A horizontalidade como vocação

Em um dos melhores capítulos de Quando Ninguém Educa, o professor Ronai Rocha faz algumas distinções, pensando com Basil Bernstein, sobre os tipos de discurso e de conhecimento humanos e as implicações que os usos de um certo tipo de conhecimento pode ter quando um certo potencial de sua gramática fraca é mobilizado para a prática de um populismo pedagógico. Não vou reconstruir a argumentação do autor aqui. Recomendo a leitura do livro. Vou, no caso, desenvolver algumas de minhas impressões mais antigas porque, recentemente, elas estão com roupas novas.

Escutei, recentemente, no contexto de uma exposição sobre Thomas Kuhn e seu conceito de paradigma, que as Ciências Sociais e Humanas, coitadinhas, ainda não estão em um estágio de desenvolvimento que as permita operar segundo paradigmas. Enunciada de modo muito respeitoso e comedido, a ideia é parente e conterrânea daquela que, na paróquia da filosofia, tende a dizer que a filosofia continental é meramente expressiva, confusa e sem sentido. O enunciado, aos meus olhos, parece mais do que um enunciado pois deixa entrever os pré-conceitos, no sentido gadameriano, operativos em sua própria elaboração. Conhecimento, nesse sentido, só pode ser pensado em termos daquilo que Ronai Rocha, com Bernstein, chamaria de gramática forte. As Ciências Humanas estariam ainda engatinhando na medida em que produzem gramáticas que se acumulam mas não se integram em princípios, que produzem conhecimento de forma insular e que não raramente servem para que professores – pouco weberianos, vale dizer – possam grasnar gracejos compensatórios escamoteando uma reflexão epistemológica acerca da própria prática.

Eu ri quando ouvi que as Ciências Sociais e Humanas estariam em um estágio inferior de desenvolvimento, mas ri porque é verdade e é, talvez, uma tragédia. Um Cientista Social e Humano não é um físico nem um poeta, isto é, não opera nem desde uma gramática forte e dura como a gravidade, nem desde um âmbito discursivo mais expressivo do que informativo. Ricoeur diz que um dos maiores desserviços já feitos à hermenêutica foi a separação entre compreensão e explicação operada por Dilthey. Penso, com Ronai e Bernstein, que o resultado disso é justamente a perda de um momento vertical na elaboração discursiva das humanidades. O Muro de Berlim filosófico que Ronai avisara em 2000 que já havia caído há muito tempo, porém, deixa ainda visíveis os escombros de suas bases a partir das quais pode se ver de um lado uma tendência para a dissipação sentimental em narrações e testemunhos de vivências e, de outro, a imitação de um modelo científico que, nas Sociais e Humanas, se tornam não raramente caricaturais.

Sustento que para superar essa ausência de paradigma e atraso no seu desenvolvimento, as Ciências Sociais e Humanas deveriam elaborar o luto do sonho com um estatuto impossível e parar de pagar os juros dessa dívida externa com as Ciências Naturais. Isso, talvez, evidenciaria a impossibilidade de aplicação de conceitos como o de paradigma em um âmbito discursivo que, por natureza, não tem essa vocação eclipsada pelas imitações ora da ciência, ora da arte que as Humanidades não raramente empreendem. Humanidades que ousassem dizer seu nome talvez solucionassem os efeitos colaterais e os problemas importados pela tentativa de prestação de contas há muito já quitadas. Afinal, assim como há quem mobilize um certo potencial compensatório das humanidades através de sentimentalismos, também houve e haverá quem compreenda que as “artes, letras e humanidades” são um tipo de discurso que gozam de um valor intrínseco enquanto discursos e saberes.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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