A Tempestade, Parte I – Areias Negras

Cada época e cada lugar têm a metafísica que merece. Eu faço parte de um cenário onde já nenhuma é possível.

Não sei há quantos dias caminhamos nesse deserto. Também não sei se são dias, ou se são anos e perdemos a noção do tempo. Não é um deserto normal, pois aqui a noite não dá nunca lugar ao dia. Aqui, a noite é eterna e o frio é insuportável. Já não lembramos se a areia é negra como a vemos sob esse céu – avermelhado por um aparente eclipse que nunca se desfaz – ou se ela tinha outras cores. Já não tenho certeza de que existem outras cores.
Caminho com alguns companheiros que sobraram. Muitos morreram de fome e sede. Outros foram devorados por feras cuja selvageria os fez desaparecerem nos instantes em que conseguimos arranjar forças para correr até não conseguirmos mais ouvir os gritos dos companheiros apanhados desprevenidos. Alguns foram canibalizados por aqueles dentre nós que caíram no desespero e não hesitaram em devorar um companheiro. Fugimos desses como fugimos das feras e penso que as areias negras os consumiram. Prefiro que tenha sido assim. Às vezes, porém, tenho a impressão de que esses companheiros não são senão frutos de minha imaginação, e que terminarei vagando sozinho rumo ao horizonte que nunca chega e que não parece levar à lugar nenhum.
Ainda lembro de como vim parar aqui, embora não tenha certeza de quem eu mesmo era antes do deserto. As memórias se confundem em um turbilhão que prefiro evitar que reapareça e por isso mesmo tenho evitado tentar lembrar – embora esses raros momentos de reflexão sejam, por vezes, os únicos em que me sinto vivo ou, ao menos, real. Parece mesmo que isso é parte do teste – se é que é possível chamar de teste algo que não parece ter solução, saída ou fim – e que recordar quem eu fui, ou talvez quem eu deveria ter sido, é precisamente aquilo que eu deveria fazer para poder sair daqui. Mas tenho medo do que encontraria caso minha reflexão topasse com uma memória verdadeira. Sinto que ficaria tão horrorizado que preferia deixar de existir e que, nesse momento, um gênio maligno realizaria meu único desejo.
Lembro que posso ter sido um alfaiate que violentava a própria mulher, mas também lembro de ser um oficial da lei corrupto e perverso que não raro causou mal à inocentes. Também lembro de falar para multidões, em um púlpito, e que minha fala – cujo conteúdo me escapa – era acompanhada pela sensação de mentira. Por incrível que pareça, as imagens que compõem tais recordações são tão desagradáveis que prefiro prestar atenção na dor de meus pés que já não cicatrizam as queimaduras ocasionadas pelas areias negras e ferventes (e que não amenizam o frio do violentíssimo vento que nunca cessa). A dor física ameniza a dor da alma, embora eu já desconfie que não possuo mais um corpo – ou, afinal, já teria morrido de sede e inanição como muitos companheiros.
Às vezes, desmaio. Desmaio e sonho. E os sonhos parecem durar tanto tempo que, no início, era lamentável acordar. Agora, quando sonho já sei que sonho. Mas não me é dada a dádiva que para alguns transforma o sonho em um verdadeiro parque de diversões, onde é possível se fazer o que se quiser. O tecido desse aparente inferno onde estou jogado faz com que os pesadelos já tenham se tornado também um tipo de sofrimento para o qual a marcha do Sísifo que é a própria pedra em um deserto infinito seja preferível ao caos das memórias aleatórias que acentuam a dolorosa condição de viver como um condenado. O sonho se tornou uma opção tão dolorosa que acabei preferindo nunca mais dormir. E que isso seja possível só acentua a impressão de que, há muito tempo, já não vivo como um ser humano.
Serei o eu-onírico de um paciente terminal? Ou será esse deserto um elemento da geografia de um purgatório? Ou do próprio inferno? Deverei alimentar esperanças de que é possível sair daqui? Ou, justamente, a esperança só faria acentuar o sofrimento em uma condição permanente e inescapável. Não tenho sequer o direito de procurar sinais em um lugar homogêneo, onde o sol negro como o chão e o céu vermelho como o sangue se estendem de forma homogênea para todas as direções no horizonte…
Wraith The Oblivion

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para A Tempestade, Parte I – Areias Negras

  1. fabio santos disse:

    Belíssimo texto caro colega!

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