Excertos do subsolo – Sobre universais e prateleiras

Sentada à sombra de um guarda-sol na areia de uma praia qualquer, Clarissa ouvia mais do que falava enquanto Ariadne comentava sobre a beleza ou feiura dos corpos masculinos. Para tentar entrar entrar no espírito da brincadeira, teceu um comentário sobre um rapaz aleatório, um pouco magro e alto demais e um tanto desajeitado. Ariadne imediatamente retorquiu:

– Aquele menino? Certamente você é a única a olhar para ele nessa praia inteira.

Clarissa não saberia explicar, mas aquela frase encheu seu peito de uma estranha felicidade. Continuou olhando para o rapaz e desejou saber se existiam outros “como ele”. Esperava que não. Esperava que ele fosse, de fato, especial e único como já passava, discretamente, a se-lo em sua fantasia. Só interrompeu tal fantasia quanto refletiu e percebeu que estava fantasiando. Clarissa já sabia que era desse misto de fantasia e embriaguez, que era desse descuido que nascia aquilo que todos chamavam de amor.

O que Clarissa não nota é que esse desejo por um objeto único e especial já se manifestava em sua mais tenra infância. Como ela não teve lembranças da própria infância durante boa parte de sua juventude, não se lembrava do episódio em que, entrando com seu pai em uma loja de brinquedos, viu uma prateleira com dezenas de bonecas iguais àquela tão especial e única – que batizou de Melody – que seu pai lhe dera semanas antes. Na ocasião, Clarissa gritou em pânico diante da prateleira cheia de exemplares idênticos à sua amada boneca. Teve de ser levada para fora da loja nos braços por seu pai. Chegando em casa, a primeira coisa que Clarissa fez foi, chorando, jogar sua boneca no lixo depois de olhar para ela uma última vez, por vários minutos, em lágrimas e franca mágoa. Seu pai, em silêncio, observava e compreendia exatamente o que estava acontecendo. O que ele não previu foi que a partir daquele dia Clarissa carregaria para sempre aquele semblante melancólico e distante, de alguém que passa a maior parte do tempo procurando ou esperando algo especial e único, que jamais chegará.

Ora, acaso alguém vive de modo diferente de Clarissa? Não é a tragédia humana esperar e querer sempre o que não está presente? Aliás, ao invés de trágico, não será justamente esse aspecto do nosso eterno desejar uma das coisas mais triviais sobre a condição humana? Evidentemente que sim. Mas Clarissa, desde muito cedo, mostrou que tinha dificuldades em se deixar enganar.

(A capacidade de enganar a si mesmo é a mesma capacidade de crer e, assim, dela depende nossa capacidade de amar. Se Clarissa fracassava no amor era sobretudo porque sempre percebia muito rápido suas emoções, sem se deixar sequestrar por elas. Por não conseguir crer, sentia tudo pela metade, inclusive o amor.)

Pouco antes do colapso mental de Clarissa, a menina se viu dominava por um asco que se estendeu sistematicamente à todos os universais. Começou não conseguindo mais ir ao supermercado: tinha pânico das prateleiras, da produção em massa. Não tardou para o pânico se estender às palavras: desejava poder criar suas próprias palavras. Não poderia dividi-las com ninguém, porém, e sentia que dessa forma tal linguagem era impossível. Montserrat, seu psicanalista, supôs que o o colapso mental de Clarissa tinha sido disparado quando Clarissa notou que as cores, aromas, texturas e tudo o que percebia eram, também, universais. Clarissa teria percebido que tudo era público, nada era seu. Teria então se sentido como se aquele mundo fosse obra de um demiurgo fordista e preguiçoso. Montserrat supunha que a mente de Clarissa, em choque, teria fugido para as próprias trevas interiores quando, tomada de asco de toda a matéria da vida consciente, percebeu que não existia absolutamente nada singular e especial no universo.

Muitos anos se passaram desde então e hoje Clarissa não tem mais nenhum asco patológico e nem sequer mais do que meras lembranças fugidias daquele período. Contudo, ela mesma não parece notar a dificuldade que sente em diferenciar as pessoas, coisas e lugares, seja na percepção ou na memória. Ariadne elogia o peito desse rapaz, o traseiro daquele outro, o modo de caminhar de um terceiro, e Clarissa tenta acompanhar as indicações e descrições da amiga, mas isso lhe cansa a mente. Como não cansaria? Diante do tipo de diferença que ela espera e que lhe foi proibida desde a infância, aquelas que Ariadne elenca distraidamente são pequenas demais, superficiais demais, parecidas demais. Para tentar interromper o fluxo de atenção que Ariadne exige, Clarissa pede licença à amiga e vai até um quiosque buscar uma bebida.

De longe, Clarissa olha para a praia. Há anos seu semblante melancólico povoa minha imaginação. Hoje, finalmente entrevejo parte do que a entristece de forma tão constante. Invisível, a vejo de perto e aprecio o vento que faz balançarem seus cabelos enquanto seus olhos perscrutam o presente a procura do ausente. Entendo Clarissa e sei como ela suporta viver: já que não se pode trocar de alma nem de mundo, é preciso ceder e aceitar a supremacia do comum sobre o especial, do inessencial sobre o essencial. Talvez essa seja a sina de Clarissa, nascida para ser única e educada para ser especial. Talvez seja um capricho da menina-do-papai insistir em querer um mundo que não pode existir. Contudo, ainda consigo ver nos olhos tristes dessa menina imaginada o eco do choro da criança que muito cedo percebia que este mundo é o mundo do comum e da cópia, da cópia e do vulgar, da imitação, do inessencial, do contingente. Daquilo que é, no fundo, sem razão de ser.

dolls

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s