Excertos do Subsolo – Os olhos tristes de Estela (revisitado)

Da última vez que falei de Clarissa e daqueles que a circundam, entreguei minha chave de leitura de meus próprios personagens. Embora as definições apresentadas possam ser consideradas provisórias e parciais, penso que foram mais ou menos adequadas para seus propósitos. Arrisco tais definições sem muito receio ou pudor: mesmo sabendo que o conceito engessa e eventualmente empobrece a narração, só muita pretensão intelectual permite que aquele que escreve se envolva voluntariamente em um ar de mistério.

Volto a falar de Clarissa para falar de uma época bastante especial de sua vida: a época em que teve que dividir a atenção de seu pai com sua irmã, Estela.

Como se sabe, Clarissa era a queridinha do papai. Perdoada desde o princípio pelo que quer que fizesse, Clarissa estava sempre certa. Estela, por sua vez, obcecada pela ideia de que sem o amor do pai ela mesma seria uma pessoa incompleta, fazia tudo para agradar o pai. Imitava-lhe os gestos e gostos. Supunha estar, dessa forma, agindo da maneira mais adequada para ganhar o amor do pai. Ou, para ser mais preciso: supunha, com sua jornada, estar se tornando merecedora desse amor. Eis a triste armadilha na qual havia caído Estela: ao perseguir o mérito, sua ação deixava de ser espontânea, natural, autêntica. Tornava-se o simulacro de uma conduta que lhe caía mal como uma roupa pouco ajustada às suas formas. Ao repetir gestos que não compreendia, se tornava um personagem caricato, risível, enfadonho. Perdia para Clarissa, assim, todos os dias, um pouco mais do terreno que desejava no coração de seu pai.

Clarissa, por sua vez, vivia triste. Mas também vivia feliz. O que não é nem um pouco contraditório: a oscilação de humor é não raro o sinal de superabundância de vida e esse era precisamente o caso de Clarissa. Da expressão mais taciturna e do olhar mais perdido no próprio interior, Clarissa conseguia ir para a euforia mais pura em um simples instante. Ou o contrário: estava absolutamente eufórica entre amigos e se recolhia em ares soturnos diante de qualquer visão – ou mesmo pensamento – sombrio que lhe surgisse. Tal espontaneidade irritava profundamente Estela: quatro anos mais velha que sua irmã, não raro dizia a quem pudesse ouvir que Clarissa era dissimulada e que fingia uma espontaneidade calculada só para ganhar o amor do pai. Queria acreditar nisso e quase conseguia, embora não poucas vezes constatasse, com a cabeça no travesseiro, que projetava sua própria conduta no juízo que fazia sobre o comportamento de Clarissa. Como o sonho da vida de Estela era agradar seu próprio pai, porém, conseguia, com raro sucesso entre os mortais, se enganar por longos períodos: se convencia do próprio valor e se perdia, mais e mais, no próprio personagem. Emulava para si mesma a tristeza que supunha dever sentir para tentar ser quem achava que devia.

Esse período da vida das irmãs foi também o período em que Alex teve de conviver com as duas. E por mais honestas e sinceras que fossem as atitudes e os pensamentos de Alex para consigo mesmo, não foi capaz de resistir à tentação de salvar Clarissa da má influência de seu pai. E embora fosse Estela que estivesse sob a tutela de Alex naqueles dias, era Clarissa que ocupava seus pensamentos. O que Alex não percebia acerca de si mesmo era a própria fragilidade na qual ele mesmo se encontrava. Foi por essa razão que ele mesmo não foi capaz de perceber a profunda compaixão que Clarissa lhe destinou, um misto de reconhecimento do valor de Alex com a própria carência, impossível de ser sanada pelo amor do pai. Assim, foi em um dia ensolarado e inofensivo em seu café-tabacaria, que Alex tentou, pela única vez, enfrentar o pai de Clarissa. Pelo bem das duas irmãs.

Alex, em um fim de tarde que deveria ser como qualquer outro, arrumava as mesas de seu café-tabacaria – que eram também tabuleiros de xadrez – para acomodar o torneio que promovia semanalmente. Com a paciência e a displicência de alguém que tem todo o tempo do mundo, arrumava pessoalmente as trinta e duas peças em cada uma das mesas, enquanto pedia licença para os frequentadores ali colocados dirigirem-se, por gentileza, ao balcão. Aconteceriam doze jogos simultâneos, e provavelmente o torneio transcorreria até a madrugada. Ele próprio estava entusiasmado para jogar e, enquanto arrumava a mesa central, pensou que desmaiaria – antes: pensou que sonhava, que aquilo não estava acontecendo – quando vislumbrou o rosto cínico do pai de Clarissa conduzindo Estela pelo café-tabacaria, em sua direção.

Foi apresentado, pelo pai de Clarissa, para Estela. No olhar da moça se via que algo estava diferente: não reconhecia Alex, como se nunca o tivesse visto. Estela supostamente desejava um emprego. Era, sem dúvida, verdade: cumprimentou Alex com beijos no rosto que expressavam absoluto esquecimento de seu rosto, de sua pessoa. Alex chamou uma de suas funcionárias para atender Estela enquanto fitava, atônito, o pai de Clarissa em sua expressão irônica de vitória. Sentaram-se à uma mesa, sem romper os olhares mútuos. Com naturalidade, o pai de Clarissa tirou a caixa de peças de xadrez da mão de Alex e começou a postar as peças no tabuleiro. As brancas para Alex, as pretas para ele próprio.

– Sei que você prefere jogar com as pretas, Alex.

– O que significa isso? O que você fez com Estela?

– Você não me considera um monstro, um corruptor? Eis sua única oportunidade de provar para mim que eu pratiquei ou pratico o que você chama de “mal”. Não vejo desafio mais interessante do que esse. Embora, infelizmente, você vá fracassar. Eu já venci.

– Eu odeio você.

– Não odeia. Mesmo que odiasse, logo deixaria de odiar. Sou tudo que você tem.

Alex moveu o peão de sua dama para a quarta casa da coluna da dama. O pai de Clarissa respondeu o movimento movendo o cavalo do rei para a terceira casa na coluna do bispo. Acendeu um charuto.

– Diga-me, Alex… Quantas vezes por dia você tem pensado em “jogar com as pretas”? – Viu então o peão do bispo da dama branca ir para a quarta casa desta coluna.

– Muitas. Mas sempre chego a conclusão de que é preferível ter, a cada ocasião, a liberdade de escolher as peças com que se pretende jogar. – O peão do rei do pai de Clarissa ocupou então a quarta casa da coluna do rei negro. Moveu então, certamente de modo apressado o peão da dama para a quinta casa desta coluna, ao que o pai de Clarissa responde antes com um sorriso do que com um movimento. Deu mais uma tragada em seu charuto.

– Você mesmo não acredita no que está dizendo, Alex, e sabe que não acredita. Tem, mais do que nunca, dois caminhos: pode envenenar aquela que pode ser o amor de sua vida com os valores que você pensa que tem e segundo os quais você pensa que age. Pode, no entanto, fazer dela sua porta para a verdadeira liberdade. Sua e dela própria. – Bispo do rei na quarta casa do bispo da dama negra e uma nuvem de fumaça dissipando-se lentamente em torno do pai de Clarissa.

– E por que justamente minha ideia do que é a liberdade é que está errada? Em minha opinião, você corrompe, destrói e suja tudo aquilo em que toca, e sabe que o faz. – O bispo da dama das brancas vai à quinta casa da coluna do cavalo do rei. O cavalo negro está pregado pelo bispo, não pode sair dali à custa da dama. Mas é justamente a peça que o pai de Clarissa move, entregando a dama ao próximo movimento do bispo. Move seu cavalo negro para a quinta casa da coluna do rei. E assiste a captura precipitada da própria dama pelo bispo branco.

– Sabe como eu meço o valor de minhas ideias quando lido com você, Alex? Pelo sucesso de minhas ações. – O bispo negro ataca o peão do bispo do rei branco. Protegido pelo cavalo. Xeque-mate. – E é uma maneira bastante errada de pensar. Mas seria saudável para essa sua alma ingênua sair dessa fantástica jornada de busca por merecimento em que você está metido há tanto tempo. Salvei Estela dessa fantasia, como você vê, mas sobretudo porque ela havia se tornado um enfado para mim.

Alex olhava o tabuleiro com um misto de tristeza e ódio. Reproduzia, sem saber, o mesmo sentimento que Estela tinha por Clarissa cada vez que essa vencia sem saber as pequenas batalhas diárias pelo coração de seu pai. Tinha vontade de esmurrar a cara do pai de Clarissa, abrir sua garganta com uma faca, descarregar uma arma em seu peito. Não, não: se o matasse, a derrota seria perpétua. Tinha vontade de machucar, torturar, levar o pai de Clarissa à uma agonia na qual ele pedisse perdão por tudo o que havia feito. Foi desperto de seu delírio de ódio pela risada do pai de Clarissa.

– A vida de Estela é sua agora, Alex. – Disse o pai de Clarissa levantando-se. – Mas principalmente, sua vida é sua. E não minta a si mesmo fingindo que o fato de ter todo o tempo do mundo o liberta da própria liberdade: esperar já é decidir, você sabe. Nada seria capaz de silenciar o mal-estar de que somos feitos.

O pai de Clarissa deixou, então, Alex sozinho sentado ao tabuleiro. Ao lado, a dama negra e um mero peão branco, um simples peão. Sentada ao balcão, com um cigarro entre os dedos, uma xícara de café e um livro aberto: lá estava Estela. Estela e seus olhos, infinita e eternamente tristes. Tristes como sempre pareceram. Tristes como ela sabia que devia parecer para poder merecer amor e, assim, ser alguém. Tristes como ela acabava de redescobrir que devia parecer. Parecendo tristes como mil vezes pareceriam se ela tivesse mil chances…

wraith girl

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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