“Os Sonâmbulos”, de Hermann Broch

Meses atrás, publiquei por aqui um texto sobre o primeiro romance da trilogia Os Sonâmbulos, de Herman Broch. Naturalmente, deveria falar agora do segundo. Mas não deu: acabei terminando a trilogia e prefiro comentar o conjunto da obra.

Depois das 947 páginas da tradução de Marcelo Backes – sempre encerradas por um posfácio deste sobre o texto – não houve como não ficar relativamente atordoado. A força da narrativa e a inteligência de Broch são tão cintilantes quanto opressivas: há como viver em um mundo marcado de tal forma pela decadência dos valores? Com Broch, aliás, é possível se perguntar: não será a História humana a história da decadência dos valores? A resposta parece incontornavelmente positiva em Broch, na medida em que sua narrativa sobre três gerações de pessoas – e, mais especificamente, três indivíduos – não postula nenhuma Era de Ouro que não exista senão no imaginário dos próprios personagens. Pelo contrário, se inicia justamente no poente da ensolarada tarde dos valorosos valores que estão sempre, no presente, a decair. E embora Broch escolha um recorte eminentemente cronológico para construir sua ficção – 1888, 1903, 1918 – Os Sonâmbulos parecem servir de maneira exemplar como observatório das atitudes possíveis diante da – perpetuamente passível de constatação – decadência dos valores.

Se esse papel de observatório é uma das razões pelas quais a imaginação de Broch merece nossa admiração, sua maestria na arte da composição atinge um patamar fora do alcance de qualquer comparação possível no terceiro volume da trilogia: misturando, ao longo dos capítulos, ao menos cinco linhas melódicas distintas, Broch cerca o tema da decadência dos valores de uma forma tal que sua polifonia – exaltada pelo meu queridíssimo Milan Kundera – cria uma perspectiva na qual é difícil pensar o romance sem uma daquelas vozes. Em especial a coletânea de ensaios A Decadência dos Valores – que compõe uma das cinco linhas melódicas do terceiro romance – quase poderia ser lida em separado, não fossem seus capítulos finais demonstrarem que o entrelaçamento entre a linha narrativa e a linha de ensaio e digressão é simplesmente necessário desde que se iluminam mutuamente.

Foram, como eu disse, 947 páginas. Mas se houvesse um outro tomo – embora seja impossível pensar a arquitetônica da obra de Broch distinta daquela que ela apresenta – eu provavelmente estaria lendo este quarto tomo. Assim, ao invés de comentar o enredo, prefiro tergiversar e comentar a tese explicitamente sustentada por Broch desde o olhar oferecido por uma combinação de pensadores de cujas ideias tomei conhecimento só muito recentemente.

Em 1979, Reinhart Koselleck escreveu uma obra chamada Futuro Passado desde a qual sugeriu, em seu último capítulo, que a experiência histórica pode ser pensada desde a articulação de dois conceitos, a saber, espaço de experiênciahorizonte de expectativa. Para Koselleck, tais noções nomeiam duas estruturas, digamos assim, transcendentaisformaisestruturais de nossa experiência histórica. Embora as noções só possam ser detectadas desde aquele momento histórico onde a tensão desde a qual funcionam fica mais expressamente evidente – a saber, a modernidade – seu potencial explicativo parece ter um alcance retroativo: sempre há, houve e haverá, onde quer que haja experiência histórica, uma tensão entre o campo da experiência histórica do presente e os futuros que podem ser vislumbrados, seja pela esperança ou pelo medo, desde esse campo de experiências. Considerados por Paul Ricoeur como conceitos fecundos para fins de orientação de uma hermenêutica da consciência histórica, os conceitos de Koselleck permitem mostrar, por exemplo, como a história do agir e do padecer humanos simplesmente assumem outra feição – outro gênero narrativo, se preferirmos – em diferentes regimes de organização da experiência do tempo. É no sentido de contribuir com Koselleck que François Hartog falará, já no século XXI, em regimes de historicidade e na possibilidade de que essa organização seja pautada pela busca de exemplos nas galerias do passado, pela paixão pelo progresso na busca por utopias futuras ou mesmo do insulamento em um presente integralmente episódico sem passado e sem futuro.

O texto de Broch, nesse chave interpretativa, opera desde a completa ausência de futuro. Escrito nas vésperas da segunda grande guerra, pode talvez ser lido como operando todo inteiro entre o passado áureo e o presente vazio em um mundo onde o futuro se tornou impossível. Assim, se Joachim von Pasenow é o romantismo da exaltação das tradições que já não encontram qualquer morada no presente e August Esch é a imagem da paixão pura por quaisquer ideais que eclipsem o devastador vazio de perspectivas, o grande antagonista da narrativa de Broch é Wilhelm Huguenau, o sujeito pragmático capaz de abraçar o vazio e viver ao sabor das exigências do presente, sem qualquer sentimento de enredo a viver ou obra a realizar. Os Sonâmbulos é, assim, a um só tempo, uma narrativa sobre o desmoronamento dos escombros de um mundo sem utopias na vertiginosa direção do nada onde apenas o sujeito vazio pode se sentir em casa. Vazio de crenças, de desejos, de valores ou finalidades, Huguenau é o único sujeito bem sucedido em um mundo que não é senão a ocasião para observação da decadência dos valores.

Paul Ricoeur sugere que um romance é, em certo sentido, um ato comunicativo, um convite do romancista ao leitor para que o mundo possa ser visto e lido desde sua perspectiva – o que ocasiona sempre uma colisão desses mundos ou, em linguagem mais doce e gadameriana, uma fusão dos horizontes do leitor e da obra. O gênero narrativo produzido pela história de decadência que Broch nos conta é certamente compatível com aquele entoado por muitas outras vozes da Alemanha do início do XX, onde um mundo dava adeus antes de cumprir as promessas que fizera e deixava todo um futuro passado como estrada abandonada e não percorrida pelos destinos humanos. Certamente é um olhar soturno que pode, certamente ainda hoje, promover não apenas o repertório de pretextos para a fúria indolente conservadora que se satisfaz na queixa e se identifica negativamente por tudo aquilo que supostamente falta no mundo mas, principalmente, o texto de Broch pode servir como um buraco de fechadura para observação dos modos de organização do tempo em suas estruturas mais íntimas. Um buraco pelo qual podemos espiar não só a atmosfera afetiva mas também a atitude que talvez não nasça da decadência mas, principalmente, que permite que esta apareça como nó explicativo da realidade.

Hermann Broch

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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