A trama e seus tecidos | Parte I – “Que o mundo inteiro nos considere grandes pecadores!”

– O dia será quente, tórrido, haverá tempestade, diz o primeiro, que o outro interrompe, fazendo graça:
– Não é possível! O primeiro responde no mesmo tom:
– Mas sim, Bernardo. Sinto muito, mas não há escolha. Um pouco de coragem! Bernardo cai na gargalhada e declara:
– Eis o castigo de nossos pecados. E o primeiro:
– Por que, Bernardo, tenho de sofrer pelos seus pecados? Então Bernardo ri ainda mais, para deixar claro para os ouvintes de que pecado se trata, e eu o compreendo: existe apenas uma coisa que todos desejamos: que o mundo inteiro nos considere grandes pecadores! Que nossos vícios sejam comparados aos temporais, às tempestades, aos furacões!
– Milan Kundera, A imortalidade

Narrar e descrever são duas atitudes discursivas distintas e quem conhece a obra de um intelectual francês chamado Paul Ricoeur pode eventualmente ter se inteirado não apenas dessa diferença como também dos embaraços a ela inerentes.

O que um psicanalista deve escutar no relato da pessoa em seu divã? Deve escutar o mesmo que um psiquiatra? E se ao invés de um profissional em psicologia ou medicina, a pessoa procura um padre? Ou um amigo? Parece óbvio que se a recepção for feita por um juiz, por exemplo, o relato que organiza as vivências oferecerá outros relevos, se prestará à outras topografias, em suma, não será o mesmo relato. Em alguns casos, o relato será mesmo destituído de seu caráter narrativo e será decomposto e reorganizado segundo uma inteligência descritiva, oferecendo, por exemplo, um caldo onde serão pinçados alguns poucos elementos “mais objetivos” mais “sólidos”, mais facilmente organizáveis em uma lista, em um cardápio, em uma base para diagnóstico ou condenação.

A voz de Paul Ricoeur no burburinho acerca da natureza e do estatuto dessas formas de discurso soa mansa mas, ao mesmo tempo, contundente: a vida de uma pessoa humana, em sua inalienável singularidade, exige a forma narrativa do discurso. Isto é: só a história de uma vida nos oferece uma imagem ampla através da qual é possível ver, precisamente, uma pessoa, e não um objeto decomposto em características. Só uma narrativa, digamos assim, é capaz de oferecer uma imagem de uma vida humana que também leve em conta sua temporalidade específica e constitutiva. A voz descritiva tem sua função específica, sua jurisdição regional, e serve muito bem quando o caso é apresentar entidades de outras naturezas (a ciência, por exemplo, pode e deve ser descritiva e explicativa, na maior parte das vezes), mas suas garras não são capazes de envolver e apanhar o tecido no qual é tramada uma subjetividade.

Se a narração é melhor que a descrição para abordar a singularidade das vidas humanas, isto se dá por várias razões. Uma delas é a já citada especialidade da temporalidade que a narrativa permite que apareça – e que na verdade é constituída no decurso da elaboração da trama, do enredo que estrutura uma história – e que é a temporalidade específica da existência humana. Outra razão é, porém, mais embaraçosa: a narração é maior que a descrição porque a narração incorpora outra forma de discurso: a prescrição. Mais do que isso: a narração entrelaça, de forma indissociável, o elemento descritivo através do qual aparecem os acontecimentos que compõe uma história com o elemento prescritivo mediante o qual tais acontecimentos são vividos mediante um sentido ético, mediante uma perspectiva sempre impregnada de valores, desejos e crenças morais sem os quais, em última instância, os seres humanos não podem ser pensados.

A história de uma vida, portanto, faz o que nenhuma abordagem conceitual jamais conseguiria fazer: organiza os episódios importantes mediante um itinerário, mediante um enredo que mostra como uma pessoa, através de suas escolhas, se tornou quem é ao agir e sofrer as circunstâncias de sua vida. E tentar contar a história de uma vida para além ou para aquém da dimensão das motivações e finalidades morais nos mostra sobretudo o quanto tal cenário não nos causa senão estranheza: dificilmente alguém se defrontaria com O Estrangeiro de Albert Camus ou com qualquer obra de Samuel Beckett e não vivenciaria um mínimo estranhamento – eventualmente até mesmo catártico. Diminuir ao máximo o elemento prescritivo – isto é, o espaço para o discurso no qual serão pensadas as motivações e finalidades de uma vida singular – produz um vertiginoso efeito de estranhamento, estranheza. O Meursault de Camus é um estrangeiro à todos os homens e mulheres que caminham com ele sobre o mundo, pois vive além ou aquém dos seus motivos e fins.

Embora correndo o risco de me estender mais do que gostaria, preciso intervir cirurgicamente no ponto que acabo de apresentar. Preciso mover minha pena contra Ricoeur, com todo o respeito à ele, mas é preciso fazer uma pergunta decisiva à esse pensador para respeitá-lo como ele merece. E minha pergunta é: será mesmo que esse aspecto prescritivo da narração não seria, digamos assim, negociável?

Vamos dar uma olhada no setting conceitual com o qual Ricoeur aborda a dimensão moral da constituição narrativa de nossas identidades pessoais. Qualquer pessoa que abra a caixa de ferramentas com a qual esse intelectual francês aborda a dimensão moral da narração encontrará nada menos do que elementos dos dois kits provavelmente mais completos que já foram engendrados para essa tarefa: a ética de Aristóteles e a ética de Kant. A primeira, concebida pelo pensador mais potente e completo da aurora do pensamento ocidental, pensa o ser humano integralmente na direção de sua realização plena – ou, também assim chamada, de sua felicidade. A segunda, concebida na cabeça de um pequenino pensador alemão do século XVIII (e que foi, provavelmente, no sentido profissional e técnico que o termo tem hoje, o maior filósofo de todos os tempos), encarna a austeridade alemã e o espírito iluminista ao estabelecer seu núcleo na noção de critérios universais para a correção moral. Para Ricoeur, em suma, entendendo a noção de felicidade ou realização tal como Aristóteles a concebe (a ideia de uma “vida boa”) e a organização racional de nossas obrigações e deveres tal como Kant nos ensinou, temos um bom bisturi para penetrar no tecido na narrativa e, assim, mostrar o nervo prescritivo que trama a dimensão moral de nossas vidas.

Por que, então, desejamos ser vistos como grandes pecadores?

Não pretendo questionar aqui a opção de Ricoeur pelas magnânimas éticas de Aristóteles e Kant. Afinal, se o caso é tentar pensar a dimensão moral das vidas humanas, nada mais sensato do que se valer do que de melhor foi produzido historicamente em termos de reflexão sobre o assunto. Porém, parece razoável, nesse ponto, perguntar: não haverá, nessa escolha de Ricoeur, uma opção pelo prescritivo em detrimento do descritivo no que tange aos ingredientes que serão usados no cozimento do tecido narrativo? Mais ainda: não será possível conceber que um outro âmbito seja mais profundo e mesmo estruturante do nível moral da narrativa de uma vida?

Ora, é evidente que sim. Uma vida pode ser pensada e vivida como uma obra de arte.

E essa é apenas uma das possibilidades de deslocar a ética para o segundo plano da estruturação de uma vida. Marx tenta nos convencer de que a dimensão ética das vidas humanas é um subproduto de relações econômicas. Freud sugere que nossos valores são resíduos de vivências esquecidas mas ainda operantes em um plano pulsional muito mais profundo que o valorativo. E mesmo que Ricoeur argumente que a dimensão moral seja irredutível, para sermos justos com ele é preciso que não façamos as concessões que ele solicita apenas porque ele as solicita. Minha hipótese é a de que uma outra configuração, uma outra medida dos ingredientes é possível e pode oferecer um outro nuance da ideia de que uma vida é uma narrativa pois uma vida pode ser lida  e vivida em perspectiva estética.

Evidentemente essa não é a única maneira de refundar a dimensão moral em outras bases. Já mencionei a opção política de Marx, a opção psicanalítica de Freud e, para abordar essa perspectiva estética, uma das opções mais famosas seria a opção pelo pensamento de Nietzsche. Optarei, porém, por uma opção muito mais modesta mas que me mais cara e muito mais familiar, a saber, a prosa romanesca de Milan Kundera. Pois se podemos, eventualmente, desejar que nossa biografia seja contada de forma que pareçamos grandes pecadores, se podemos querer que o reconhecimento nos seja conferido pelos nossos vícios e não por nossas virtudes, isso significa que podemos, em certo sentido, querer o mal. Temos então um significativo entrave à racionalidade ética através da qual nossa vida moral seria compreensível.

Esse será o tema da próxima postagem.

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Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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3 respostas para A trama e seus tecidos | Parte I – “Que o mundo inteiro nos considere grandes pecadores!”

  1. quemsera disse:

    A questão é interessante, mas, não sei se compreendi bem a distinção proposta. Não te parece problemático entender o conceito de “prescrição” como “o espaço para o discurso no qual serão pensadas as motivações e finalidades de uma vida singular”?
    O problema de uma prescrição, nesse nível de discussão, é que é preciso apelar para o fenômeno do futuro. Mas, há futuro na narrativa, quando todo o sentido é dado em uma posterior constatação? Em outros termos, é possível pensar em um futuro que escape à estrutura narrativa?

    Abraço!

    • Vítor Costa disse:

      Fala meu caro!

      Primeiramente, li teu texto sobre “compreensão” e te devo um comentário. Pensei mesmo em escrever uma réplica, mas como esse texto que tu leste agora estava cozinhando sozinho em minha cabeça, preferi materializá-lo antes de qualquer coisa.

      O âmbito do discurso prescritivo, para Ricoeur em “O Si-Mesmo Como um Outro” é, digamos assim, o âmbito da ética. Que tem um vocabulário todo próprio. Que, em “Tempo e Narrativa”, aparece como tendo significativas regiões de intersecção com psicologia, com antropologia, com teoria do romance. É o âmbito semântico nebuloso onde conceitos como “motivo”, “ação”, “finalidade”, “consequência”recebem diferentes mas parecidas definições. Assim, Ricoeur entende que até que essas categorias sejam tramadas no enredo de uma história singular, elas não podem “mostrar” uma vida, mas apenas uma justaposição de elementos estruturantes sem a pessoalidade intrínseca que só a narração faz aparecer.

      É por aí que entra o futuro: no caso de um personagem de romance – a menos que seja personagem de uma trilogia ou algo assim, me parece – a narrativa dá a medida do caráter e fim. No caso de seres humanos, a narração dá a medida de um caráter em perpétuo comércio com uma promessa, ou seja, uma abertura para o futuro apenas pensável em relação com a alteridade.

      Acho que dá pra pensar em futuro sem narrativa, mas acho que isso produz paradoxos na estruturação da identidade pessoal. É o que me faz que o “Against Narrativity” do Galen Strawson seja uma excelente reflexão acerca da compreensão de vida das cabras montanhesas sonâmbulas que, ao acordarem no alto de uma escarpa rochosa no qual chegaram sem saber como, também não se perguntam sobre como aconteceu.

      Abraço e valeu pelo comentário! :)

  2. Após assistir Vanilla Sky caí em seu blog, e além dele muitos outros posts e gostos que assemelham-se aos meus. Estou seguindo vc agora! Parabéns pelo conteúdo!

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