87 anos de insustentável leveza

Aproveito a ocasião do aniversário de Milan Kundera para, mais uma vez, prestar uma pequena homenagem àquele que de longe, no horizonte, inspira meus pensamentos. Assim, comentarei brevemente algumas de suas obras no intento de, eventualmente, instigar o leitor à leitura das mesmas.

A brincadeira é o primeiro romance de Kundera. Único romance escrito em primeira pessoa pelo autor, o romance nos apresenta a história de um indivíduo que retorna à sua cidade natal depois de 15 anos. Eu definiria o romance inaugural de Kundera como sendo uma elegante, embora não muito sutil, história acerca de como uma atitude impensada pode, em um único instante, arruinar a vida de uma pessoa. A história se passa na República Tcheca com o pano de fundo da invasão dos russos e das consequências cotidianas dessa invasão na vida do povo tcheco. O tema permeará todos os primeiros romances de Kundera e, nas palavras do próprio autor, não é senão um recurso artístico e narrativo, não devendo conduzir a leitura do romance para um viés político.

O livro do riso e do esquecimento é uma obra escrita sob a convicção de que um romance não precisa ser presidido por uma história centrada em personagens, mas em temas. Assim, Kundera cria uma narrativa que versa simultaneamente sobre a luta do ser humano contra o esquecimento bem como sobre as diferentes atitudes que podemos ter diante da vida e a expressão dessas atitudes nas formas como rimos. Formalmente sofisticado, O livro do riso e do esquecimento é às vezes considerado uma coletânea de contos costurada por um tema comum. Kundera, porém, enquanto artífice e comentador da própria obra, nos apresenta um romance organizado a partir de premissas exaustivamente elaboradas que podem, para alguns, parecer um pouco excêntricas.

A insustentável leveza do ser é, sem dúvida, o romance mais famoso de Milan Kundera. O romance é focado em quatro personagens através dos quais Kundera visa ilustrar a insuportável leveza da existência humana: como suportar uma existência na qual tudo é sempre feito pela primeira vez, onde cada instante pode determinar todo o futuro, onde nunca sabemos suficientemente qual é o destino par o qual marchamos com nossas escolhas, onde a morte pode surgir de forma inesperada e pondo fim à existência de forma absurda? Kundera conta que pensou em chamar o romance de “O planeta da inexperiência”. Aparentemente não gostou da adaptação que Philip Kaufmann fez do romance para o cinema, com participação de Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche, pois não permitiu que nenhuma outra obra fosse adaptada.

Risíveis amores é, este sim, uma coletânea de sete contos acerca das ironias e efemeridades dos afetos humanos. Escrita de forma mais leve e menos digressiva do que as demais obras, Kundera explora diferentes aspectos do desejo, da sexualidade e da existência humana em contos onde as ironias do destino e do desejo perpassam as pequenas aventuras cotidianas dos personagens.

A imortalidade é, para mim, um marco estético na obra de Kundera. O romance se agiganta em inteligência e domínio formal na arte da composição romanesca. Kundera mescla ficção, variação ficcional sobre figuras históricas, digressão filosófica, história, relato biográfico e aparece mesmo de corpo presente como personagem do próprio romance, rompendo a fronteira entre ficção, sonho e realidade como já anunciava nos romances anteriores e voltaria a fazer em obras posteriores. Nesta obra Kundera, atuando como personagem do próprio romance, chega a dizer que este livro é que deveria ter sido chamado de A insustentável leveza do ser.

A identidade é uma narrativa rápida e intensa na qual Kundera, novamente atenuando a separação entre sonho e realidade, conta a história de uma mulher que, de repente, se sente velha demais. A jornada dessa mulher que subitamente se vê destituída daquela que era sua identidade conduz o leitor em uma viagem que embriaga durante todo o trajeto e termina de forma surpreendente. É um dos livros mais “rápidos” de Kundera, escrito em forma que ele mesmo chama de vaudeville.

A arte do romance, A Cortina e Os Testamentos Traídos são, todos os três, ensaísticos. Neles Kundera comenta tanto suas próprias obras quanto obras de outros grandes romancistas. É possível notar na redação das três obras um núcleo de preocupações temáticas, estilísticas, estéticas e históricas acerca da arte do romance. Além de romancista, Kundera é um entusiasta da ideia de que o romance tem uma sabedoria que própria e insubstituível e que só aparece quando o romancista é genuinamente um artista e se deixa desaparecer por trás de suas obras. Só nesse caso a autêntica arte do romance acontece. É essa sabedoria que caracterizou uma história que nasce com Rabelais e Cervantes e atravessa os séculos até os dias atuais.

Há outros romances que poderiam ser comentados – como A festa da insignificância, publicado ano passado depois de um longo hiato – mas me detenho nessas sugestões específicas porque acho que umas duas ou três delas já são suficientes para se tornarem leituras inesquecíveis. No mais, desejo ainda longos, saudáveis e criativos anos para Milan Kundera.

Milan Kundera

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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