A Tempestade, Parte II – Transcendência (ou: A Breve Temporada de Clarissa no Subsolo)

Nunca havia pensado em Clarissa morta. Ocorre-me que depois de todos esses anos, talvez apenas assim seja possível compreender sua história. Talvez apenas o período em que Clarissa estava morta explique o que ela se tornou depois de retornar.

Clarissa na Tempestade

Sempre tentei ser sutil e disfarçar ao máximo o fato de que Clarissa não é exatamente um ser humano. Prefiro não dizer o que penso que ela seja, mas para orientar o leitor, pense nela como sendo algo de uma natureza parecida com os anjos de Wim Wenders, cujo único poder sobrenatural seja o de trazer alento àqueles que sofrem. Contudo, Clarissa passeia em um corpo físico e material no mundo humano. A história que vou contar agora se passa em um tempo em que Clarissa desfrutou precisamente da condição de ser apenas isso: um espírito, uma sombra, uma alma errante em uma dimensão sombria, semelhante mas ao mesmo tempo diferente deste mundo, seu espelho negro.

Os habitantes dessa região sem vida onde Clarissa passou uma curta temporada são precisamente os miasmas de autoconsciência que foram despidos de suas vestes carnais. Tais espólios sombrios de almas outrora vivas vagam entre nós que estamos no mundo vivo, mas uma vez condenados a subsistirem como simulacros conscientes de lembranças e sentimentos, já não podem senão ver precisamente o reflexo sombrio do mundo onde estamos. Assim, vejo Clarissa sentada em frente ao portão pichado de uma loja, junto com outras aparições, invisíveis aos olhos de um grupo de jovens que, em carne e osso, não podem ver que estão acompanhados por espectros invisíveis muito semelhantes a eles mesmos. Observando os vivos se embriagarem com vinho barato e esvaziarem maços de cigarro, os mortos se regozijam em sua desesperada ânsia de provar ao menos migalhas dos prazeres daqueles que permanecem aptos a, se preferirem, desperdiçar a própria saúde, o próprio tempo e a própria vida. O que sugere fortemente que nossa diferença para com esses espíritos invisíveis é mais sutil do que parece: se o que mantém uma alma presa ao plano da existência é seu leque de desejos e anseios não-realizados, a morte e a vida são apenas diferentes tons no espectro da experiência possível ao espírito humano. Mas, paremos de especular, voltemos a Clarissa.

Clarissa morreu em um acidente que seu pai não conseguiu evitar. Voltou dez anos depois, em sua nova forma – a forma que seu pai, por sua própria natureza, menos desejava que ela assumisse. A breve história que conto se passa nesse ínterim.

Clarissa tentava apanhar, inutilmente, um cigarro ainda aceso e fumado quase até o final por um dos jovens que ali estavam. Evidentemente, seus dedos etéreos não entravam em contato com o objeto desejado. Distraída, ouviu um amigo invisível lhe perguntar algo que, caso Clarissa ainda tivesse um coração, faria este acelerar e sentir uma falta de ar.

“Clarissa… Aquele ali não é seu pai?”

Era.

pai de clarissaDepois de meses de espera, Clarissa finalmente via seu pai novamente. Ele havia encontrado a filha no submundo. Por mais doce e pura que fosse a alma de Clarissa, a falta que sentia de seu pai não permitiu que sua alma seguisse o caminho que naturalmente seguem almas como a dela. Vê-lo na outra esquina, com um cigarro aceso e todo vestido de preto a fez correr para seus braços. Mesmo morta, Clarissa ainda conseguia chorar e chorou copiosamente enquanto esteve suspensa no abraço mais desejado. “Está tudo bem agora”, ele dizia. Ela não conseguia falar. Quando desceu dos braços do pai, este lhe entregou o cigarro – que não era, obviamente, um cigarro – e, acariciando seu rosto, disse as palavras que Clarissa mais desejava ouvir.

“Eu vim buscar você.”

Passeando pelo submundo com sua filha – e fazendo com que os outros mortos se comportassem como animais espectrais, sentindo sua presença nefasta e se afastando temerosos – o pai de Clarissa explicou o que seria necessário para que Clarissa pudesse alcançar a transcendência. Motivo de especulação no mundo dos mortos, ninguém sabia exatamente o que acontecia com as almas que transcendiam. Por medo do desaparecimento total, as aparições preferiam permanecer imersas na atmosfera infecta de suas existências desesperadas à fundir-se em um todo divino e místico. A fusão com a plenitude e o limbo do desaparecimento total pareciam duas vias idênticas de encontro com o nada e entre o nada absoluto e aquela subsistência miserável, a consciência individual parece preferir permanecer ancorada no existir, mesmo que seja acorrentada pela mais profunda angústia – o que faz com que eu insista que os vivos e os mortos sejam parentes mais próximos do que suporíamos. Ao contar para sua filha o segredo do que havia depois da transcendência, o pai de Clarissa oferecia para a menina uma motivação concreta para uma jornada de purificação e enfrentamento das sombras da própria alma.

“Veja, meu amor… Boa parte do que você precisa já está aqui. Sei que o que mantém você acorrentada nesse submundo é o desejo de estar comigo novamente. Mas você não pode permanecer nesse plano imundo e asqueroso. Infelizmente, quando você sair daqui, irá para o lugar que mais desprezo e no qual não posso entrar. Mesmo assim, é mais fácil tirar você de lá do que protegê-la nesse subsolo infecto. E eu vou fazer o que for necessário para buscar você. E então, teremos novamente todo o tempo do mundo para ficar juntos…”

De início, Clarissa resistiu a ideia de que devia deixar de querer estar ali, já que tinha quase tudo o que queria. Mesmo os cigarros e o vinho que desejava seu pai podia oferecer e, por algumas semanas, ela viveu uma espécie de paraíso pessoal em pleno purgatório, pois a presença de seu pai não tingia de cores o mundo cinzento, mas fazia com que a atmosfera sombria de seu novo mundo possuísse uma beleza singular. Com o tempo, porém, Clarissa aceitou que aquele simulacro sombrio de uma existência genuína precisava ser superado. Escutou atentamente seu pai e despiu-se de todos os desejos mundanos que ainda projetavam sombra em sua alma. Perto do final do processo, porém, seu pai disse que o ressurgimento dela no lugar para o qual ela iria chamaria atenção de todos os seus habitantes, pois aconteceria algo que é muito raro: ela seria uma das raras almas que chegariam lá sem a lembrança de quem ela própria era. E essa condição permaneceria até que ele pudesse encontrá-la.

Naqueles dias, o a jornada para a transcendência empreendida por Clarissa simplesmente estacionou. Não lhe interessava nem um pouco ir para qualquer lugar onde não apenas não teria a companhia de seu pai, mas não poderia sequer ter as memórias daquele que ela mesma mais amava. De qualquer modo, a esperança e a confiança de que seu pai a encontraria e a faria ser novamente quem ela desejava ser a fizeram enfrentar o desafio. Em uma tarde cinzenta como inevitavelmente são cinzentas as tardes no submundo, deitada no colo de seu pai e tendo os cabelos afagados por ele, Clarissa fechou os olhos. Estava mais corada e vestia um casaco vermelho (sim, os mortos vêem a si mesmos e se comportam como se ainda estivessem vivos). Enquanto lhe dava orientações e sussurrava palavras de alento, o pai de Clarissa sentiu a filha desaparecer de seu colo e do toque de seus dedos. Clarissa transcendera. Iniciava-se então o tempo da espera. Era preciso mover sabiamente as peças de seu xadrez e negociar com os habitantes mais desajustados daquele plano odioso onde Clarissa reapareceria. Felizmente, para ele próprio, ele dispunha de algumas cartas na manga e se não podia invadir reinos proibidos com passos imperiais, seria sinuoso e discreto. O pai de Clarissa sempre conseguia o que queria.

Clarissa e seu pai

Clarissa ressurgiu dez anos depois e a história de seu amor e de seu reencontro com seu pai começa nesse ponto. Não nos ocuparemos dela agora. Resta dizer que não raro Clarissa, em sua nova condição, vez por outra visita o submundo com seu pai. A maior parte dos habitantes do mundo inferior não reconhece a natureza desses estranhos visitantes e não sabem que existe uma rara, raríssima saída desejável para sua nefasta condição. Aqueles que a conheceram ficam felizes – na medida em que seus resquícios de confusa e atormentada consciência conseguem sentir alguma alegria genuína – quando esses dois estranhos personagens, trazendo vinho e cigarros, decidem passear no mundo cinzento onde os mortos habitam.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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