Excertos do subsolo – Um vinho para Clarissa

Essa história aconteceu na época que Clarissa não se lembrava com nitidez quem ela própria era. Assim, não é fácil precisar se foi de fato a primeira vez que encontrou Morgana, mas tudo se passa como se fosse.

Era o velório de Sigmund. Victória estava desolada e era amparada pelos presentes. Comovia a todos quando repetia que não entendia como aquilo era possível e o quanto parecia, enquanto estavam juntos, que o mundo era só deles. Alex estava emocionalmente exausto e só pôde descansar quando, depois do entardecer, Montserrat apareceu para ajudar a cuidar da jovem viúva. Pôde, então, voltar a se dedicar da tarefa que mais lhe consumia o tempo e as forças: cuidar de Clarissa em tempo integral.

Clarissa viu Morgana nesse ínterim, enquanto Alex a deixava sozinha por alguns instantes para cuidar de Victória. Quando a viu, Morgana estava próxima às pessoas que se aglomeravam ao redor da cova recém fechada, mas no lado oposto em que estava a própria Clarissa. Chamou-lhe atenção que Morgana não parecia prestar muita atenção ao velório ou às narrativas que se entrecruzavam e que, para Clarissa, pareciam se referir à muitos indivíduos diferentes. Já sabia que conhecia Sigmund desde antes de perder a memória, mas por não ter tais lembranças não conseguia dar unidade aos vários personagens que os retalhos narrativos que os presentes compartilhavam sobre o morto. Ao perceber que Morgana parecia prestar atenção apenas nela própria – pois mesmo em um velório lhe dirigia um discreto mas notável sorriso acompanhado de um olhar fixo – Clarissa decidiu, discretamente, se aproximar de Morgana.

“Olá. Eu a conheço, não?”, perguntou Clarissa. Morgana disse que sim, há muito tempo, mas que isso não importava agora. Conversavam sobre Sigmund, Victória, Alex, Montserrat e mesmo sobre o pai de Clarissa. Esta preferiu não insistir em perguntar de onde afinal ela conhecia seu pai e ela própria e escutou atentamente as palavras que lhe eram dirigidas. O que Clarissa achava estranho é que mesmo não lembrando satisfatoriamente de seu passado, as palavras de Morgana faziam-na sentir uma estranha familiaridade, um permanente deja vu que, mais do que incomodá-la, deixava Clarissa à vontade e livre daquela permanente sensação de não saber direito onde estava e o que estava acontecendo afinal. Era como se Morgana fosse a única pessoa com quem Clarissa falava até agora que não lhe passava a estranha impressão de estar medindo as palavras. Às vezes, sentia-se paranoica: talvez ninguém estivesse escondendo nada. Por que estariam? O que Clarissa não poderia ou deveria saber sobre seu próprio passado? A sensação de familiaridade que Morgana lhe transmitia, porém, eram um poderoso contraponto ao suspense que sua amnésia parecia lhe obrigar a viver.

Clarissa e Morgana pararam de falar por alguns momentos e prestaram atenção às palavras de Victória.  Victória dizia que Sigmund havia dito, naquela semana, que era a primeira vez na vida em que se sentia como se tivesse finalmente conquistado o coração de Victória. E que então já poderia morrer, pois havia alcançado a meta da sua vida, a única coisa que realmente queria. Victória também disse que esse desejo pode ter mesmo produzido a morte de Sigmund: há muito tempo ambos estavam convictos de que seus pensamentos, de alguma maneira, faziam com que os fatos acontecessem quase sempre segundo sua vontade, mais cedo ou mais tarde.

Clarissa ouviu atentamente e sentiu a mão de Morgana tocando seu ombro. “Mais tarde eu vou lhe procurar”, disse a moça e desapareceu. Nesse instante Clarissa viu o olhar preocupado de Alex procurá-la entre as pessoas no velório, olhar que só descansou quando encontrou Clarissa. Naquele instante, Clarissa sentiu algo que estava recorrente nos últimos dias: sentiu que já estava cansada de se sentir um fardo na vida de Alex. Decidiu voltar para perto do rapaz e esperar do seu lado pelo fim da cerimônia. Também naquele instante todos, mesmo Victória, ficaram em silêncio sepulcral, pois o pai de Clarissa também chegava para o velório. Prestou suas homenagens e pôs-se ao lado de um Montserrat tão intimidado quanto raramente se via. O pai de Clarissa disse que Alex levasse Clarissa para casa pois ele próprio acompanharia aqueles que ofereceriam amparo à Victória. Alex saiu então do velório antes dos demais. Levou Clarissa para casa. Lá chegando, constatou que havia esquecido de comprar cigarros. Clarissa se ofereceu para fazê-lo e Alex aceitou, mesmo a contragosto, que Clarissa saísse sozinha, forçando a si mesmo a dar mais autonomia e liberdade para a jovem. Clarissa vestiu um casaco e saiu na direção do café mais próximo da casa de Alex. Quando lá chegou, se surpreendeu: Morgana estava sentada à uma mesa. Com o mesmo discreto sorriso de antes.

Morgana estava sozinha e seria possível dizer que já esperava Clarissa. Clarissa sorriu e foi até o balcão. Comprou o cigarro e antes de ir decidiu trocar mais uma palavra com a moça que de forma impassível lhe sorria. Morgana convidou Clarissa para se sentar com ela. Conversou novamente sobre o velório e ambas tiveram de concordar que não podiam chorar pela morte de Sigmund: uma não o conhecia direito, outra não se lembrava dele. Depois de alguns minutos, Clarissa não se conteve e perguntou novamente de onde se conheciam.

“Você não se lembra mesmo? De nada?”, perguntou Morgana, fitando Clarissa sem piscar uma vez sequer.

“Desculpe, mas eu não lembro”, respondeu Clarissa. Morgana disse que resolveria esse problema e foi até o balcão novamente. Enquanto falava com o taberneiro, apontou para Clarissa. A menina não conseguia ouvir o que diziam, mas viu que Morgana apontou na sua direção. O taberneiro consentia com a cabeça. Foi até o interior do local e voltou com uma garrafa escura, sem rótulos ou marcas, de algo que parecia vinho. Morgana convidou Clarissa para mais um passeio. A jovem percebeu que Morgana trazia duas taças. Ao saírem do estabelecimento, Morgana serviu uma taça para cada uma e pediu que Clarissa a acompanhasse por mais alguns minutos naquela noite fria.

Naqueles quarteirões que atravessaram bebericando aquela estranha bebida – Clarissa pensou que fosse vinho, mas o sabor frutado lhe lembrava muito o de morangos – foi onde a noção do tempo provavelmente começou a se perder para a jovem. Depois do segundo ou do terceiro copo, Clarissa sentia uma estranha euforia. Além disso, a sensação de familiaridade e pertencimento ao mundo haviam lhe tomado por inteira: a vida parecia uma aventura a ser vivida. Parecia-lhe mesmo que em qualquer esquina alguma coisa lhe apareceria e lhe faria lembrar, afinal, quem ela própria era. Não sabia se era a bebida, a presença da nova amiga ou qualquer fator desconhecido na atmosfera. Provavelmente um misto de tudo isso. Foi assim que, por convite de Morgana, Clarissa decidiu entrar em um cassino com sua nova amiga.

Rapidamente Clarissa percebeu que não tinha muito dinheiro e que, portanto, não jogaria por muito tempo. A primeira rodada na roleta lhe levaria quase um terço de tudo o que tinha. Mas, por nunca ter jogado, decidiu apostar. E apostou tudo em apenas um número.

Venceu.

Eufórica, pediu mais um copo daquele estranho vinho para Morgana. Sua nova amiga apenas sorria, condescendente, e lhe servia. Não jogava. Apenas acompanhava Clarissa na euforia de alguém que parecia descobrir o mundo e vivenciar os sentimentos mais puros e intensos pela primeira vez. Clarissa jogou e venceu novamente. E novamente. E novamente. E novamente…

… E quando percebeu, havia multiplicado em pelo menos cem vezes a soma inicial que trazia consigo. Não fazia ideia de quanto tempo havia passado, mas a presença da nova amiga e o sabor daquele elixir mágico a faziam se sentir muito bem, como há muito não se sentia. Morgana, pela primeira vez na noite, não parecia condescendente com a situação, e não sorria. Não recusava a Clarissa sempre mais um copo do estranho vinho que deixava Clarissa eufórica – e, honestamente, irreconhecível. A menina não apenas não percebia que seu estranho vinho nunca lhe era negado – e que, portanto, não parecia ter fim – como também não percebeu que era o centro das atenções de todo o cassino. Por mais que aquele róseo elixir lhe deixasse cada vez mais lúcida e eufórica, os vapores proporcionados pela bebida haviam feito Clarissa ultrapassar em muito os limites de si mesma. Sentia-se onipotente. A sensação era, simultaneamente, a de que estava mais desperta do que nunca, desperta o suficiente para perceber que aquilo só podia ser um estranho sonho. Percebia os rostos hostis e arquetípicos dos presentes, senhores e senhoras caricatos lhe observando com desconfiança. Não pareciam pessoas, mas bonecos que desde sempre e para sempre jogavam naquele cassino sem janelas, e que o próprio cassino realizava seus jogos em um espaço fora do tempo. Não se deixava intimidar, porém. Fazia apostas cada vez mais altas e, um copo após o outro, ficava cada vez mais rica. Pedia para que Morgana cuidasse de suas fichas, pois eram tantas que já não cabiam na mesa de jogo.

A cada sucessiva e estatisticamente impossível vitória, os valores se multiplicavam. O tempo havia passado de forma difusa e imensurável. Clarissa pegou a garrafa da mão de Morgana e bebeu com a sede de alguém que se perdeu em um deserto. Seus olhos não saíam da mesa de jogo e sua lucidez parecia ter se convertido em loucura: não queria admitir que não era nada, nada razoável que há tantas e tantas rodadas cada uma de suas jogadas fosse recompensada com uma vitória imediata. Não fazia sentido mas, francamente, não lhe interessava nem um pouco o sentido. Queria vencer. Queria sair rica pela porta daquele cassino! Milionária, para ser onipotente como sentia que podia ser! Não tinha muitas lembranças acerca de quem era, nem sabia se dinheiro era algo que lhe importava. Mas se saísse com tanto dinheiro daquele cassino, pouco importava quem tivesse sido antes de perder a memória. Poderia ser quem quisesse!

Em um determinado momento da noite, Morgana pôs a mão sobre a de Clarissa:

“Clarissa… Vamos embora. É hora de parar.”

“Não!”, disse a menina com olhos em chamas. “Eu não quero parar, eu não quero querer parar!”

Morgana não disse nada. Clarissa jogou mais uma volumosa soma e, pela primeira vez na noite, perdeu. Irritada, jogou novamente. Perdeu novamente. Contrariada pela mudança repentina de sua sorte, jogou uma nova soma. Perdeu mais uma vez. Quando voltou-se para Morgana, percebeu que estava sozinha lá, que sua nova amiga havia sumido. Foi beber mais um gole de seu elixir mágico mas, para sua surpresa, a garrafa estava vazia. Foi nesse exato momento que todo o passado de Clarissa se descortinou e a menina se lembrou de quem ela própria era. Lembrou-se de seu passado, de seu pai, de Alex, do céu, do inferno, de tudo. E teve de reviver, em um só instante, o escoamento de todas as suas lembranças para dentro de sua alma. Sentiu uma vertigem. Caiu.

As risadas de escárnio dos presentes ecoaram pelo ambiente ao mesmo tempo em que Clarissa, em lágrimas, contemplava a própria vida, a própria memória agora recuperada. As fichas de Clarissa, na mesa de jogo, foram então disputadas à tapas, socos, mordidas, golpes com garrafas, copos, taças. Um festim de violência desenfreada acometeu os presentes que disputavam cada ficha que Clarissa, desfalecida no chão, não tinha como defender dos abutres que se jogaram sobre seu corpo, enfiando as mãos nos bolsos de seu casaco, de suas calças, dentro de sua roupa. O último gatuno, um rapaz alto e magro, pálido como um cadáver animado, encontrou apenas um maço de cigarros no bolso de Clarissa. Com uma expressão de nojo, jogou o maço sobre o rosto da menina.

Devastada, a menina ergueu-se. Com os cachos dourados em desalinho, apenas apanhou o maço de cigarros que deveria levar para Alex e decidiu sair dali. Em passos trôpegos, procurou a saída do cassino. Não conseguia pensar direito em mais nada e agora – estranhamente livre dos efeitos do estranho vinho, como se tivesse vertido o mesmo através das próprias lágrimas – parecia que todos os presentes sabiam quem ela própria era, pois cada um por quem passava lhe olhava, apontava, ria, gargalhava, injuriava. Uma vez finalmente na porta do cassino, Clarissa sentia que se esquecia de alguma coisa. Tinha o estranho sentimento de que havia deixado, com todo o dinheiro perdido, mais alguma coisa para trás. Não tinha como perceber o que perdera: acabava de esquecer, mais uma vez, quem ela própria era.

Em passos tão lentos quanto imersos em confusão, Clarissa voltou pra casa. Sentia-se cansada, exausta. Já não havia em sua alma nenhum sentimento de familiaridade com nada, e o mundo voltava a parecer apenas áspero e ameaçador. Lembrava-se unicamente que quase tinha ficado rica e que havia sido violentamente roubada em um cassino. Mas tudo lhe parecia tão surreal que decidiu que não contaria à ninguém a experiência pela qual passara. Porém, o sentimento que lhe acompanharia a partir de então e até o dia em que se lembrasse quem ela própria era seria o sentimento de que havia perdido algo muito, muito importante. Sabia que haviam levado todo seu dinheiro, mas por alguma razão o estranho sentimento que se instalara não parecia coincidir com essa perda.

Chegou em casa e ouviu uma voz feminina contando, aos prantos, uma história. Falava de um morto que havia dito, no leito de morte, que tudo se passava como ele imaginava que se passaria: sua vida inteira transcorria, como cenas recortadas de um filme, diante da consciência antes do momento final. E como ele imaginava, não passava em ordem cronológica, mas em ordem de importância. E o último momento era ao mesmo tempo o momento mais perfeito, o momento mais importante, pois acontecia simultaneamente no delírio e na realidade: poder estar com a pessoa amada na hora da morte. Era Victória falando de Sigmund, na sala casa de Alex. Clarissa adentrou o recinto e logo todos os presentes pararam de falar por um instante. Olhavam para ela em silêncio. Igualmente calada, Clarissa caminhou até Alex, entregou-lhe o maço de cigarros e, se recostando ao peito do amigo que então a abraçava, pôde novamente cair em prantos pela primeira vez naquele dia tão triste que, finalmente, terminava.

red wine

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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