As mãos dadas I – O adeus de Lulu

Três anos depois de se tornar esposa de seu professor, Lulu o deixou. Recordemo-nos, pois, da história de Lulu e seu professor.

Bonita e inteligente, Lulu era pelo menos uns cinco anos mais velha do que as meninas de sua turma na faculdade. Lulu fora o pivô da separação de seu professor favorito, de quem ela própria também rapidamente havia se tornado a aluna favorita. Capaz de perceber a instabilidade emocional e a falta de propósito de seu professor, Lulu pôs em marcha um plano que rapidamente fez com que seu amado professor se separasse da esposa e se casasse com ela. Foi com tristeza que a perspicaz aluna percebeu que a rotina do relacionamento transformara o interessante professor em um marido convencional, aborrecido e incapaz de manter interessante a dinâmica de um relacionamento mais longo. Se Lulu se casou com seu professor, teve de viver com um marido que parecia distante do seu ideal de homem.

Um ano depois de ir morar com o professor, Lulu completou seus estudos e conseguiu, através do então marido, seu primeiro emprego na área. O trabalho, porém, consistia em aborrecidas aulas para calouros e não instigava nem um pouco a jovem, que já não se sentia mais tão jovem: os anos de vantagem que levava sobre suas colegas, agora, a faziam se sentir velha e atrasada com relação aos avanços profissionais de suas ex-colegas mais jovens. Sua inteligência também a fazia se sentir deslocada diante das turmas que teve de assumir: perguntas bobas e comportamentos juvenis não eram nem mesmo compensados pelo constante e polido assédio que os jovens alunos praticavam religiosamente com a bonita professora. Foi nessa época em que, dominada pelo seu tédio, pela sensação de tempo desperdiçado e pela impressão de que não sabia para onde sua vida a levaria, que Lulu conheceu o professor Frederico – ou simplesmente Fred, como gostava de ser chamado.

Fred era da idade de Lulu e, portanto, bem mais jovem que o professor. Fred também dava aulas mas vivia ainda a euforia dos primeiros anos de carreira. A energia de Fred contagiou Lulu e deu à moça o ímpeto de que ela precisava para se sentir viva. Fred era bonito, alegre e sarcástico o suficiente para ser o centro das atenções nas festas da turma. Desde as primeiras ocasiões sociais Fred chamou a atenção de Lulu e a admiração foi mútua: muito mais equilibrada, inteligente e mesmo muito mais bonita e charmosa do que suas alunas, Lulu parecia ser a companhia preferida de Fred não apenas para as ocasiões sociais como também durante o dia-a-dia da sala de professores. Lulu percebia a proximidade que se criava entre ela e o rapaz e temia que seu marido e ex-professor percebesse alguma coisa.

Entendamos: Lulu não se sentia culpada. A única coisa que temia era que seu comportamento fosse julgado imoral, inapropriado ou mesmo cruel para com o marido ex-professor que, na opinião de todos, parecia o marido mais dedicado do mundo. Foi assim que, durante uma festa como aquela em que conquistou seu então professor, num sofá como aquele que havia na casa do então marido – e então, agora, também sua casa – e depois de alguns drinques, Lulu beijou Fred pela primeira vez. Os demais presentes pareciam não ter percebido o beijo e também pareciam não ter percebido quando Lulu e Fred se retiraram da sala onde a confraternização acontecia para, em um dos quartos da casa, ficar sozinhos.

No quarto, Fred e Lulu se beijaram mas não fizeram amor. Nem mesmo tiraram suas roupas. Permaneceram deitados, de mãos dadas, conversando durante quase duas horas. Embora a própria Lulu achasse a situação um pouco romântica demais para seu gosto, sem que ela percebesse, foi no momento das mãos dadas que ela percebeu que não podia mais permanecer casada com seu ex-professor. Foi no instante em que suas mãos se tocaram que o subsolo da alma de Lulu se reorganizou integralmente. Lulu pôde viver, sem que percebesse o que vivia, o sentimento de estar viva novamente. Aquele jovem e bonito colega era seu trampolim para que pudesse retornar à si mesma. Tentaram ser discretos ao sair do quarto onde se esconderam para ficar à sós, mas na sala Lulu foi surpreendida pela presença de seu marido, com um copo de uísque na mão, sentado exatamente onde ela e o jovem Fred estavam antes. Naquele instante, Lulu viu o rosto mais triste que já vira em sua vida e percebeu que alguns dos presentes observavam a cena, tão distantes e tão próximos quanto corvos que espreitam uma refeição. Sentou-se ao lado do ex-professor e já então quase-ex-marido certa de que não conseguiria convencê-lo de que nada demais tinha acontecido entre ela e Fred naquele quarto, muito embora o pouco que acontecera já tivesse sido significativo o suficiente.

“Como está, amor?”, disse sorrindo o ex-professor, já visivelmente embriagado. Parecia também bastante nervoso, o que fez com que Lulu temesse a ocorrência de um escândalo em público.

“Tudo bem. Achei que não viria na festa.”

“Ah, mas eu não resisti. Disseram-me que estava muito boa, que eu não podia perder. E está mesmo, não?”

Alguém havia ligado para seu marido e avisado sobre a situação. Corvos, malditos! Por quê? Com que necessidade? Futuramente Lulu agradeceria o anjo que lhe oportunizara um desfecho tão rápido para sua história com o professor. Naquele momento, porém, estava encharcada em piedade por aquele homem tão estúpido que conseguia, com as melhores intenções do mundo, tornar qualquer uma a mais aborrecida das mulheres.

“Diga-me… Por que, Lulu? Por que?”

O professor falava entre os dentes e Lulu temeu por uma cena de violência (temia mais a cena do que a agressão que pudesse sofrer). Não conseguia responder. Tinha vontade de dizer muitas coisas, mas nenhuma delas agora. Agora não queria mais consertar nada. Agora queria que a situação se resolvesse da maneira mais rápida possível, que o professor ficasse bem e que já a tivesse esquecido na semana seguinte. Que lhe desse um tapa no rosto e saísse da festa fazendo um escândalo, mas que tudo acabasse naquele momento. Foi assim que Lulu pensou que um anjo ouvia seus pensamentos quando o professor tomou todo o copo de uísque em um gole e disse apenas que ela teria o dia seguinte para levar suas coisas embora de sua casa. Lulu concordou e percebeu, com tristeza, que o professor tinha os olhos marejados. Assistiu seu já então ex-marido sair trôpego da casa onde a festa acontecia. Ao perceber que o professor havia ido embora, Fred se reaproximou e ouviu de Lulu a história acerca do que acabara de acontecer. Foi Fred que, no dia seguinte, ajudou Lulu a encaixotar suas coisas e se mudar, provisoriamente, para sua própria casa.

Não sei o que aconteceu com Lulu e Fred desde então. Desconfio que podem ter vivido uma história de amor mais longa e viva do que aquela que Lulu vivera com seu ex-professor. Sobre o professor, naquela noite ele dormiu na rua. Bebeu mais em cada bar que encontrou aberto no caminho para a própria casa e, completamente embriagado, se deitou no gramado de uma casa que ficava no caminho de sua própria. Por ironia do destino ou por motivações inconscientes, a casa em frente a qual o professor dormira era, precisamente, a casa de sua primeira ex-esposa, que o levou para dentro, lhe deu banho (com a ajuda de seu atual marido), lhe preparou café e ouviu atentamente cada parte da história. Foi naquela manhã e com ambas as mãos dadas sobre a mesa do café que o professor confidenciou seus novos planos, feitos dos escombros dos sonhos anteriores. Grato e ainda se sentindo mal pela bebedeira da noite anterior, o professor se despediu da primeira ex-esposa (bem como do marido atual desta) e foi para um hotel. Só voltou para casa dois dias depois. Os pertences de Lulu já não estavam mais lá.

Le_Saut_Dans_le_Vide

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Espiando Pelo Buraco da Fechadura, Fábulas Para Entristecer. Bookmark o link permanente.

2 respostas para As mãos dadas I – O adeus de Lulu

  1. Toupeira Solirária disse:

    Acabei de descobrir teu blog e com alegria vi a quantidade de textos, pensamentos e ensinamentos, que vão ocupar grande parte do meu tempo!

    Obrigado pelo conteúdo, e tenho um pedido. Pode falar sobre uma máxima, “Sua vida é uma mentira” ? Nos contextos filosóficos, seja com Sócrates criticando os figurões da época ou Sartre com a má-fé.. Iria adorar ler algo sobre o assunto!

    Grato,

    O Toupeira

  2. Que lindo!! Fazia muito tempo que não me fascinava por uma leitura. Aqui amei várias. Escreva mais! Agora você faz parte da minha rotina.

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