofia como também para a própria condição humana. Como alguém que se ocupa de filosofia, parece tentador separar os protagonistas da história da filosofia nessas duas classes. Como alguém que se ocupa de existencialismo, é duplamente tentador dizer que aqueles que aderem a condição humana flertam com a má-fé. Porém, como alguém que vê a existência como a oportunidade para uma jornada de (auto)conhecimento, é absolutamente tentador dizer que para aprender o que seja a existência faz-se mister primeiro aceita-la como ela é. Eis uma de minhas aporias, uma de minhas antinomias teóricas cuja tomada de posição reverbera inevitavelmente no campo da prática, mesmo que de modo meramente interior.

Alguns pensadores sugeriram fortemente que nossa dignidade humana está vinculada ao pensamento, à liberdade. Pensar com eles é pensar em uma esteira que nos separa definitivamente da natureza, da animalidade, da totalidade do universo. Outros sugerem que a existência só é plenamente vivida quando se compreende o próprio lugar em um sistema integrado de entidades das quais não somos tão diferentes pelo mero fato de sermos autoconscientes. Os primeiros são pais severos que, eventualmente, desejarão que imitemos a beatitude etérea dos anjos. Os segundos podem não raro se apresentar como expressões do arquétipo do “sábio”, caro às filosofias orientais, nos sugerindo humildade e serenidade diante da natureza de todas as coisas. Os primeiros nos convidam à purificação das intenções e ao merecimento de uma bem-aventurança que os segundos sugerem que deve ser experimentada de forma concreta e sublunar. Haverá como sintetizar posições tão diametralmente opostas? Haverá como integrar o ser humano livre, digno, pensante e espiritual em uma grande cadeia de entidades que obedecem as mesmas regras, mesmo que estas se tornem setorialmente tão distintas e complexas que pareçam outras? O próprio desejo de sintetizar tais posições em uma só não nos joga imediatamente no segundo grupo dos pensadores, que desejam nos ensinar como participar da totalidade?

Não acho que tais questões tenham uma resposta teórica, mas talvez prática. Acho que a assunção de uma ou outra posição diz mais sobre o tipo de pessoa – filósofo ou não – que assume tal posição do que sobre a verdade ou falsidade da posição assumida. Creio mesmo que o pensamento especulativo não tem condições de responder tais questões, e que uma espécie de silêncio interior sobre tais questões seria a única atitude legítima para com elas. Acho que tal silêncio – místico – é um ponto de intersecção real entre esses dois compromissos possíveis, pois só através de um silêncio desse tipo tais compromissos metafísicos podem esmaecer em posições meramente metodológicas. Só através de um sincero silêncio – acompanhado ou não de fé verdadeira ou apostas de Pascal – sobre as questões maiores se torna possível um compromisso com o mundo sublunar no qual a existência se dá, onde as atitudes podem se purificar e se tornarem autênticas.

Apelar para o silêncio é apelar para uma subcategoria do absurdo: o pensamento, humildemente, se recolhe diante das questões magnas. Mas o silêncio não é a única subcategoria do absurdo que me é cara. Penso que outra se faz necessária para que o silêncio não se torne uma fuga niilista do que há de mais essencial de nossa condição. Essa outra subcategoria do absurdo é o amor.

Aqui eu silencio, porém. Qualquer teorização sobre o amor no último dia de um ano corre o sério risco de se tornar melodramática, cafona, kitsch. Deixo o apelo para que tal categoria seja assumida na existência, vivida nos atos e no dia-a-dia. Um apelo que conta com a quase-certeza de que tal conceito faz vibrar um acorde específico em cada coração. Sem ousar explorar quais seriam os pressupostos teóricos da possibilidade – ou impossibilidade – de tal experiência na vida intersubjetiva e social de cada um, desejo que essa experiência não falte à nenhum dos meus seis ou sete leitores.

Feliz 2015.

Le_Saut_Dans_le_Vide

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Acordo e desacordo, silêncio e amor

  1. Prezado Vitor,

    diante de tantas adversidades, diria que a reflexão é o melhor caminho que levará á nossa contemplação existencial. Ao tomar conhecimento sobre nossa condição planetária, embora poucos vejam dessa forma, faz mister partir de um ponto que possa explicar e nos mostrar uma realidade que caminha a passos cada vez mais acelerados. Essa aceleração age como uma brisa que refresca a consciência e atualizada nosso paradigma de mundo, cujos preconceitos e superstições, cedem lugar ao atual, claro e significante. Tenha um ótimo 2015.

  2. Najara disse:

    Adorei seu blog! Agora você tem oito leitores rs. Difícil achar textos de qualidade para ler na Internet. Parabéns!

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