“Pasenow ou o romantismo | 1988”, primeiro romance da trilogia “Os Sonâmbulos”, de Herman Broch

“… Até se dar conta, assustado, de que não conseguia mais abranger a massa difusa e gasosa da vida e que escorregava cada vez mais rápido e mais fundo em fantasmagorias absurdas que tornavam tudo incerto.” – Hermann Broch, Os Sonâmbulos

O primeiro livro da trilogia Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, é uma verdadeira obra prima e seu autor, em sua realização, dá um testemunho de domínio brutal de compreensão não só dos mecanismos da mente humana mas, também, das situações mais típicas da existência humana. Além disso, se faz necessário perceber a sagacidade de Broch na percepção da textura de um tempo histórico específico – a saber, o final do século XIX na Alemanha – marcado por uma profunda transformação daquilo que um Koselleck chama de relação entre “espaço de experiência” e “horizonte de expectativa”: através de personagens emblemáticos, Broch explora as possibilidades terminais de um mundo que encontra seu ocaso.

O enredo é tão prosaico quando pode e deve ser o enredo de um bom romance quando este se debruça sobre o âmbito prosaico da existência para fazer dele observatório de temas e motivos que exemplificam possibilidades humanas fundamentais. Centrado nas angústias de um militar que de maneira muito caricata se agarra ao próprio uniforme como se este fosse uma âncora da solidez dos valores que realmente tem valor e solidez em um mundo sendo violentamente arrastado pela força da transformação histórica, o romance de Broch narra a história do tenente Joachim von Pasenow em um curto período de tempo onde este é obrigado a fazer escolhas capitais acerca de sua vida. Pasenow é confrontado com a imposição de ter de escolher entre se casar ou não com a honrada Elisabeth ou, eventualmente, seguir seu desejo mais profundo e se atirar nos braços da vulgar e intensa Ruzena. Também lhe é imposto decidir se assume ou não a fazenda do pai, se segue ou não a carreira militar e, principalmente, se dá ou não ouvidos aos conselhos de seu amigo Bertrand, pessoa que, para Pasenow, é a própria encarnação da decadência ao ser alguém que não compreende o quanto é desonroso viver uma vida civil sem, ao menos, sentir um mal-estar profundo por desfrutar de tão decaída posição social.

Bertrand merece, aliás, uma menção especial e é peça-chave na trama. Funcionando como uma espécie de psicopompo às avessas, Bertrand é simultaneamente cínico e cético, existindo à distância de si mesmo na maior parte do tempo, como se o mundo fosse todo inteiro um complexo de utensílios disponíveis para sua manipulação e administração. Distante dos infortúnios que eventualmente o atingem pessoalmente, Bertrand parece viver para além do bem e do mal e sua amizade com Pasenow é tão difícil de ser explicada em termos pessoais quanto é uma viva ilustração do choque entre duas épocas, entre dois mundos, entre duas Weltanschauung distintas: se Pasenow, como sugere o título do romance, encarna o romantismo, Bertrand é uma espécie de  anti-herói weberiano em um mundo romântico, pensando a realidade em termos práticos e operacionais, sem o aparente compromisso de vivê-lo de forma intensa, genuína, autêntica.

A intensidade da vida interior de Pasenow é um dos melhores observatórios da arte de Broch. Descrevendo os resultados do monólogo interior de Pasenow sem nos obrigar a viver dentro da cabeça do personagem, o romance oferece uma comicidade que não se confunde com o alívio cômico pois, pelo contrário, revela com o microscópio mental romanesco a profunda incompreensão em que Pasenow experimenta sua própria vida, incompreensão que só se apresenta direta e incontornavelmente em momentos muito raros, ilustrando experiências que freudianos considerariam falhas das operações de racionalização ou nas quais existencialistas veriam os arroubos da angústia que permanentemente ameaça uma vida de má-fé.

Uma outra famigerada ótica que pode se deitar e se refestelar sobre o romance de Broch é a teoria do desejo mimético, de René Girard: tendo em vista que os desejos são em geral mediados por modelos exteriores que inspiram a ação, a constatação se torna automática: Pasenow não parece senão escravo de desejos importados por modelos muito próximos a ele – Bertrand, por exemplo – ou, já em linguagem lacaniana, não parece senão ser agido por um Outro que o encarna e o controla, o que faz de nosso protagonista um exemplar um tanto quanto trágico da aventura que é a mais humana de todas, a de ser alguém.

Do ponto de vista formal, além do esetoscópio mental que Broch desce até a cabeça de Pasenow para depois nos descrever, de forma sintética, o que está escutando, me chamam a atenção o uso de algumas técnicas muito interessantes: fluxos de consciência que ilustram momentos de profunda aflição; cenas oníricas onde somos forçadamente arrancados da perspectiva dos personagens e nos tornamos alvos da narração direta que nos toma por “você” para sermos, então, novamente, catapultados novamente para o terreno da ação em seu interior; cenas cuja riqueza de descrição é equilibrada a ponto de percebermos a penumbra azulada detrás das árvores sem sermos convidados ao desperdício de imaginação para conceber um abajur que componha o cenário e, por fim, uma conclusão quase que em forma de deboche com o leitor. Mesmo sabendo que é o terceiro volume de Os Sonâmbulos que consagra a inteligência de Broch na arte da polifonia da composição formal, o primeiro volume já deixa maravilhado qualquer um que passeia por suas quase trezentas páginas.

Se Girard sugere que todo romance é um observatório do desejo mimético eu, de minha parte, sugiro que todo romance pode ser um observatório daquilo que Sartre chamava de má-fé. E se o romance é essa mancha de Rorschach onde as teorias filosóficas podem experimentar seus instrumentos de análise e interpretação, é muito provavelmente em função do fato de que o romance é, ainda hoje, como diria Milan Kundera, um oásis de síntese intelectual onde as inteligências sedentas podem se refrescar – muito embora, saibamos que, não raramente, as inteligências não se saciam com o frescor da inteligência romanesca e tentem fincar palanques e demarcar um espaço de apropriação e colonização do território narrativo. Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, é certamente um desses oásis de inteligência.

Hermann Broch

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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