Menos maniqueísmo e mais empatia

Talvez tudo o que eu vá dizer agora diga mais respeito à mim mesmo – que não sei o que sentir nem depois de ser assaltado e agredido – do que ao caso do qual vou falar. Mas, vamos “reflexionar” nesse lindo domingo de sol e melancolia.

Dunga, o técnico da seleção brasileira e ex-jogador, deu uma declaração muito infeliz e completamente racista dias atrás. Daquelas que permitem que se entreveja o quanto um sujeito pode simular um comportamento sem absolutamente o compreender. O racismo “cordial” que impregnou as palavras do ex-jogador mostra o quanto ele sabe que deve evitar certas palavras e ações e mostra também o quanto ele não tem nenhuma empatia ou compreensão da questão, embora saiba que será vaiado se cometer algum deslize.

Mas, o comportamento de Dunga é infelizmente a regra em nosso país. Essa falta de boa-vontade para tentativa de diálogo e compreensão do outro define o tom maniqueísta da opinião pública. Eu não sei nada sobre o que faz o Dunga fora de campo, e é aí que quero chegar: a rapidez com a qual se conclui sobre sua eventual “maldade” diz mais sobre a forma que estamos pensando do que, talvez, sobre os alvos de nossos juízos.

Dunga muito provavelmente pode praticar uma cretinice por semana e posso estar sendo pueril aqui. Mas se não for o caso, essa pressa – e essa espécie de euforia raivosa – em colocar um indivíduo numa “lista de inimigos” já mostra qual é a possibilidade de redenção do inimigo numa perspectiva maniqueísta como a nossa: nenhuma. Ao “inimigo”, ao “vilão” parece possível apenas a admissão da insustentável culpa de ser quem é, seguida da prática religiosa de uma tentativa permanente dessa expiação impossível do mal cometido.

Já não falo aqui apenas sobre o Dunga. O episódio de sua declaração foi, pra mim, o estopim de uma tomada de consciência nada agradável: enquanto aqueles que tem espírito crítico não escaparem do pântano do dogmatismo e do maniqueísmo, serão apenas o reverso da moeda de um senso comum perverso. Enquanto o humanismo comemorar a morte de seus adversários e não tiver menos pressa em pregá-los no calvário do desprezo, esse humanismo não será nada além do que o reverso do seu “inimigo”.

Dungão

Repito: eu não sei quem é o Dunga. Apenas fiquei sabendo o que ele fez. Admito que posso estar sendo ingênuo. Mas, essa pressa do julgamento e essa euforia da condenação parecem práticas preguiçosas e narcísicas, empreendidas por grupos de indivíduos que, ávidos por reconhecimento mútuo, parecem não ver problema em condenar um bode expiatório qualquer apenas para confirmarem reciprocamente sua própria “bondade”.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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2 respostas para Menos maniqueísmo e mais empatia

  1. quemsera disse:

    Vitor,
    Nesse pequeno texto você levanta um problema extremamente importante, que pode ser visto de vários modos. Eu concordo plenamente com o que tu propõe, e inclusive do jeito que está posto quem não concorda já estaria sendo insensato. Contudo, eu discordo em alguns pontos.

    Em primeiro lugar, eu penso que ele não é tão ingênuo assim como transparece no texto. Basta ver as declarações dele sobre ditadura – não apenas a brasileira, segundo a qual ele fala que por ele não ter sentido na pele, não pode opinar sobre -, e vemos que a coisa é um pouco menos nivelada. Outro ponto é que, salvo erro de generalização de minha parte, no futebol isso é praticamente um imperativo: máfia e aniquilação de pensamento. O exemplo usado nesse caso até pode ter sua força demonstrativa, mas penso que essa pessoa em questão apenas faz parte de um ‘grupo’ em que isso é lei.

    Outro ponto em que discordo é sobre uma suposta falta de empatia. Eu não discordo que isso seja parte do problema, mas.. penso que esse conceito não serve pra explicar adequadamente a existência desse maniqueísmo na opinião mediana. Eu penso que, junto com a falta da empatia, há uma planificação na própria linguagem, o famoso impessoal imperando. No âmbito político, apelar fortemente pro conceito de empatia traz junto o conceito de consciência ou de sentimento. Não que não haja isso, mas o domínio público e político é formado principalmente por linguagem – mesmo que possamos considerar um âmbito ontológico anterior a isso, como o âmbito existencial da compreensão e do existir um com o outro (ser-com), e que apenas por isso há o domínio comum formado pelas opiniões. Me parece que se a abordagem for pela linha mais psicológica (mesmo em um sentido bem geral), não há como escapar do maniqueísmo.

    Ficou um comentário longo, mas é que realmente foi levantado aí um problema fundamental, sobretudo diante dessa horda obscurantista que estamos vendo. Desta feita, apenas pra concluir queria dizer que concordo totalmente com a tua conclusão.

    Sorte pra nós.
    Abraço.

  2. quemsera disse:

    Republicou isso em 'Quem', será?e comentado:
    Texto excelente de meu amigo Vitor.

    Escrevo aqui apenas algumas considerações já mencionadas em comentário a postagem original.

    Nesse pequeno texto é levantado um problema extremamente importante, que pode ser visto de vários modos. Eu concordo plenamente com o que tu propõe, e inclusive do jeito que está posto quem não concorda já estaria sendo insensato. Contudo, eu discordo em alguns pontos.

    Em primeiro lugar, eu penso que ele não é tão ingênuo assim como transparece no texto. Basta ver as declarações dele sobre ditadura – não apenas a brasileira, segundo a qual ele fala que por ele não ter sentido na pele, não pode opinar sobre -, e vemos que a coisa é um pouco menos nivelada. Outro ponto é que, salvo erro de generalização de minha parte, no futebol isso é praticamente um imperativo: máfia e aniquilação de pensamento. O exemplo usado nesse caso até pode ter sua força demonstrativa, mas penso que essa pessoa em questão apenas faz parte de um ‘grupo’ em que isso é lei.

    Outro ponto em que discordo é sobre uma suposta falta de empatia. Eu não discordo que isso seja parte do problema, mas.. penso que esse conceito não serve pra explicar adequadamente a existência desse maniqueísmo na opinião mediana. Eu penso que, junto com a falta da empatia, há uma planificação na própria linguagem, o famoso impessoal imperando. No âmbito político, apelar fortemente pro conceito de empatia traz junto o conceito de consciência ou de sentimento. Não que não haja isso, mas o domínio público e político é formado principalmente por linguagem – mesmo que possamos considerar um âmbito ontológico anterior a isso, como o âmbito existencial da compreensão e do existir um com o outro (ser-com), e que apenas por isso há o domínio comum formado pelas opiniões. Me parece que se a abordagem for pela linha mais psicológica (mesmo em um sentido bem geral), não há como escapar do maniqueísmo.

    Ficou um comentário longo, mas é que realmente foi levantado aí um problema fundamental, sobretudo diante dessa horda obscurantista que estamos vendo. Desta feita, apenas pra concluir queria dizer que concordo totalmente com a tua conclusão.

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