Brilho Eterno: a utopia do esquecimento

Depois de três meses, volto ao prometido comentário dos quatro filmes que batizei de “Utopias do Arrependimento”. E o segundo na lista é o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (no original, Eternal Sunshine of The Spotless Mind).

Não seria maravilhoso simplesmente esquecer daquelas coisas que nos causam sofrimento? Essa é a premissa da qual parte Brilho Eterno: não apenas é maravilhoso como é possível fazê-lo. Basta apenas a submissão à uma espécie de “lobotomia localizada”, que causa tanto esquecimento quanto uma bebedeira, e a pessoa está livre daquela rede de memórias – e, portanto, de afetos – que lhe causam tanto sofrimento. Através de uma empresa fictícia (a Lacuna Inc., parecida com a Life Extension de Vanilla Sky), a pessoa precisa apenas levar até os domínios da empresa alguns objetos relacionados com a memória à ser deletada. Após um rápido exame, os profissionais responsáveis pelo apagamento de lembranças localizam a área cerebral em que estas estão impressas e iniciam o processo de limpeza.

É a esse serviço que Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) recorrem quando seu romance lhes causa mais sofrimento que felicidade. Depois de um mal-sucedido relacionamento amoroso, Joel e Clementine se submetem aos serviços da Lacuna Inc. e tentam esquecer um do outro. O nó narrativo do filme se dá quando os profissionais da Lacuna Inc. estão na casa de Joel, realizando o serviço, e este toma consciência do que está fazendo. Joel, então, se arrepende uma segunda vez e tenta conscientemente impedir que o serviço seja realizado: tentando esconder suas lembranças com Clementine em locais cada vez mais remotos de sua consciência, Joel trava uma verdadeira odisseia na tentativa de salvar sua memória e, portanto, seus sentimentos por Clementine. Após uma série de eventos que envolvem até mesmo os profissionais da Lacuna Inc. no drama de uma vida vivida no esquecimento, Joel e Clementine recebem todos os seus pertences e as fitas gravadas nas quais falavam um sobre o outro. Recebem, assim, uma segunda chance: podem, sabendo quem são, reviver o romance esquecido e sem o risco de frustrarem suas expectativas ou, alternativamente, têm a chance de começar novos projetos. De forma catártica, o filme termina com Joel e Clementine juntos novamente, em uma impossível segunda chance de refazer o já feito.

Esquecimento, Eterno Retorno e o duplo arrependimento

Clementine and JoelFilosoficamente falando, os conceitos com os quais trabalha Brilho Eterno são consideravelmente mais pesados do que aqueles que vimos em Vanilla Sky. O conceito de esquecimento, por exemplo, nos coloca diante de uma realidade na qual elementos reais continuam operando aquém da nossa consciência. Embora tenha sido utilizado através da sutileza de uma ficção científica bem pensada e com a leveza de uma história de amor hollywoodiana, a ideia de que elementos esquecidos permanecem ativos em um domínio inalcançável ao nosso pensamento é uma premissa sem a qual, por exemplo, a obra de Sigmund Freud não seria possível.

O filósofo Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), por sua vez, nos dizia que o esquecimento é um elemento positivo, enquanto a memória é negativa. Do ponto de vista das necessidades vitais, o esquecimento é mais saudável que a memória: lembrar, por assim dizer, é uma atividade patológica. Re-memorar, re-viver o já vivido está no núcleo das atividades psíquicas que caracterização a decadência da humanidade, dando origem à coisas como o ressentimento, por exemplo. Além disso, o esquecimento tem uma estrutura paradoxal: tentar esquecer é lembrar. Não há maneira de se tentar ativa e conscientemente esquecer de algo. Assim, a possibilidade do esquecimento estaria ancorada em forças pré-conscientes, mais fundamentais que o próprio pensamento.

Em Brilho Eterno, vemos realizada uma verdadeira utopia humana: o esquecimento se tornou uma possibilidade concreta, acessível pelo âmbito da deliberação. Se não fossem os acontecimentos proporcionados pela relação dos personagens no filme, o esquecimento mútuo de Joel e Clementine teria sido um perfeito sucesso. A empresa fictícia Lacuna Inc. torna concreta a possibilidade do esquecimento como uma opção. Ainda que seja necessário se submeter à um processo artificial, a Lacuna Inc. torna possível atacar precisamente o locus da memória – evidentemente, pensado em termos neurobiológicos. A Lacuna Inc. torna possível o esquecimento consciente.

O que a Lacuna Inc. não pode garantir é proteção diante da contingentia mundi: a maestria do discreto – porém efetivo – nó narrativo, que faz com que Joel e Clementine terminem por receber as informações sobre seu passado esquecido, cria a possibilidade da “segunda chance”. Mas permite uma reflexão sobre um aspecto filosófico cujo respaldo, novamente, procuro na pena de Friedrich Nietzsche: o Eterno Retorno.

Ideia famosa de Nietzsche, o Eterno Retorno é pensado – entre outras perspectivas – como uma hipótese cosmológica que nos sugere que tudo o que acontece se repetirá. Esse convite fatalista à assunção autêntica da própria existência utiliza a hipótese cosmológica como ameaça: se tudo se repetisse, o que você gostaria que fosse sua vida? Ao responder essa pergunta, o indivíduo faria uma opção derradeira pela vida plena. É essa opção que é atirada no colo dos personagens Joel e Clementine: sabendo quem são e o que acontece quando se relacionam, arriscariam tentar tudo de novo?

Kate Winsley e Jim Carrey como Clementine e Joel

Kate Winsley e Jim Carrey como Clementine e Joel

O filme sugere que sim, e isso desde antes do final: quando Joel começa a tentar reverter o processo de esquecimento realizado pelos profissionais da Lacuna Inc., é possível constatar um arrependimento relativo ao arrependimento originário. Diante da iminência de perder suas lembranças preciosas, Joel começa a enfrentar o processo ao qual se sujeitou ao contratar os serviços da empresa. Esse é o momento áureo do filme e é em função do duplo arrependimento que o filme funciona. O seu final está desde o início anunciado e, embora hollywoodianamente catártico, pode ser lido de maneira quase-nietzscheana: sim, nós faremos tudo de novo. A opção de Joel e Clementine é a de dizer sim para o já vivido, dizer sim para a repetição, de dizer sim para a vida.

Minha única crítica, já realizada aqui mesmo e em um outro momento, embora de forma bem mais fraca, é a de que o filme só funciona porque Joel e Clementine são losers. Personagens quase vazios que, embora verossímeis, são sobretudo pessoas sem mais nada na vida. O amor é quase um prêmio de consolação à um casal carente e solitário. Joel e Clementine parecem mais movidos por suas necessidades do que por seus projetos e desejos. Curiosamente, o esquecimento é rejeitado como opção e diante da utopia oferecida no início do filme, o duplo arrependimento dos personagens faz a opção pelo Eterno Retorno e pela vida. No mais, o filme garante umas duas horas de catarse à quem procure uma história de amor com uma pitada de fantasia.

Sobre Vítor Costa

Um insistente amador na arte do pensamento. Acha que a existência é feita da mesma matéria que compõe os sonhos. E que cada situação é uma ocasião de aprendizado. Mas que podemos, sim, estar à deriva num infinito de absurdo.
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