“Quando Ninguém Educa”, de Ronai Rocha

O que acontece com o ensino quando o imperativo da desconstrução vem antes da ideia de transmissão da herança cultural? O que pode ser a própria escola quando um silêncio constrangedor acerca do currículo só é interrompido por sussurros de slogans tão simpáticos quanto vazios? Como é possível que o aspecto epistemológico da aprendizagem seja negligenciado em nome de valores e projetos que entendem a escola de forma tão distraída? Aliás, como é possível se estar tão distraído a ponto de, por assim dizer, “fugir ao tema da redação” e, por décadas, confundir um livro sobre política com um livro sobre escola? Essas e outras reflexões são oportunizadas pela leitura do lúcido e bem-humorado livro do professor Ronai Pires da Rocha, Quando Ninguém Educa, lançado pela editora Contexto.

capa_quando_ninguem_educa_webCom capa de garrafais letras vermelhas sob fundo escuro e subtitulado com a frase “Questionando Paulo Freire”, o livro parece prometer alguma repercussão mesmo que possa vir a ser alvo de algum silêncio estratégico que o próprio texto parece admitir como possibilidade de resposta na medida em que apresenta um panorama onde a discordância só parece emergir sob um fundo de concordâncias profundas. A promessa de repercussão parece de possível porque, por exemplo, no momento em que digito estas linhas, o livro já foi comentado na famigerada revista Veja. Se eu fosse o autor, já estaria temeroso – e quase convicto – de que o livro será lido de forma tão predatória quanto é predatória a leitura hegemônica da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.

O livro parece composto de algumas, digamos assim, “linhas melódicas” que se recombinam e se retroalimentam, se revezando nas funções de “figura e fundo”, como se fizesse um permanente “zoom in” e “zoom out” para depois mergulhar novamente em “zoom in”, revezando a montagem de um panorama com a análise mais minuciosa de cenários mais básicos. Em uma polifonia de análise de documentos, digressões, apresentações de ideias de autores e relatos de experiência pessoal, o professor Ronai Rocha passeia pelos escombros de uma realidade pedagógica que sofre de, como ele mesmo diz, “penúrias” e “misérias”. O esquecimento do currículo, a antipatia pela ideia de disciplinas, a demasiada politização do ensino, o privilégio da desconstrução sobre a transmissão e a negação do arendtiano caráter conservador da educação são alguns dos temas sobre os quais a pena do autor passeia.

Do ponto de vista da circulação do livro, o elemento que mais e melhor se presta para a publicidade e para a propaganda das 153 páginas que estão chegando pelo custo de aproximados 30 reais às livrarias do Brasil é, sem dúvida, o ataque ao maior ídolo do imaginário pedagógico brasileiro: Paulo Freire. Ou talvez, para fazer justiça ao texto e dizer melhor, o ataque ao modo como as ideias de Freire circularam nos contextos de cursos de Pedagogia, no vocabulário e no imaginário de quem “trabalha com educação” nas últimas décadas. Se eu tivesse que vender o livro, diria que o livro é sobre como profissionais do ensino “zerariam a redação por fuga do tema” ao aplicar de forma frenética o conceituário freireano ao ambiente escolar quando, na verdade, o livro versa sobre a postura da esquerda diante do dirigismo revolucionário no trato com as massas. Em suma, o elogio da horizontalidade no trato com as massas – donde sai o slogan freireano de que “ninguém educa ninguém”, alvo da brincadeira que dá título ao livro – diz respeito ao modo como proceder na dimensão do engajamento político. O livro, em suma, não é sobre escola – que não aparece senão uma meia dúzia de vezes em toda a Pedagogia do Oprimido.

Por ter sido aluno do professor Ronai Rocha no curso de filosofia da UFSM, não considero que eu tenha isenção suficiente para resenhar o livro sem poluir o comentário que faço com minha apreciação por sua reflexão, sobretudo em tempos onde o imperativo da crítica acaba eventualmente operando no vazio produzido pela primazia da própria crítica sobre o conteúdo. A despeito disso, o livro não é um livro de polêmica e denúncia, como se vê no capítulo sobre epistemologia, onde o professor Ronai Rocha explicita os pressupostos epistemológicos do ensino e da aprendizagem que são desde sempre impossibilitados por posturas que privilegiam justamente uma sociologia do conhecimento que, inspirada por sentimentos meio milenaristas, privilegia a desconstrução em ambientes onde ainda não há nada erigido. O autor, que há vinte anos lançava uma obra, cuja a atmosfera era a de um fim de tarde de outono, acerca da situação da universidade brasileira, retorna talvez para nos lembrar, a nós, professores, que se ninguém educa ninguém, não devemos ficar surpresos quando a falta de sentimentos de pertencimento, de enredo e de obra se tornam hegemônicos e criam sentimentos de inverno onde a mística do professor se torna, no presente, quando ninguém educa, um antipático anacronismo, uma espécie de capricho, uma imagem tão fria e conservadora quanto, em suma, a ideia de educação.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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