“Depois da Virtude”, de Alasdair MacIntyre

Nossas teorias e práticas morais estão fadadas ao fracasso: nosso vocabulário é inapropriado, as sociedades ocidentais submergem num caldo de ficções onde a burocracia vende uma eficiência ilusória. As ciências sociais disfarçam o fato de que não tem poder de previsibilidade para não perderem seu lugar ao sol. Os filósofos modernos nos legaram uma galeria exemplar de modos do fracasso da reflexão moral. Diante desse cenário não resta nada senão voltar nossos olhos e ouvidos para os ensinamentos de Aristóteles e Tomás de Aquino enquanto esperamos um novo São Bento nos salvar do naufrágio que é a modernidade.

Essa é uma maneira injusta, mas talvez não incorreta, de resumir a mensagem contida no excelente Depois da Virtude, de Alasdair MacIntyre.

Topei com a obra de MacIntyre nos idos da graduação, quando não raramente alguma seção da referida obra era pinçada para a bibliografia de alguma disciplina onde seu apelo à “unidade narrativa de uma vida” era elemento para cotejo com as reflexões de Paul Ricoeur sobre o mesmo tema. Mas nunca tinha enfrentado todos os capítulos do livro por vontade própria, o que decidi fazer nessas férias.

MacIntyre nos oferece uma jornada que parte dos escombros da nossa vida moral contemporânea – porque segundo o autor nossos pensamentos e práticas morais não são senão uma colcha de retalhos, um amontoado de escombros semânticos de noções que não podem funcionar longe dos contextos nos quais emergiram. Para MacIntyre, a exigência de universalidade das éticas modernas é tão abstrata que as torna carentes de fundamento sólido, concreto, sociológico. E a modernidade não é o pior dos males: o vocabulário da filosofia moral clássica, aristotélico-tomista, atravessou uma ponte chamada “modernidade” e, nos dias de hoje, nos abandonou a um cenário onde só o que pode imperar é uma perspectiva moral que MacIntyre chama de “emotivismo”, ou seja, a ideia de que crenças e valores morais são eminentemente – e infelizmente – compreendidas como preferências pessoais de indivíduos. A moral clássica, inseparável da reflexão política e sociológica, percorreu um triste caminho pela modernidade fazendo com que, nos dias de hoje, não possa ser mais compreendida senão como fruto das escolhas de indivíduos sempre concebidos como ontologicamente anteriores às comunidades. Meu queridíssimo existencialismo é, para MacIntyre, uma perfeita expressão desse emotivismo – o existencialismo é um emotivismo, seria possível dizer, parodiando o título de uma famosa palestra de Sartre.

Se os indivíduos passaram a ser compreendidos no horizonte de um “esquecimento da comunidade”, digamos assim, a própria comunidade – as sociedades modernas – passaram por um processo crescente de burocratização, onde certos personagens sociais exemplificam a ilusão da eficiência administrativa. Dessa forma, o administrador e o terapeuta são exemplares privilegiados dessa perspectiva de mundo burocratizado onde o que importa é a ilusão da eficiência e do controle em um mundo constituído de tal forma que não há nem poderia haver ninguém no controle. As próprias ciências sociais – sociologia, economia, política – são denunciadas em seu pífio poder de previsibilidade. Fico com a imagem de que as sociedades ocidentais são como transatlânticos onde ninguém sabe pilotar a embarcação mas muitos – bárbaros, segundo MacIntyre – tentam e fingem saber, sem saber que do modo que a embarcação foi construída, foi construída para naufragar.

Como isso não é uma resenha – ou, talvez, no máximo, um comentário crítico – não posso me furtar de mencionar o tom piegas da conclusão da obra. O elogio das éticas de Aristóteles e Tomás de Aquino, o alerta contra os estoicismos e emotivismos, a menção ao salutar pessimismo de um Trotsky e a sugestão de que só um novo São Bento nos salvaria de um mundo que desmorona como desmoronou o Império Romano expõem mais uma alma ferida pela barbárie do mundo contemporâneo do que um pensador que realmente nos teria algo a sugerir como salvação. Talvez valha para MacIntyre – como penso que vale para muitos, muitos pensadores – aquilo que ele fala sobre Nietzsche: o valor de seu pensamento está em sua sagacidade e no esforço de sua investigação muito mais do que em suas frívolas propostas de solução.

À guisa de conclusão, deixo a forte sugestão de leitura do livro para todos que se interessem por ética, sociologia ou história da modernidade. Pois se a proposta prescritiva de MacIntyre é a nostalgia de uma vida comunitária, suas análises da ética filosófica moderna e da sociedade contemporânea são de uma sagacidade fecunda.

the-village

Em “A Vila”, uma pequena comunidade vive afastada da sociedade e cultiva costumes pré-modernos

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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