As mãos dadas II – O adeus de Penélope

O carro estava indo talvez um pouco rápido demais para que Alex o conduzisse com uma única mão. Mas não queria soltar a mão de Penélope. E se dirigir segurando a mão da moça já não era imprudência suficiente, Alex aproveitava para espiá-la, várias vezes por minuto, enquanto ela se deixava embalar pela velocidade e, em um aparente transe, se deleitava com a vista que se oferecia pela janela aberta do automóvel. Seus cabelos, então mais curtos do que outrora já foram, escapavam mecha por mecha do rabo de cavalo que a moça improvisara. A fumaça do cigarro segurado com a outra mão quase não se deixava entrever, pois mal deixava a ponta do mesmo e se perdia no turbilhão de ar causado no interior do veículo pela velocidade. Alex tinha de se concentrar, pois quanto estava com Penélope parecia contagiado pela mesma maldição que a acometia, a saber, a de se deixar arrebatar quase que completamente por qualquer sentimento. Naquele momento, enquanto o espírito de Penélope parecia se perder no cinza daquele fim de tarde, o de Alex se perdia no rosto e na pele de Penélope. Mas se perdia por pouco tempo, pois a combinação de estrada e velocidade exigiam sua atenção.

Depois de longos minutos, Penélope percebeu que era observada e sorriu com seu encantador sorriso sempre meio triste e completamente autossuficiente, de uma tristeza assumida com serenidade. Alex se perguntava se ela fazia ideia do quanto ele gostava dela, e preferia manter a questão em silêncio: era preciso silenciar. Se Penélope desconfiasse do que Alex sentia por ela, escaparia para longe como a fumaça do cigarro. Para evitar mesmo pensar nisso – pois às vezes desconfiava que a moça podia ler seus pensamentos – comentou sobre a beleza do céu cinzento. Penélope concordou:

“E não é?”, disse sorrindo.

Vejam: o arrebatamento de Penélope não é com o céu cinza. Nem consigo mesma. Era com o sentimento proporcionado por aquela circunstância que parecia elaborada por um demiurgo melancólico. Estavam indo embora da cidade onde viviam, depois de muitos anos. Não sei por que razão precisa iam embora, nem para onde. Mas a velocidade com que Alex guiava mostrava o quanto ambos fruíam a sensação de estar deixando para trás um mundo inteiro. E Penélope, através daquela paisagem seca e daquele céu cinza, voltava a si mesma. Alex não conseguia saber o que exatamente preenchia os pensamentos da moça, mas sabia que fosse o que fosse, o fazia do ponto de vista de alguém que não sabe o que fazer consigo mesma na própria vida. Podia captar, quase sentir junto com Penélope o sentimento dela, como se sente o calor de uma fogueira da qual se está próximo. Poder sentir isso era, para Alex, um privilégio. Às vezes queria ficar preso para sempre em um desses instantes que tinha com Penélope, onde se irmanava com ela em uma bruma indefinida e impossível de ser traduzida em palavras. Mesmo quando Penélope pegou no sono, Alex sabia: seus sonhos estavam embebidos daquela incerteza nebulosa sobre o que seria a vida dali para a frente. Alex também sentia o mesmo. Naquele momento, porém, ao menos uma certeza ele tinha: desejava segurar a mão de Penélope para sempre.

• • •

A noite caiu e Penélope continuava dormindo. De modo muito habilidoso, Alex colocou música para embalar o sono da moça. Sem, porém, soltar sua mão. Os acordes de guitarra e a voz da vocalista da banda de rock estavam entre algumas das coisas que Alex mais gostava no mundo naqueles dias. Penélope não gostava tanto daquelas canções, mas como o próprio Alex ela sabia apreciar o deleite do amigo. Enquanto dirigia com uma mão só, Alex cantarolava a canção:

My Future is static
It’s already had it
I could tuck you in
And we can talk about it
I had a dream
And it split the scene
But I got a hunch
It’s coming back to me

A guitarra soou repetitivamente, como Alex tanto apreciava, algumas notas nervosas. Nervosismo e repetição. Era como se ele e a música fossem espelhos um do outro. Embora vivesse um momento completamente novo em sua vida (era a primeira vez que ele dava um salto no incerto de maneira tão franca) sentia que essa incerteza era uma nota repetitiva que retornava como uma bola de borracha lançada repetitivamente ao fundo de uma piscina, voltando sempre à tona. A presença de Penélope o enchia de forças e ele se prevenia mentalmente desse conforto: não devia contar com a certeza da companhia dela nem devia deixar que ela visse que ele lutava contra si mesmo para se prevenir da esperança. Enquanto pensava nisso, em uma curva qualquer, Alex perdeu o controle do carro.

• • •

Alex não lembra quando exatamente conheceu Penélope, mas lembra quando foi que se apaixonou por ela. Era uma festa ao ar livre, cheia de jovens e pessoas envolvidas com a transformação da sociedade. Socialistas discutiam a dialética da história e analisavam a conjuntura política do país ao sabor de cerveja barata enquanto punks enchiam a cara sem esperança e com bebida mais barata ainda. Penélope estava com outras moças, próxima à um aparelho que tocava música popular. Dançavam e bebiam, como quase todos ali. Alex lhe pediu um cigarro, mas quem puxou assunto foi ela: queria saber se ele tinha um certo livro que ela queria ler. Ele tinha. Conversaram sobre o livro um fim de tarde inteiro e Penélope dedicou então toda sua atenção ao rapaz. Sem outras acomodações, assistiram deitados na grama o alaranjado do crepúsculo dar lugar à penumbra do entardecer. Foi essa a primeira vez em que se deram as mãos e foi de mãos dadas que viram a noite chegar. Esperar de mãos dadas o anoitecer foi a metáfora que encontraram para tudo o que aconteceria desde então.

Ambos já viviam há tempo demais naquela cidade e sua aproximação permitiu que vissem que já não havia nada que desejavam realizar por ali. Foi na noite do mesmo dia, depois de se separarem no início da mesma, que Penélope tocou a campainha da casa de Alex pela primeira vez. Era, na verdade, o início da madrugada e Alex estava em casa um pouco embriagado – ou ao menos supunha estar – escrevendo justamente sobre Penélope. Tinha o livro que ela pedira em frente ao computador em que ela escrevia e não pôde negar à moça que ela lesse o que ele estava escrevendo. Era uma espécie de conto, ou talvez uma crônica. Certamente um texto tão etéreo quanto este. Foi nessa noite que se beijaram pela primeira vez.

Esse beijo seria o primeiro de muitos, bem como a própria companhia noturna se tornaria uma constante para ambos. Ainda que ambos estivessem envolvidos em relacionamentos com outras pessoas (Alex tinha um namoro conturbado enquanto Penélope se envolveu com outras duas pessoas nesse ínterim) suas noites compartilhadas seriam o bálsamo de seus dias. De forma que seria inevitavelmente obscena em algumas narrativas, Alex e Penélope compartilharam seus corpos e almas em repetidos encontros que logo foram reconhecidos pelos dois como espaços de fuga: encontraram, um no outro, ilhas de tranquilidade, de leveza e liberdade diante das expectativas que se depositavam sobre eles e permeavam todos os demais âmbitos de suas vidas. Embora estivessem próximos o suficiente para terem cultivado reciprocamente algumas pequenas expectativas, o fato de seus encontros serem um espaço de exceção às exigências afetivas de um mundo demasiado confuso fez com que fossem prudentes: era como se tivessem feito um acordo silencioso de que sua relação não degradaria pelas mesmas razões que degradaram todas as demais que viviam e sobre as quais tanto falavam. Estabeleceram uma relação estranha, semelhante à um parentesco incestuoso, nascido do acaso mas eficaz contra o tédio. A relação durou apenas algumas semanas, precisamente o tempo que Penélope levou para ler o livro. E como se imitassem os personagens do livro, ao final da leitura de Penélope ambos concordaram que deviam ir embora.

Não sei exatamente como decidiram, nem sei exatamente o que levaram no porta-malas do carro. Não foi, porém, nada planejado. Ao entrarem no carro de Alex, deixavam para trás aquela parte de nós mesmos que é justamente a que nasce quando ficamos tempo demais em contato com algum solo. Talvez nenhum dos dois percebesse o quanto tal parte de si mesmos era fundamental e decisiva, mas não pareciam se importar. No espaço de poucos dias, decidiram que nada mais do que haviam vivido importava, mas sim o que iriam viver dali para a frente. Iriam embora. Não sei mesmo se decidiram o destino para o qual estavam rumando, mas vejo nos sorrisos aliviados – um tanto quanto melancólicos, é verdade – a convicção de que uma vida nova, nem boa nem má, era então possível e desejável. Deram as mãos e Alex deu a partida no carro, guiando com uma mão só.

• • •

O carro saiu da estrada e desceu algumas dezenas de metros por um declive, parando muito longe da estrada. Não sabiam onde estavam. Não haviam se machucado, porém. Penélope tentava telefonar para pedir ajuda enquanto Alex providenciava uma fogueira improvisada. Penélope chamou o resgate e Alex acendeu a fogueira. Não faziam ideia de onde estavam e só lhes restava esperar. O céu, anteriormente cinzento, se exibia vaidosamente repleto de potos luminosos. Sentaram no chão.

“Terá sido um sinal de que não devemos ir embora? Será que não devemos ficar e suportar, como mártires, os fardos que a vida nos legou?”

Penélope ria. Achava engraçado o modo como Alex fingia – ma non troppo – sentir e pensar a vida quase misticamente. Não respondeu nada, porém. Preferiu perguntar para Alex se ele ainda tinha algum cigarro. Haviam restado dois. Cada um acendeu um cigarro e se deitaram no chão como na primeira vez. E se deram as mãos novamente.

“Está com medo, Penélope?”

“Não.”, diz ela, esticando a vogal como quem respondesse enquanto ainda pondera e se examina. “Medo não. É uma sensação diferente. É uma impressão de que não se tratava final de fugir do lugar, mas de que algo diferente precisava ser feito.”

“Como assim?”

“Não é um novo cenário que vai nos salvar de nós mesmos.”, disse, antes de soltar em um sopro contínuo a fumaça que então se iluminava pela luz da fogueira.

“Eu sei. E você sabe que eu sei.”

“Não há como voltar. E eu nem quero. Só quero dizer que ir embora… Não basta.”

“O que é preciso, então? O que devemos fazer?”

Alex percebeu o deslize. Conjugou um verbo de modo equivocado, no plural. Seu inconsciente o traiu e deixou que Penélope percebesse que a levava em consideração em seus difusos planos. Ele percebeu que ela percebeu que ele havia percebido e em um instante, as cartas estavam viradas. O coração de Alex bateu mais rápido e o rapaz teve a impressão de que ela podia escutá-lo. Ela, de fato, podia sentir – como ele próprio fazia com relação à ela – exatamente o que ele estava sentindo. A estranha comunhão não se dissolvia mas, ambos sabiam, estava irremediavelmente transformada e já não seria suficiente para os manter próximos. Penélope terminou o cigarro e soltou a mão de Alex.

Alex ficou parado, deitado no chão, por alguns instantes. Depois se sentou. Sentia uma estranha preguiça. Uma espécie de cansaço, ou talvez de tristeza. Não sabia definir. Via Penélope de costas para ele. Ela se despia. Tirou a blusa, o short e as roupas íntimas. Virou-se então para Alex com o mesmo sorriso de sempre. Um sorriso inexoravelmente fatalista, com a sabedoria dos milênios que habitavam aquela alma. Caminhou até Alex e se curvou, lhe dando um último beijo.

“Não basta ir embora, não é? Você precisa se transformar.”

Ela concordou, com a aparente falta de convicção de quem está sempre incerto. Depois, voltou à paz habitual de quem sabe que não precisa, jamais, se justificar. Encolheu-se ao lado da fogueira por um instante, abraçando as próprias pernas e olhando para o fogo. A luz da chama iluminou seu rosto e seus cabelos. Olhou novamente para Alex e, mais uma vez, sorriu. Sorriu como ela às vezes fazia: como a criança que, em algum lugar, ela ainda era e sempre seria.

“Esse instante vai durar para toda a eternidade, Penélope.”, disse Alex sorrindo também, já resignado.

“Que bom.”, ela respondeu, com a voz um pouco manhosa e cheia de ternura. Seus olhos se encontraram uma última vez. Penélope, então, se transformou em um pássaro negro e alçou voo. Sua nova forma não demorou a se perder totalmente na escuridão. As luzes dos carros de resgate já podiam ser vistas ao longe. Alex riu alto, com os olhos marejados, em um pequeno instante de um estranho tipo de desespero. Mas retomou a resignação e disse um “sim”, total e definitivo, para as coisas tais como elas são. Apagou a fogueira que orientava os carros de resgate que, ao chegarem ao local, não encontraram senão um carro abandonado e nenhum sinal da presença do casal que os havia chamado.

Penélope

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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