Sobre música e desejo

A fenomenologia ensina que nossa atenção faz “recortes”. Destaca certas figuras de um fundo indiferenciado, por exemplo. Não terá essa afirmação um valor musicológico? Afinal, há na música erudita, sobretudo em seu período clássico, toda uma agenda de elementos mobilizados como um meio para que uma linha melódica, protagonista, se destaque desse fundo indiferenciado.

É o que parece acontecer na vida: a vida não pode obedecer o que Milan Kundera, em seu A arte do romance e em homenagem à Leos Janacek, chama de “Imperativo Janacekiano”, onde “só o que é essencial tem o direito de existir”. Para Kundera, Janacek supera o paradigma da música que se dobra sobre notas inúteis, que preenchem espaços mas “nada nos dizem”. Para nossa tristeza – e provavelmente para a tristeza de Arthur Schopenhauer, que pode ter feito o que foi o maior elogio filosófico da música – o plano da mera existência não é preenchido senão por uma densa massa de elementos coadjuvantes, contingentes, inessenciais, mera combinação de coisas genéricas que fazem o papel de fundo daquilo que recortamos quando narramos a vida. Acho que Schopenhauer entende a música como uma espécie de “atalho”, que nos faz sentir de modo imediato aquilo para o que a vida não é senão um meio imperfeito, isso é, o acesso à certos sentimentos. E Schopenhauer ainda vai além: ao nos permitir o acesso a tais afetos pela via estética, estamos em uma experiência quase mística, descolados da dimensão “material”, “física”, “carnal”, onde o que nos define é a torturante experiência do desejo – esse demônio que turva nossa percepção e nos revela que o objeto, quando obtido (ou seja, o desejo quando realizado), não era aquele que desejamos: por sorte ou azar, nossa ilusão se dissolve quando o desejo se realiza e percebemos que era o desejo o responsável pelos predicados que tornavam o objeto aparentemente desejável.

Qual seria a verdadeira o modo mais apropriado de vivenciar o desejo então, senão como o meio de experimentar certos afetos, sentimentos, emoções?

Bem, se o desejo é essa estrutura suicida, autodestrutiva e condenada ao fracasso, na música temos o meio de acesso privilegiado àquilo que supomos querer. Os sentimentos sempre foram o fim, os objetos sempre foram meios. A música nos dá diretamente os sentimentos que buscamos de modo confuso e desastrado nas aventuras da mera existência.

Janáček

PS: se a especulação de Kundera tem alguma verdade, bem, Janacek – na esteira de Beethoven – faz exatamente o que a música deve fazer: ir direto ao essencial, sem rodeios. Realiza a música perfeita, que nos dá o que realmente queremos mesmo que, de imediato, não saibamos.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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