“Sócrates encontra Sartre”, de Peter Kreeft

Quase três anos atrás assisti, por sugestão de um professor dos tempos de graduação e mestrado, um filme chamado The Sunset Limited, adaptado de peça homônima de Cormac Mccarthy. No filme, Tommy Lee Jones interpreta um professor que tentara suicídio na estação onde o personagem de Samuel L. Jackson trabalha como gari. Sem nome, os personagens apenas entabulam um diálogo de noventa minutos no qual o gari tenta devolver ao professor, pela via da religião, o sentido da vida. Falei sobre esse filme aqui. Falo disso porque ontem concluí a leitura de um livro que me lembrou muito o filme. Trata-se de “Sócrates encontra Sartre”, de Peter Kreeft.

Quando adquiri o livro já havia ouvido falar de Kreeft. Seus livros são recomendados por uma certa figura pública da mídia brasileira, autoproclamado filósofo, cujo nome prefiro nem mencionar para que seus admiradores (ou aqueles que dispensam tempo para falar mal dele, tão chatos quanto os admiradores) não venham parar aqui no meu blog. O livro que essa figura pública recomenda é intitulado “Como Vencer a Guerra Cultural” e na obra aparentemente Kreeft conclama os cristãos à uma guerra cultural contra… Tudo que não seja conservadoramente cristão. Também sabia que Kreeft tinha livros do mesmo gênero – pensadores se encontrando com Sócrates – sobre Marx, Kant e outros pensadores detestados pelo conservadorismo. Não fui para a leitura, portanto, esperando nada senão um massacre de Sócrates contra Sartre.

Ledo engano, divertida surpresa.

O Sartre de Kreeft é charmoso. Arrogante, histérico e intransigente, o Sartre de Kreeft é verossímil para quem tenha lido algumas biografias sobre o autor. Diferente do Sartre chapa-branca, edificante e boa-praça que parece se impor ideologicamente à alguns que se dedicam à estudá-lo academicamente. O Sartre que Kreeft apresenta é, nas palavras de Sócrates, o melhor amigo dos sacerdotes: oferece uma imagem da condição humana tão aterrorizante que deixaria qualquer um desconfortável em viver e pensar como um verdadeiro ateu, o que faria as pessoas correrem para as religiões. O próprio existencialismo se resume, mais ou menos por metade do livro, àquela “tentativa de extrair as consequências de uma posição ateia coerente” – definição usada por Sartre, é verdade, mas en passant n’o Existencialismo é um Humanismo (Kreeft, aliás, evita o máximo que pode discutir O Ser e o Nada, por sua demasiada e desnecessária complexidade). O existencialismo, em suma, seria uma doutrina impossível de ser vivida.

O livro tem quase 180 páginas de diálogo entre Sócrates e Sartre. Kreeft faz seu Sartre admitir que há, no seu existencialismo, uma opção pelo absurdo. Que a gratidão e o amor são impossíveis no existencialismo, que Sartre não parece crer no absurdo que prega pois não seria capaz de viver. Há mesmo alguns argumentos filosoficamente relevantes no meio da conversa. Kreeft faz Sócrates revelar à Sartre, por exemplo, que sua ideia do que seja a experiência cotidiana mediana da maior parte das pessoas é completamente delirante. Também faz Sócrates mostrar à Sartre como as pessoas, em geral, não experimentam, na ocasião de uma decisão, a escolha dos valores segundo os quais tais decisões se justificam moralmente – ideia central do existencialismo sartreano no que tange a natureza do valor e ao alcance da própria liberdade. Em suma, Kreeft é bem sucedido ao apresentar Sartre como alguém que, diante de um filósofo metafísico moralmente conservador, encarna perfeitamente bem o papel de um vilão: segundo Kreeft, Sartre mente que o existencialismo ateu apreciaria a existência de Deus porque a Sua existência resolveria o problema da angústia, o desespero e o desamparo humanos. Kreeft – ou melhor, seu Sócrates – afirma que Sartre aprecia o absurdo que prega, o desconforto que causa e não consola, a ausência de Deus. Afirmações sobre Sartre que acho bastante plausíveis.

O ponto fraco do livro de Kreeft é, sem dúvida, seu Sócrates. Transformado em um guardião da salvação da alma na antecâmara da eternidade, o pai da filosofia foi transformado em uma espécie de cão de guarda do conservadorismo cristão. Tomando parte por Aristóteles contra Platão não poucas vezes e muito preocupado em julgar Sartre segundo ideias mais medievais do que gregas, Sócrates também é pouco maiêutico: em certos momentos Sócrates fala mais do que pergunta. A licença poética permite que Kreeft faça o uso que preferir de Sócrates ou de Sartre. Minha impressão é a de que Sócrates, mais que Sartre, foi descaracterizado ao ser destituído de sua conhecida posição de buscador obsessivo da verdade. Talvez o público alvo de Kreeft não seja mesmo eu, que já poderia ser visto por ele como um fruto de uma educação filosófica pervertida por um dos lados da guerra cultural. Mas mesmo eu – que não sou nem leitor nem mesmo apreciador dos diálogos platônicos – fiquei espantado com o Sócrates de Kreeft.

Aliás, espanto e perplexidade marcam o final do livro. Sócrates – ou seja, Kreeft – não destrói Sartre em seu diálogo. No máximo faz seu diabólico Sartre afirmar que caso fosse mesmo um agente duplo do cristianismo – que entraria no ateísmo para assustar os ateus com a ameaça do absurdo – não poderia se revelar. Encaixando Sartre em uma grande narrativa divina na qual mesmo Judas Iscariotes tem seu lugar como antagonista, Kreeft encerra o livro fazendo Sócrates dizer que nunca encontrara um filósofo como Sartre. Tal como o personagem religioso de Mccarthy termina desconsolado em The Sunset Limited, Sócrates sai atordoado da conversa com Sartre. E se Kreeft – através de Sócrates – afirma que a felicidade é um fim e a filosofia é um meio, o Sartre de Kreeft é mais filósofo do que seu Sócrates ao ser intransigentemente coerente com suas premissas do absurdo da vida, da liberdade radical, da responsabilidade pela criação dos valores – e, portanto, pouco preocupado com felicidade. Se Kreeft vê no filósofo francês um agente duplo da religião ao criar um ateísmo assustador, Kreeft me pareceu um agente duplo do existencialismo ao apresentar um Sartre menos adestrado ou politicamente correto e mais comprometido com as verdades desconfortáveis do existencialismo do que se pode ver em muitas publicações mais sérias sobre o assunto.

Peter Kreeft

Peter Kreeft

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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Uma resposta para “Sócrates encontra Sartre”, de Peter Kreeft

  1. O Sócrates de Kreeft é o Sócrates pós-livro “Sócrates encontra Jesus”, no qual Sócrates acorda no século XX e depois de uns tempos acaba se convertendo ao cristianismo. Acho que é por isso que ele está mais pra Santo Tomás do que pra Sócrates.

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