A trama e seus tecidos | Interlúdio – Tempo suspenso de um estado provisório

Visitei o Museu de Arte de São Paulo (MASP) pela primeira vez nesse dezembro de 2016. E pela primeira vez vi alguns quadros que antes, para mim, eram apenas imagens em formato digital localizáveis por buscas na internet. Renoir, Van Gogh, Picasso, Delacroix e muitos outros nomes consagrado pela história da arte estavam lá, presentes em espírito.

A obra que mais me causou um incômodo, porém, foi a de um cavalete quebrado. Sim, isso mesmo: a obra intitulada Tempo suspenso de um estado provisório, de um artista chamado Marcelo Cidade, foi a obra que mais me chamou a atenção pelo simples fato de estar em uma exposição aparentemente pautada pela apresentação de grandes clássicos da arte figurativa.

A exposição é organizada por Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi e os cavaletes são de concepção de Lina. Na página do museu, encontramos a afirmação de que Lina e Pietro tinham uma resistência à arte abstrata em função dos “efeitos despolitizadores da abstração, durante a promoção da abstração geométrica realizada pelos Estados Unidos em sua ‘política de boa vizinhança’ durante a Guerra Fria”.

Sem pretender verificar a plausibilidade da atribuição de “efeitos despolitizadores” para qualquer tipo de arte o que me chama a atenção é justamente algo muito comum, a saber, a ideia de que a arte pode – ou que deveria, ou que já o faz de forma implícita – inspirar e orientar os comportamentos humanos. Tal ideia, que é muito comum em pensadores ou praticantes de política, também pode ser encontrada na reflexão do filósofo francês Paul Ricoeur.

Ricoeur concebe a identidade pessoal dos seres humanos como sendo constituída ao modo de uma narrativa e para mostrar os meandros dessa ideia ele se serve da Poética de Aristóteles e da teoria narrativa contemporânea. Ricoeur também afirma que a narração jamais pode ser “moralmente neutra”. Isto é: narração não é mera descrição, mas agenciamento de acontecimentos especificamente humanos e, portanto, atravessados de ponta a ponta pelo interesse moral dos seres humanos em viver o que Aristóteles chamava de “vida boa”. Essa convicção de Ricoeur implica em uma antipatia por certos tipos de narração que a tradição chama de “fluxo de consciência”, constituídas pela tentativa de captar a vida subjetiva dos indivíduos em sua pura espontaneidade. Para Ricoeur, tais narrativas oferecem uma imagem da subjetividade caracterizada por uma fragmentação da personalidade que, mais do que inverossímil, é perniciosa do ponto de vista moral.

Portanto, uma narração pode ser moralmente perniciosa e uma peça de arte abstrata pode ter efeito despolitizador. Porém, a quem interessa essa regulação do domínio artístico pela ética e pela política?

O romancista tcheco Milan Kundera, por sua vez, tem uma antipatia francamente evidenciada em seus romances: uma antipatia pela regulação moral e política da arte. Kundera viveu sob a égide da invasão russa ao seu país natal, a República Tcheca. Kundera viu o “realismo socialista” transformar os romances em histórias pueris e de mau gosto onde o grande nó narrativo era qualquer coisa como a história um casal que se desentende e que depois de duzentas páginas descobre o mal-entendido e celebra a possibilidade de viver um amor no melhor dos regimes políticos possíveis.

Kundera afirma ter visto e vivido a tão veementemente proclamada “morte do romance”: o romance morre quando é regulado por uma dimensão que lhe é exterior, quando sua vocação mais íntima é cerceada de saída por valores e critérios que lhe são totalmente estranhos.

Para Kundera, um romance deve obedecer um único critério: deve descobrir um território novo da existência humana. Por menor que seja esse território, essa é a vocação do romance. Assim, um romance jamais merecerá ser chamado de romance caso sua narrativa se constitua, por exemplo, em “propaganda política romanceada”. Política, moral ou religiosa, a o fantasma da regulação espreita e se serve da forma estética do romance desde a aurora de sua história.

A descoberta de um território novo da existência, porém, não se dá apenas em função do conteúdo narrativo que um romance apresenta, mas de como ele apresenta o que apresenta. A questão da forma – isto é, da arte da composição – é incontornável e inseparável da possibilidade do próprio romance (bem como da possibilidade de uma genuína crítica literária que não seja mera propaganda de romances que, por sua vez, também são propaganda romanceada).

Kundera não pensa que tudo o que vale para o romance também valha para outras práticas artísticas. Porém, pensando com o romancista tcheco é possível afirmar duas coisas: 1) o interdito político pode matar a prática artística e 2) a prática artística pode falhar ao se converter em algo que foge à sua vocação mais íntima. Cercear a prática da narração do fluxo de consciência ou da figuração abstrata em função de valores ou critérios éticos e políticos pode levar à uma espécie de morte da arte por razões externas à arte. Mas a arte também é capaz de morrer sozinha quando se coloca voluntariamente à serviço de uma vocação que não é aquela que lhe é mais íntima, a saber, explorar a existência.

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Uma última observação, de inspiração “feyerabendiana”: aceito que talvez empreender essa reflexão analógica entre romance e outro domínio artístico seja temerário. Que, no fundo, não haja qualquer coisa como “a arte” e que as reflexões sobre o romance não sejam imediatamente aplicáveis para as artes plásticas – ou paraa a dramaturgia, para a música, para o cinema, etc. Porém, quando Feyerabend reflete sobre o conceito de ciência, reflete sobre um campo que é o domínio da racionalidade analítica, explicativa, descritiva. Não me parece que dizer que não havendo qualquer coisa como “a arte em geral” estejamos flertando com um colapso da mesma natureza. Mas esse é assunto para outro momento.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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