Excertos do Subsolo – Sobre Paloma e Penélope

Paloma e Penélope não se viam há muito tempo até o dia em que se encontraram na emergência de um hospital. Paloma sofria um ataque inédito, fulminante, de uma gastrite que se desenvolvera no último período. Penélope acompanhava Clarissa que se encontrava em observação após um ataque de nervos no qual quase fora atropelada após atravessar uma rua correndo em desatino. Vendo que Clarissa estava aparentemente bem, Penélope se sentou ao lado da amiga e perguntou como esta estava.

– Bem. Acho que é apenas um “ataque de angústia”, você sabe.

Penélope sabia do que Paloma falava, pois “ataque de angústia” era uma expressão cara para ambas as moças anos atrás, em um tempo em que as duas enfrentavam aquelas que eram provavelmente as escolhas mais difíceis de suas vidas. Indagada sobre as razões do mais recente “ataque”, Paloma decidiu responder de forma não muito sucinta, mas suficientemente clara para a amiga.

– Digamos que não consigo mais disfarçar que o fato de que eu saiba exatamente o que quero não me faça uma pessoa privilegiada, senão uma espécie de habitante de outro mundo condenada à viver nesse mundo de incerteza e desamparo.

Para Penélope tal resposta era mais do que suficiente. Paloma sempre fora uma pessoa
excessivamente leve, serena e ao mesmo tempo obstinada. Enquanto Penélope, Clarissa ou a maior parte dos seus amigos padecia da perpétua ansiedade inerente àqueles que sempre visualizam possibilidades melhores – ou ao menos diferentes – nas quais poderiam se jogar e comprometer suas vidas inteiras, Paloma preferia ignorar mesmo a existência dessas possibilidades, certa de que era seu envolvimento que dava o valor àquilo que vivia. A mera contemplação de outras possibilidades era, para Paloma, um vício potencialmente nocivo que, na maior parte das vezes, era causa de desconforto, e não seu efeito. Quer se tratasse de um amor, de um trabalho ou de uma mudança, Paloma encarava a possibilidade escolhida como sendo imbuída de valor pelo próprio ato da escolha. As escolhas de Paloma podiam se justificar em razões objetivas ou em sentimentos, variando ao sabor das diferentes situações. De qualquer modo, Paloma não flertava com o improvável e o charme das outras possibilidades se dissipava diante do poder desagregador da incerteza. Paloma vivia, com leveza, uma vida de cada vez. Vamos à um exemplo.

Anos antes de encontrar casualmente sua amiga Penélope naquela emergência, Paloma
se apaixonou por um rapaz que, meses depois, fora diagnosticado com uma doença terminal. Os médicos disseram que o rapaz não sobreviveria mais do que três meses, o que faria com que não poucas pessoas já passassem a planejar sua futura vida para depois daqueles três meses. O rapaz, contudo, sobrevivera por cinco anos inteiros até que sua saúde se deteriorou e seu frágil corpo pôde enfim descansar do combate contra a enfermidade. Seu grupo de amigos comentava que não poderia ser outra pessoa, senão a própria Paloma, a mais capaz de enfrentar uma situação daquele tipo. Ao invés de se atirar em um frenesi romântico no qual cada dia seria fruído com a melancólica intensidade de um final trágico já anunciado, a tranquilidade de Paloma, diziam, ajudou o rapaz a sobreviver às suas próprias limitações.

Foi nessa época que Penélope conheceu Paloma e que se tornaram amigas. A proximidade de ambas era tanta que, de forma quase natural e espontânea, acabaram se tornando amantes logo depois da morte do namorado de Paloma. O romance não durou mais do que algumas semanas, mas foi suficiente para aproximar ainda mais as duas. Nessa época Penélope se consultava com um psicanalista nada ortodoxo, que atendia pelo turno da noite e que interpretou a amizade de Paloma e Penélope como um raro caso de oposição e complementaridade: enquanto Paloma era toda objetividade e segurança, Penélope era difusa como uma nuvem de incertezas. Mal se decidia a fazer algo e já sentia emergir das profundezas de sua alma uma verdadeira torrente de possibilidades que lhe proibiam de viver a realidade das situações em que estava inserida. Penélope nunca estava exatamente onde estava, pois sua alma estava sempre em muitos lugares ao mesmo tempo. Foi lembrando de como era ansiosa a amiga que Paloma perguntou para a amiga, enquanto sentia suas dores estomacais aliviarem, como afinal ia sua vida.

– Diferentemente de você, minha querida Paloma, eu não tenho a sorte de sentir a angústia toda de uma vez. Você sabe, ela sempre está aqui, como uma nota de contrabaixo, ressoando ao fundo de tudo o que me acontece e tornando menos real cada local onde decido frear meus passos e descansar. Acredite se quiser, mas estive casada nos últimos seis meses!

– Mas que coisa maravilhosa!, exclamou Paloma. – Mas como assim “esteve”? Devo imaginar que você fez o de sempre?

– Sim!, disse Penélope gargalhando. – Sim, sim, sim! Eu fugi! Como sempre, às portas da felicidade, decidi fugir!

Penélope contou que morou por seis meses na casa de um homem mais velho que lhe tratava ao mesmo tempo como pai, amante e mecena. Desde que a conhecera, o sujeito parecia desejar apenas assistir a moça compor suas canções, fazer seus desenhos ou mesmo dançar nua sobre a cama sob o efeito de drogas. Era como um culto: ele oferecia o que ela quisesse, fossem instrumentos musicais, tintas ou drogas. Apenas queria ver Penélope desfilar seu gênio e sua beleza jovem pela casa. Segundo Penélope, o sujeito não era sequer um mau amante. Mas a possibilidade de viver a si mesma em plenitude mas em plena solidão fez com que Penélope, em uma manhã ensolarada, fugisse com as roupas em uma mochila para a casa de uma tia distante.

– Eu já não sei explicar, minha amiga, e nem sei se quero. “Tive tudo o que quis, mas nunca da forma que queria”, como diz um filósofo. É como se houvesse um dispositivo em mim que diante da iminência da realização de algo concreto simplesmente disparasse e, ao disparar, se apoderasse de mim, me obrigando a começar tudo de novo. Ou é isso ou sinto que estou morta. Não sei até quando isso vai ser assim e isso me aflige: não vou ser jovem para sempre. Mas também não penso que terei uma dessas vidas breves e intensas, que resultam em um manancial de histórias a serem contadas. Nada disso. Meu problema é muito mais simples. – Fez uma pausa e desfez, pela primeira vez, seu lindo sorriso. – Meu problema é que talvez eu sempre escolha caminhos sem saída, sempre escolha opções que não podem dar certo. Talvez eu seja minha maior inimiga.

Ambas silenciaram por um instante e antes que Paloma pudesse retomar a palavra, as duas viram o pai de Clarissa adentrar a emergência do hospital. Após cumprimentar as amigas, perguntou sobre Clarissa.

– Acho melhor deixar ela descansar, sr. S. O sr. deve imaginar em que condições a encontrei.

– Posso sim, Penélope. Deixe-me lhe deixar algum dinheiro e lhe fazer um pedido. Cuide dela para mim nos próximos dias, pois além de precisar me ausentar, sei que não sou a melhor companhia para ela nesse momento. Antes de partir, porém, tomem um café comigo, pois há outras coisas sobre as quais gostaria de conversar com vocês.

Paloma recusou gentilmente o café alegando dores estomacais. O pai de Clarissa insistiu
e Paloma sentiu as dores quase cessarem. Paloma ouviu do pai de Clarissa o pedido se estender também à ela, e lhe prometeu que se ajudasse Penélope a cuidar de Clarissa, jamais sentiria novamente aquelas dores. Contrariada, Paloma respondeu que recusava o café e ajudava Clarissa, mas preferia não receber nenhuma ajuda daquele tipo. Dirigiram-se, então, para uma lanchonete do hospital. Lá chegando, receberam advertências sobre como Clarissa iria se comportar nos dias que se seguiriam, sobre o que ela provavelmente diria e sobre o comportamento irregular de sua memória. As moças ouviam atentamente, mas Paloma não desfez sua expressão de contrariedade nem por um instante. O pai de Clarissa pagou o café, deixou uma quantia em dinheiro com Penélope, agradeceu e se foi. Paloma, satisfeita com a permanência da própria dor – que retrocedia graças à ela própria e apenas à ela – disse que detestava o pai de Clarissa. Nem mesmo ele, segundo ela, tinha o direito de tomar decisões tão amplas sobre as vidas de outras pessoas.

– Ah, minha amada Paloma, será que todos nós não faríamos o mesmo se pudéssemos? Digo, veja só: aí está você, enfrentando uma revoada de corvos instalados no seu estômago. Ele é igual à você e sabe o que quer. A diferença é que ele quase não precisa fazer esforço para fazer valer sua vontade.

Paloma escutou atentamente, como sempre fazia, e retorquiu:

– Ele que volte pro lugar dele, que não é aqui. Aqui é lugar de fazer escolhas, errar, e aprender. – Disse Paloma, pedindo um chá. Penélope deu seu delicioso e costumeiro sorriso e complementou o que Paloma disse.

– Concordo, concordo. Nem mesmo que seja para repetir os erros, não é mesmo? Não há erros repetidos que não sejam erros melhores!

Ambas riram e decidiram ir até o leito onde Clarissa era monitorada. Evidentemente, Clarissa estava fisicamente bem. Quando ambas chegaram, Clarissa estava sentada e tomando o lanche oferecido pelo hospital. Sorriu amplamente e disse, com a boca cheia de sanduíche, algo totalmente compatível com aquilo que seu pai havia dito, para Paloma e Penélope, que ela faria:

– Vejam só, não será a tríade sagrada feminina que se reúne nesse quarto? Muito embora me pareça que dentro em breve estarei chamando minha querida Penélope de “mamãe”, hahahahaha!

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Paloma percebeu que, de alguma forma, Clarissa percebia o que ela própria havia notado: Penélope provavelmente cometeria o maior erro de sua vida se envolvendo com o pai de Clarissa. Enquanto Penélope explicava para Clarissa como havia trazido a menina para o hospital, Paloma se permitia supor que não havia acontecido acidente nenhum, que tudo, afinal, corria conforme a vontade perversa do pai de Clarissa. Se não havia como enfrentar o sórdido pai de Clarissa, nada a impediria, porém, de detestá-lo. Clarissa, enquanto tomava seu suco, continuava a dizer suas coisas sem sentido. Sorriu para ambas e declarou:

– Muito me alegra que estejam as duas aqui. Fico muito feliz mesmo. As coisas são, afinal, como papai sempre diz que são: cíclicas. Engana-se quem acha que pode agir diferentemente, pensar diferentemente, ser diferente. Eu queria poder cuidar de vocês como vocês cuidam de mim mas, afinal, que importa o que eu queira? Vamos cometer sempre os mesmos erros, hahahahaha!

Clarissa proferiu muitas outras declarações fatalistas naquela noite, até que as duas amigas recebessem autorização para levá-la embora. E depois de cuidarem de Clarissa por sete dias e sete noites, viram o pai da menina vir buscá-la mais uma vez. Penélope se despediu de Paloma e disse que ajudaria o pai da menina a cuidar da jovem. Paloma sabia, porém, que muito mais do que isso estava em jogo. Curiosamente, quando o trio saiu de sua casa, Paloma sentiu que sua dor estomacal finalmente cessara.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para Excertos do Subsolo – Sobre Paloma e Penélope

  1. mar disse:

    “Não há erros repetidos que não sejam erros melhores!”

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