Sobre Formação e Vocação

“A integração da filosofia nas Instituições Científicas está sofrendo uma degeneração. Ela entrou desarmada na competição das especializações. Os modelos do pensamento científico parecem ter esvaziado as perscrutações filosóficas. A máquina científica move-se nestes modelos, enquanto a filosofia os questiona e os despedaça pelo seu interrogar sempre mais longe. Por isso, o vácuo no qual foram sugados os pensadores. Além de caros demais, eles mesmos não vencem o complexo de serem incestuosos. Que fará a sociedade atual, tão segura de seus critérios de ‘relevância’, com estes virtuoses do ‘acessório’? Para que servirá, afinal de contas, uma atividade que, tantas vezes, se perde numa auto-reprodução da história de seu pensamento? E a quem ainda convence a desculpa de que a nobreza da filosofia consiste precisamente em ser um fim em si mesma?”

– Ernildo Stein, em 1976

“A quem não conseguir suportar virilmente o destino da nossa época há que dizer: Regresse, em silêncio, lhana e simplesmente, sem a habitual e pública propaganda dos renegados, aos amplos e compassivos braços das velhas Igrejas. Estas não lhe levantarão dificuldades.”

– Max Weber, em 1917

De 20 a 22 de junho de 2007 aconteceu, em um pequeno e bucólico vale na região central do Rio Grande do Sul, o III Simpósio Internacional de Filosofia. O evento reuniu profissionais e estudantes de filosofia e foi centrado numa temática intitulada “identidade pessoal e reconhecimento”. Vale Vêneto – o nome da localidade onde tal evento foi realizado – foi ocupada por três dias por gente que mexe com filosofia. Sob uma parceria realizada entre a Universidade Federal de Santa Maria e a Faculdade Palotina, o evento foi organizado, entre outras pessoas, pelos professores Robson Ramos dos Reis, da UFSM, e André Cremonezi, da FAPAS. Para alguns dos presentes (para mim, especialmente, que orbito em torno do tema da identidade pessoal mais ou menos desde essa ocasião) o episódio foi sem par. Para os citados organizadores, segundo relatos que chegaram até mim, parecia uma ocasião de consolidação de uma parceria, mesmo de um projeto de prazo mais longo. Mas, os ventos da mudança sopram muito acima das nossas expectativas e por diversas razões – que não caberiam num texto dessa dimensão e talvez exigissem um livro inteiro – aquela iniciativa não foi continuada.

Hoje é sábado, 27 de maio de 2017. Estou em Santa Maria, em um dia chuvoso e frio. Em Vale Vêneto, nesse momento, estão os professores Robson Ramos dos Reis e André Cremonezi. Mais ou menos como há dez anos atrás.

A configuração dos elementos, porém, hoje, é totalmente outra. O professor André Cremonezi já não trabalha na FAPAS – onde eu, atualmente, leciono – mas no Instituto Federal do Paraná, em Curitiba. E do IFPR o professor Cremonezi trouxe um grupo de voluntariosas pessoas, entre colegas, alunos e ex-alunos, que o tem auxiliado a dar corpo para um projeto intitulado Programa Bildung, iniciado há uns três ou quatro anos. E foi assim que o Programa Bildung realizou seu primeiro colóquio, com as participações dos professores Antônio Augusto Passos Videira (Física – UERJ), Ronai Pires da Rocha (Filosofia – UFSM), o já citado Robson Ramos dos Reis (Filosofia – UFSM), entre outros. O professor Ernildo Stein, cuja citação abre esse texto, não pôde comparecer por razões de saúde.

O tema do colóquio foi o texto “A ciência como vocação”, do pensador alemão Max Weber. O texto, que completa seu primeiro centenário este ano, é um belíssimo documento – um “réquiem”, nas palavras do professor Videira – para um modelo de universidade e de ciência que encontrava seu ocaso no início do século XX. O modelo de cátedra, pavimento e plataforma de uma ciência que não se furtava em pensar o sentido do próprio fazer científico e da vida humana em geral no contexto da civilização ocidental e de seus destinos, era substituído pelo modelo departamental de especialização da pesquisa científica, de inspiração norte-americana. Weber, como uma biruta que indica a direção dos ventos da mudança, sinalizava que os novos tempos da ciência eram tempos onde esta já não poderia mais oferecer significantes norteadores do fazer humano. Segundo as palavras do prof. Robson Ramos dos Reis, o texto de Weber nos sugere um profilático estoicismo no trato com um mundo desencantado pela ciência desencantada. O “universo em desencanto” weberiano, porém, seria um novo universo no qual o “valor universal do conhecimento” – trocadilho cunhado pelo professor Ronai Rocha e incorporado em seu novo livro, no prelo, do qual o próprio professor falou na ocasião do evento – poderia enfim fulgurar. Se o universo – ou a universidade – da Bildung alemã onde o modelo de cátedras encontrava seu ocaso ao ser arrastado pelos ventos da mudança do modelo departamental de especialistas, ironicamente, a nova vocação científica da qual Weber falou – ironicamente em uma livraria, e não em um ambiente universitário – seria uma vocação que deixaria para outros domínios da reflexão e da ação humanas a resposta para a pergunta pelo sentido da vida, individual ou coletiva. E se, ironicamente, a ciência especializada realizada em departamentos tem uma similaridade estrutural com a democracia ao permitir dentro de si um espaço lógico para o discurso de suas próprias negações (assim como a democracia tolera o discurso autoritário que não a toleraria, a ciência também tolera o discurso irracionalista ou antiintelectual que a nega), foi sob o signo da Bildung alemã do XIX que foi possível, nas últimas quinta e sexta-feiras, falar sobre o valor universal do conhecimento, da formação e da vocação para a ciência. E se a universidade brasileira convive com diversos antagonismos externos (como o autoritarismo e o antiintelectualismo) e internos (as fragilidades que se seguem dos cenários produzidos, nas palavras do professor Ronai, “quando ninguém educa”), o Programa Bildung já aparece como um espaço, ainda que periférico a universidade, onde o sentido do conhecimento – ou seja, a herança da tradição universitária – ainda pode ser pensada. Um pequeno espaço onde a chama da qualidade de vida intelectual permanece acesa.

Além das palestras, o evento contou – ou contaria, na medida do permitido pelas temperamentais condições climáticas da região centro do estado – com um momento de observação astronômica e com um tour pelo Seminário Menor Rainha dos Apóstolos promovido pelo próprio professor Cremonezi. Com as atividades encerradas em 2006, o seminário é um monumento histórico que se agiganta no pequeno vale de tão doces ventos. Conduzindo alunos, ex-alunos e amigos através de cada cômodo da instalação, as palavras do professor Cremonezi produziam nas mentes dos presentes algumas imagens do que pode ter sido o seminário em seu funcionamento. Histórias de vida, paixão, fé, vocação e formação ficaram impregnadas nas paredes do seminário e eram reanimadas pelo relato do professor.

Weber disse que aqueles que não suportassem estoicamente o destino de sua época deviam, talvez, voltar às velhas igrejas. Ironicamente, foi dentro da velha igreja e sob o signo da Formação – que, embora em sua acepção alemã seja humanista e não exatamente cristã (ironicamente, o fechamento do velho seminário em 2006 foi selado com palavras talvez proféticas do Pe. Lino: “continuarmos favorecendo para que o local cumpra a sua finalidade formativa“) – que a vocação para a ciência foi relembrada pelo seu centenário histórico. Da minha parte – isto é, de da parte de alguém que retorna ao vale dos ventos, dos ventos da mudança, e que há 13 anos engatinha em sua formação acadêmica e profissional – foi novamente decisivo pensar sobre formação, vocação e sobre, afinal, minha própria identidade nesse cenário. Pois se a universidade tem tantos e tão intencionados inimigos dentro e fora dela que, pelos mais diversos motivos a querem reformada, transformada, descaracterizada, vendida ou mesmo destruída, é importante saber que aqui e ali – e eventualmente até mesmo nos bancos das velhas igrejas – será possível sentir o calor doce dos ventos da mudança e, não sem ironia e algum estoicismo, meditar sobre a própria formação humana, sobre a própria vocação profissional, sobre o valor universal do conhecimento.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
Esse post foi publicado em Despojos, Filosofança. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s