Excertos do Subsolo – Klam*

Era dia de São Valentim quando, por acaso, o pai de Clarissa encontrou as cartas da filha guardadas em uma caixa esquecida em um fundo de porão. Sentou-se e, por mais de uma hora, leu mais de uma dezena de cartas da filha. Datavam dos primeiros dias em que se conheceram, o que já fazia então muito tempo. E a cada nova carta lida novamente, mais o pai de Clarissa percebia o quanto, sem que ele tivesse percebido, sua filha havia mudado.

abbiecornishQuando Clarissa conheceu seu pai, tinha menos de 15 anos e um problema sério de amnésia. Assim, Clarissa não tinha exatamente uma identidade, mas no máximo um temperamento e uma difusa orientação de como devia se comportar no mundo. Sua doçura e ingenuidade a tornavam algo próximo de uma personagem arquetípica saída diretamente de um conto de fadas. Incapaz de mentir, incapaz de odiar, Clarissa sempre agia segundo um forte senso de dever e se encantava facilmente com as pequenas belezas da vida. Como ninguém sabia de onde ela tinha vindo ou com quem havia aprendido a ser assim, atribuíam tal doçura e ingenuidade à sua alma pura, seu bom caráter, sua luminosa essência.

Curiosamente, o drama da vida de Clarissa nesses dias não era muito diferente do drama da vida de cada um de nós. Afinal, somos todos herdeiros de um vasto manancial de crenças, valores e gestos dos quais nos apropriaremos, sem perceber, de um pequeno repertório. Assim, se rimos muito alto em público, acreditamos em justiça cósmica ou se costumamos distribuir esmolas, tudo isso aponta diretamente para uma época de sonâmbula formação da personalidade. Nesse sentido, não estamos melhores que Clarissa, que padecia de amnésia: não sabemos rastrear muito bem quando ou onde nos apropriamos daqueles traços que nos definem. E se Clarissa era doce, nesse momento era impossível detectar se o era porque era sua “essência” ou se esse repertório de gestos e essa visão foi assumido por puro instinto de sobrevivência. Afinal, para alguém sem memória, a sociedade é perigosa como uma selva.

A experiência de passar muito tempo longe de uma pessoa pode causar uma estarrecedoraAbbie_Cornish tomada de consciência: aquela pessoa que conhecemos não existe mais. Seja em fotos, cartas ou simplesmente na memória, aqueles que conhecemos no passado permanecerão lá, habitando sonhos e lembranças, em um mundo desaparecido para sempre, substituídos por variações distorcidas daquelas pessoas que esperávamos reencontrar. O choque dessa tomada de consciência será sempre tão forte quanto for importante aquilo que se perdeu e deu lugar à outra coisa. A experiência do pai de Clarissa, contudo, foi oposta a essa: passou tanto tempo ao lado de Clarissa que não percebeu que, traço a traço, ela havia se transformado lentamente em outra pessoa.

Ler as cartas da filha para ele fez com que, ao final da leitura, o pai de Clarissa constatasse melancolicamente: a menina que ele havia amado tanto não existia mais. O pai de Clarissa percebeu, não sem tristeza, que o amor que ele ainda investia sobre a mulher que a filha havia se tornado se endereçava na verdade àquela menina que ela um dia fora, e que estava soterrada e esquecida sob as diversas camadas de vivências que ajudaram Clarissa a se tornar uma pessoa de verdade. Com um sorriso amargo e balançando negativamente a cabeça, com as cartas ainda em mãos, o pai de Clarissa constatava: a filha que ele amara talvez tenha existido apenas em sua fantasia.

somersaultEnquanto pensava nisso, ouvia Clarissa chegar em casa acompanhada de alguém. Falava alto e ria de uma forma que, percebia agora seu pai, seria impensável àquela menina que ele conhecera. Porém, como a história de Clarissa começa com sua condição amnésica, é preciso notar que todos os traços assumidos pela menina naqueles dias eram sim traços provisórios como os gestos desajeitados de uma criança que aprende a andar. Fosse qual fosse a “verdadeira natureza” de Clarissa, essa se revelava com o tempo. Ouvindo Clarissa ligar o rádio e cantar junto com a música, seu pai percebia: havia amado, durante todo esse tempo, uma nuvem de gestos provisórios e apavorados. Uma nuvem que se dissipou com o tempo. Era pior do que amar alguém que não existia mais: com as cartas de Clarissa na mão e a voz da filha vindo da sala junto com uma música bastante ruim, o pai de Clarissa percebeu: amou sim, por muito tempo, alguém que nunca existiu – ou que quase existiu. Amou uma miragem.

Guardou as cartas na caixa e, com o mesmo meio-sorriso amargo e resignado, pegou o pacote do presente que havia comprado para a filha. Subiu as escadas e a encontrou sentada à mesa da sala de estar com sua amiga Ariadne. Tomavam um drinque à base de vodca e o sol as iluminava através das janelas. Clarissa estava – como seu pai sempre achou – linda. Cumprimentou ambas e entregou o presente para a filha. Ela agradeceu e quando abriu foi inevitável para seu pai perceber o misto de ternura e compaixão de Clarissa que, evidentemente, não havia considerado aquele o presente mais adequado: um delicado vestido, parecidíssimo com os que ela usava quando tinha catorze anos e nenhuma noção de quem era ou do que gostava, mas apenas do que devia fazer para ser razoável e aceitável entre seus pares. Agradeceu o pai com um beijo e um abraço. Combinaram de jantar juntos. Depois Clarissa e Ariadne iriam à uma boate com alguns amigos.

Não costumo pensar em Clarissa dessa forma. Assim, não sei bem onde vai e o que vai fazer seu pai quando se despede das jovens na sala de estar. Vejo-o fumando sucessivos cigarros enquanto caminha lentamente em um parque, observando os transeuntes. Nessa tarde seu coração será assaltado por uma ligeira sensação de arrependimento. A rigor, o pai de Clarissa não acredita – e ensinou isso à filha – que o arrependimento deva ser cultivado, na medida em que tudo o que foi vivido foi necessário para que tenhamos nos tornado quem somos no presente. “Quem se arrepende”, ele diz, “não suporta a si mesmo”. Contudo, nessa tarde ele não consegue evitar a pequena e risonha decepção que sente com relação à si mesmo por ter se deixado se enganar por tanto tempo. Pela noite, depois do jantar, se despediu de Clarissa e Ariadne e guardou em uma gaveta da filha o vestido que ela provavelmente nunca usaria, e que havia esquecido na cadeira em que estava onde o recebeu, pela tarde, na sala de estar.

*Klam, em tcheco, significa miragem.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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4 respostas para Excertos do Subsolo – Klam*

  1. Gabriel D. disse:

    Excelente. Descrições psicológicas bastante sofisticadas e cheias de elegância, como não-raramente vejo nos teus textos. O tema da amnésia me fez pensar na possibilidade de transpor este mesmo tema para a filosofia, algo que, noutros termos, já foi feito. Suspeito que o tratamento filosófico da amnésia seja um tratamento hermenêutico, e que dele poderá surgir uma autocompreensão parecida com a do pai de Clarissa.

    Parabéns! Estou voltando a ler teus textos.

    • Vítor Costa disse:

      A memória como componente da identidade pessoal remonta à Locke. Mas Clarissa é mais antiga que minha relação com a filosofia, e minha inspiração para ela está vinculada com outras espiritualidades.

      Obrigado pelo carinhoso prestígio. :)

  2. quemsera disse:

    Engano? Não penso que tenha sido engano da parte dele… quer voluntarista, quer fenomenológica, eu interpreto isso como “ele amou do jeito que amou no momento em que amou’, e assim os objetos se constituíram. Não que isso evite qualquer malemolência né. Dito isso, bom ver a Clarissa por essa bandas novamente.

    Muito eloquente, como sempre. E se, pra alguém sem memória a sociedade é uma selva, o que será pra alguém com memória? Uma selva com monstros? Vai que seja né…

    No mais, parabéns e isso aí, sigamos escrevendo.
    Termino te citando:
    “Afinal, somos todos herdeiros de um vasto manancial de crenças, valores e gestos dos quais nos apropriaremos, sem perceber, de um pequeno repertório.”

    Abraço.

    • Vítor Costa disse:

      Talvez filosoficamente seja possível interpretar dessa forma. O que não protege o pai de Clarissa de um juízo errado, nem impede que o objeto amado tenha sido sempre uma fantasia. Ainda bem que é ficção e não preciso resolver isso em termos de teoria. :)

      Bom te ver de volta por aqui. Ainda estou em débito e te devo uma visita mais demorada nas tuas paragens também.

      Abraço!

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