In Treatment: um elogio do autoconhecimento e um convite à reinvenção de si mesmo

Acabo de assistir o último episódio da última temporada de uma das séries mais charmosas e peculiares que já tive o prazer de assistir. A discreta In Treatment – inspirada em uma série israelense e inspiradora de versões no Brasil e na Argentina – tem uma estrutura extremamente simples: apresentar alguns momentos da semana de um psicólogo em sua atividade de atendimento clínico. Assim, as três temporadas acompanham Gabriel Byrne fazendo o papel do Dr. Paul Weston dedicando cerca de meia-hora de significativa atividade psicanalítica e terapêutica com os mais diversos tipos de pessoas. Seja o clássico caso de uma paciente jovem e bonita apaixonada por seu analista, de um indiano de meia-idade, recém viúvo e potencialmente perigoso por ser incapaz de viver no ocidente com o filho ou de um paciente que o culpa pelos 20 últimos anos dos quais se arrepende, o espectro dos pacientes de Paul Weston e sua interação com eles mostra o quanto a atividade terapêutica e psicanalítica pode ser extenuante e ao mesmo tempo edificante para os pacientes e para o próprio terapeuta.

Paul and Alex

Gabriel Byrne encarnando o psicólogo Paul Weston

Evidentemente, a série provavelmente não seria capaz de se manter – e não teria sido elogiada e premiada – caso se resumisse em uma espécie televisiva de psicodrama. A linha narrativa mais interessante da série é aquela oferecida pela apresentação dos próprios dramas de Paul que, no curso de três temporadas, vivencia o desmoronamento de um casamento de 30 anos, a reavaliação da própria atividade profissional e os primeiros passos da reorganização de sua própria vida. Nesse horizonte, a série mostra o próprio Paul saindo da posição de terapeuta e assumindo a de paciente uma vez por semana onde vemos toda sua fragilidade diante de sua terapeuta e antiga supervisora, a terapeuta aposentada Gina Toll (Diane Wiest), que então se dedicava à arriscar seus primeiros passos na carreira de romancista.

Acompanhar Paul diante de Gina ou mesmo de Adele – a nova terapeuta, procurada por Paul na última temporada – bem como acompanhar suas relações com seus familiares em cenas curtas e intensas que, durante as três temporadas, se mesclam em harmonioso contraponto narrativo com aquelas que mostram sua atividade terapêutica nos permite visualizar o ser humano que há por trás de cada profissional de psicologia. Se com seus pacientes Paul é lúcido, analítico e seguro, diante de Gina, Adele ou de sua família Paul é uma pessoa comum, enfrentando as situações de sua vida com a mesma a incerteza, instabilidade e passionalidade de seus pacientes.

Gina Toll e Paul Weston

Gina Toll e Paul Weston

No curso das três temporadas, In Treatment passeia por um grande número de temas e conceitos oriundos não apenas da psicanálise como também e principalmente de todo o amplo universo da psicologia em seu ambiente profissional. Vemos pacientes apaixonadas por Paul (transferência), Paul apaixonado por pacientes ou por suas terapeutas (contratransferência), suicidas potenciais em atividade de negação, recalque de acontecimentos significativos completamente soterrados no esquecimento, pacientes que preferem fármacos à psicoterapia e mesmo a típica resistência dos próprios pacientes ou familiares quanto à efetividade ou importância das sessões com Paul. Nas privilegiadas sessões em que Paul é paciente e não terapeuta – ou seja, onde dois psicólogos estão frente à frente -, é possível contemplar questões internas à própria atividade do psicólogo: o psicólogo deve ser rígido e impessoal ou deve, ocasionalmente, transpor o limite clínico e ser apenas outro ser humano diante do paciente? A terapia deve visar a decifração de uma personalidade ou a reinvenção do sentido de uma existência inviabilizada? Essas e outras questões acompanham a jornada de Paul e seus pacientes, enquanto estes oportunizam um verdadeiro laboratório reflexivo para aquele que tenta, em sessões semanais de meia-hora, ajudá-los à viver suas próprias vidas.

Penso que In Treatment é um drama arquetípico. Trata-se, em última instância, da jornada espiritual de uma pessoa presa no círculo vicioso da repetição de certos padrões de comportamento que, de muitas formas, inviabilizam qualquer realização vital concreta. O final da série é tão insuportável quanto também é o único possível: Paul não sabe o que fazer de sua própria vida. Porém, depois de três temporadas de desmoronamentos e acúmulos de pequenos fracassos e sucessos clínicos e existenciais, Paul parece ao menos saber o que não quer: não quer mais ter pacientes ou ser um paciente. Longe de ser uma conclusão cética com relação ao valor da psicoterapia, In Treatment é um elogio, uma apologia das sessões de terapia: mostra como a análise e a terapia psicológica podem ser vitais não apenas para os pacientes que dela se servem como também e principalmente para o próprio psicólogo. No caso de Paul, o envolvimento com as ciências da alma foram o caminho encontrado para dar sentido à uma vida até então baseada em tragédias familiares e frustrações pessoais. Ao fim da jornada de três temporadas vemos a sutil e progressiva tomada de consciência de Paul Weston com relação aos rumos que dá à própria vida. Longe de nos oferecer uma convencional conclusão catártica, In Treatment nos mostra como um ser humano pode perceber que vive anos – ou mesmo décadas – na doce embriaguez das narrativas que assume. Sem qualquer exaltação ou euforia catártica, assistimos Paul Weston reavaliar seus padrões e seus comprometimentos para, em seguida, sob os escombros de uma vida esgotada e condenada, se abrir para a então incontornável contingência do existir humano: sem saber o que vai fazer da própria vida, Paul sai do consultório de sua terapeuta abandonando, à um só tempo, ambos os papéis. Não será mais terapeuta ou paciente. A impressão que temos nas últimas cenas é que, enfim, o guia espiritual seguirá os próprios conselhos: romperá com narrativas e padrões confortáveis e se permitirá correr os riscos dos quais se protegia ao mantê-los.

Laura encarna a personagem da clássica paciente apaixonada pelo terapeuta

Laura encarna a personagem da clássica paciente apaixonada pelo terapeuta

Àqueles que são apaixonados pela alma humana, In Treatment é certamente fascinante. Acompanhar Paul Weston na senda de seu próprio autoconhecimento até as portas da reinvenção de si mesmo é acompanhar uma ficção que, se não alcança a excelência de uma obra de arte, cumpre uma das funções mais elevadas que a ficção pode cumprir, a saber, a de laboratório existencial. Sejamos muito ou pouco dados à reflexão acerca de nós mesmos, é impossível não se identificar ora com Paul, ora com seus pacientes. In Treatment toca no núcleo daquele que é o drama de todos os seres humanos: escolher os rumos e o sentido da própria vida. Quem tiver disposição para enfrentar os 106 episódios de vinte-e-poucos minutos provavelmente sairá um pouco diferente dessa experiência.

Vida longa às ciências da alma!

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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